"A serra do Alvão dá ares de mistério todo o ano, seja quando se veste de branco no inverno, seja quando o verde do verão dá mais forma aos seus recortes recurvados, de penedos e revinas arrepiantes. Ora, quando os olhos alcançam paragens com esta magnitude, a mente encontra o ambiente propício para dar largas à imaginação. Não admira, portanto, que em seu redor as lendas surgissem com toda a naturalidade, contando-se em tom arrepiante tanto entre aqueles que por ali viviam e ganhavam o pão nos montes e vales recurvados, como entre os caminheiros que por ali passavam, azafamados, a caminho de Viça Real.
Lá bem no alto da serra, já perto da povoação de Arnal, há um lugar que dá pelo nome de Penedo Negro, um enorme rochedo granítico e medonho e, não muito longe deste, um outro que dá pelo nome de Capela, por ter a forma de um típico portão de igreja, forrado de musgo verde e macio.
Muitos evitavam passar junto daquela «porta», pois achavam que ela os podia levar para «outros mundos»! No entanto, os que não tinham outro remédio se não o de encetar aquele caminho acidentado passavam com o credo da boca e alguns até se benziam, pois havia que dissesse que, à meia-noite, lá dentro, se ouvia um cantar muito triste e dolente de uma mulher. No entanto, nunca ninguém conseguiu vê-la, o que era um pormenor deveras inquietante...
Um dia, porém, já a madrugada ia alta, passou por lá um aldeão que ia para Vila Real às compras.
Justamente quando ladeava o enigmático penedo, ouviu um ruído semelhante ao ranger de gonzos de um pesado portão! Com os cabelos eriçados de susto, o homem olhou para a rocha e, imagine-se, deu de caras com uma senhora muito linda, de sorriso triste mas encantador, como nunca ninguém tinha visto, que lhe disse com voz meiga:
- Não tenhas medo e presta bem atenção ao que vou dizer-te. Eu sou uma moura encantada e tenho tanto oiro que não há balanças suficientes que o possam pesar a preceito. Pois todo este oiro será teu e ainda irei contigo e casaremos, caso voltes e consigas desencantar-me. Por isso, traz-me da Vila uma bôla de quatro cantos. Mas toma bem sentido: não a encetes por nada deste mundo; senão dobras-me o encanto!
Dito isto, desapareceu outra vez no interior do Penedo Negro e a porta voltou a fechar-se!
O bom homem fez-se à estrada de imediato, mas as palavras da estranha senhora não lhe saíam da cabeça.
Mal chegou à cidade, tratou logo de arranjar uma bôla como aquela que ela tinha demandado, não fosse o pão acabar cedo, pois era dia de feira. Só depois iniciou as outras voltas.
Fez o resto das compras com toda a pressa que conseguiu, enfiou o alforge no cajado e pôs-se novamente a caminho de casa, já com o sol a baixar para trás da serra. Mas não tinha comida nada o dia todo e a fome apertava...só levava a bôla que quatro cantos, que a tal senhora lhe recomendara tanto que a levasse bem inteirinha. Mas, e se perdesse todo o ouro que ela lhe tinha prometido? E se não houvesse ouro nenhum? Com a barriga a rugir de jejum, o homem não sabia o que pensar.
Então, pôs de parte aquela ideia maluca e continuou a caminhar.
Quando passou pela aldeia de Agarez, avistou uma fonte, onde o cair das águas nas pedras até pareciam estar a convidá-lo ao descanso.
Resolveu então parar e recomeçou a matutar com os seus botões: « É certo que prometi à senhora levar a bôla inteira e eu não sou homem de faltar à palavra. mas como diz o outro, â fome ninguém resiste. Vou comer só um canto e levo-lhe os outros três. A senhora pareceu-me tão boazinha...há de compreender e perdoar.»
Assim o fez. Sentou-se à beira da água, pousou o alforge e arrancou um dos bicos do pão, bebendo depois um grande trago de água. Depois, já reconfortado, retomou a subida da encosta. Ao chegar junto do Penedo Negro, bateu com a ponta do cajado. A porta abriu-se e a senhora reapareceu, mas vinha zangada e gritou-lhe num pranto que vergou todas as árvores do monte:
-« Em cavalo de três pernas,
contigo não posso ir.
Fecha-te, porta de pedra,
para nunca mais te abrir.».
Depois desapareceu enquanto o diabo esfrega um olho, atrás da porta de pedra, para sempre.
O pobre do homem, com os três cantos da bôla na mão e o alforge das compras ao ombro, partiu, desalentado, para a sua aldeia, onde passou o resto da existência a lamentar o dia em que tinha cedido à tentação.
Já o penedo mudou de nome e, desde então, todos lhe chamam o «Calhau do Encanto».
in "Seres mágicos em Portugal", de Vanessa Fidalgo
a esfera dos livros, 1ª ed., pág. 227 a 229