quarta-feira, 24 de junho de 2020

Dia de S. João


Não é preciso passar a ponte
ou fugir em contra-mão;
vou-me pirar para o monte
mal acabe o S. João.

Atazana-me esta perrice
das saudades de tarde soalheira;
falta-me a Tasca d'Alice
mai-lo vinho, a moura e a alheira.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e destas gentes



Dia da Raça, da traça ou da junta da colaça.
Vem o Manel, o Alfredo e o Vilaça,
a tartaruga e a sua carapaça;
a perdiz, que é de caça, vem do mosteiro de Alcobaça.
Quem por lá passa - e não há quem o não faça -
traz pêssego ou uva passa
comprados a eito na praça,
mais o vinho murraça.
Ergamos então a taça
e brindemos à puta da Raça.


terça-feira, 9 de junho de 2020

TROFÉU COMEZAINA - VIII

Horácio
(clicar para ampliar)

"O episódio que vou contar aconteceu em 2017, aquando do trilho Bustilerne - Torrinheiras, o qual seria, à partida, como tantos outros, marcado apenas pelo prazer de percorrer entre montes e veredas os caminhos que nos conduzem à contemplação de paisagens naturais deslumbrantes.

Ao passar por Porto D'Olho, deparamos com o monte Pico do Alto da Varela, cujo acesso à Capela Nossa Senhora Mãe da Igreja, que se encontrava no cimo, se fazia por uma estrada interessante, mas cansativa, que serpenteava o monte.

Embora reconhecendo o interessa paisagístico visto do pico do monte, a maioria de nós não se mostrou com vontade de empreender essa íngreme subida, com excepção do Paulo Ferreira, que não queria perder a oportunidade de fazer mais umas fotos bonitas.

Enquanto ele foi, ficamos então cá em baixo a aguardar, quando nos apareceu um habitante da aldeia a conduzir um boi enorme até um tanque cheio de água que se encontrava próximo. Ali parados, obviamente, não podíamos desperdiçar a oportunidade de fazer o registo fotográfico do animal a saciar a sua sede, junto do seu dono que se encontrava de costas para nós.

Tudo normal, não fosse o senhor voltar-se repentinamente, no preciso momento do disparo da máquina fotográfica e subitamente dar um grito de aflição alucinante, e, levando a mão ao peito repetir "ai que eu morro...". Preocupados, mas com receio dos chifres do animal, (que por si só também se assustou) tentamos perceber o que se passava. Foi então que o senhor, que entretanto se acalmara, nos explicou que tinha sido operado ao coração e que lhe tinham implantado um pacemaker, pelo que, quando se voltou, e viu as máquinas fotográficas viradas pare ele, pensou que se lhe tirassem uma fotografia, o seu coração iria parar.

Depois de alguns minutos de conversa tranquilizadora, lá continuamos todos o nosso caminho, ficando este episódio para narrar então neste momento.".

A participação do Horácio remete-nos para os primeiros contactos dos fotógrafos com povos/tribos ancestrais que, receando o roubo da anima, recusavam-se deixar fotografar.

O próximo participante será o Manel, com prazo de entrega até 16 de Junho.


  

quarta-feira, 3 de junho de 2020

TROFÉU COMEZAINA - VII

Carlos Pinto
(clicar para ampliar)

"A MONTANHA POR ACHAR

A montanha por achar
Há-de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.
O santuário que tiver,
quando o encontrar, há-de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.
A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade."
                                        Fernando Pessoa

Com recurso ao sempiterno FP, presenteia-nos o Carlos uma panorâmica do mítico monte Farinha e o templo dedicado à evocação da Senhora, a da Graça.

É interessante des-vêr as fotografias não permitindo que as mesmas nos trapaceiem e aldrabem; des-vendo, ou des-lendo o que nos entra pelos olhos, é que somos chamados à realidade; de outra forma juraríamos impossível que em pouco mais de 2 horas houvéssemos percorrido a distância entre o pico e o local de toma da panorâmica. 

Às vezes, penso que somos malucos...

O desafiado, nas palavras do ora participante, é "Horácio esse escritor, fotógrafo e livreiro" - prazo de entrega da encomenda: 10 de Junho, dia da raça.
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terça-feira, 2 de junho de 2020

É dos livros, senhor!

"Dali até o povo, em cada linha de rampa, os pobres eram mais que o cisco. Assentes sobre taleigas, os surdo-mudos pareciam marcos de baliza à espera que os distribuíssem pelos campos; já os entrevadinhos tinham avantado para o meio da estrada, sobre os cotos das mãos ou as pernas engatinhadas, algumas secas da faca, e deitavam a lamúria:
- Ó meus ricos senhores, dai a esmola ao aleijadinho! Olhaide para a minha triste sorte!
Outros, no meio de mondongos, punham ao léu chagas cancerosas, mais roxas que as do santo Cristo, e charqueiros de putreia onde bichos reboludos, de cinta branca, e a mosca vareja vasculhavam. E berravam que o céu tremia:
 - Ó almas caridosas, dai cinco reisinhos ao desinfeliz!
Os ceguinhos de nascença, de olhos vidrados, gemiam uma cantilena lenta e interminável como a noite que os envolvia:
 - Pela luz dos vossos olhos dai uma esmola ao ceguinho! E os entrevados e enfezados, de cabeça de alambique e corpo minineiro, em caixas de petroline ou canastras de sardinha, ao lado de matulões barbaçudos, estendiam a mão, a guinxar:
- Oh! tende dó, deixai uma esmola ao desgraçadinho!
Atrás deles, aqui e além, a dois tanganhos, a panela do badulaque fervia; e, no pavor, passava a olha do pespé rençoso, colhido em porta responsada a Sant'António.
- Por alminha de quem lá tendes, ò meus ricos senhores!
Aquele tinha o carão roído dum cancro e dava vómitos olhá-lo; uma mulher vergava a cabeça debaixo dum lobinho, nascido no pescoço, e tão grande era que parecia trazer às costas uma badana pelada.E a sua voz arremedava o ladrar dos cães:
- Ponde aqui os olhos, ó gente que passais! Por alma dos vossos avós, dai a esmolinha!
Jesus! um homem não tinha pernas nem traseiro, e, fixe sobre uma tábua, parecia enterrado de estaca. Mais além, um monstro, com a boca rasgada até às orelhas e sem nariz e sem dentes, era mais temível que a morte negra. E a fenda rubra gemia: 
 - Ó santinhos de Nosso Senhor, tende piedade! Dai cinco reisinhos!
 - Seja pelo amor de Deus! - murmurou Glórinhas. - Há cada espelho pelo mundo!...
- Levam vida regalada - disse a Zabana. - Não precisam trabalhar.
 - Deus do céu! eu antes queria andar de rastos como a cobra!"

"Terras do Demo"  - Aquilino Ribeiro
Ed. Bertrand, 1974, pág. 282/283