segunda-feira, 29 de setembro de 2014

“Não soltes o pássaro se a arma estiver carregada” – parte I


Manda a prudência olho vivo e pé ligeiro, pois que arroubos de descarada impetuosidade juvenil há muito são água no deserto, notas na carteira, ou elegância em silhueta para as bandas do escriba.
Preâmbulo arguido passemos aos factos em suave narrativa, que assim se obriga por mor de entendimento superior das leis regentes da vontade humana, plebeiamente denominada PREGUIÇA
Do esplendor que estes olhinhos vêm não pode a verve curta e acanhada de um qualquer intrometido de pena em punho rabiscar papeleta, assim a modos de tratado académico, o arrepanhado de termos, frases e alocuções compostas por um espírito assoberbado e absorto no Belo que da pedraria primitiva emana.
Qual boi a olhar para um palácio.
É na encosta (a que se encosta) que o caminho faz sentido e o rumo se perde; sem bússola ou norte, pico e vale são parte do mesmo mistério, do intraduzível, e todos os lugares são iguais por diferença, pois que a manta, a dos rigores da invernia, ora curta, ora extensa; ou a rede do pescador que se une no nó primeiro e último e a todos os outros nós, também eles primeiro e último, sem perder dimensão, revelam o acto criador, a multiplicidade do momento primeiro, o paradoxo do criador que da peça única fez todo o resto diverso, mas conforme ao original.
Assim manifestada a incapacidade da diligência que se impunha, resta, mais por vergonha que por despeito de virgem ofendida nas suas virtudes – é esperança que não virtuais -, a tradução do horror, da labareda final que precederá o Juízo do mesmo tom, da bela Roma e sua queda aos bárbaros.
Pompeia sob as cinzas do Vesúvio.
Perambulando por Terras de Bouro ajaezado no burro mecânico, émulo movente de abrigo confortável cuja descrição pormenorizada de seus feitos daria a estocada de morte no parco interesse deste insonso rabiscado, buscava moçoila fogosa e prendada que, das suas artes, ousasse manietar-nos o palato, à laia de cachorro pela coleira, prodigalizando com lauto e generoso repasto a amabilidade, bem parecer e porte distinto de ilustres visitantes.
Pois que de terra abençoada pela beleza não se encontrava se não sujas carantonhas de pé descalço? E ermos lugares de bicharia infestados? Ó, rara avis in terris!
Reclamava o orgânico de cada um, ainda que de modo diverso se manifestasse – serei capaz de assegurar que o meu estômago devorou o fígado, seu parceiro, ou modernamente roommate, na pré-protuberante saliência do meu ventre de fêmea grávida de 3 meses, em processo autofágico e sugestivo do terror mais maléfico de que os incréus seriam capaz quando perseguiam Tarzan pela selva fora, naquelas tardes infindas de domingo comigo sentado no chão da sala a comer pão com marmelada acompanhado de leite com Nesquik, assistindo à sessão da tarde em preto e branco televisivo.      

 (continua)