"Dali até o povo, em cada linha de rampa, os pobres eram mais que o cisco. Assentes sobre taleigas, os surdo-mudos pareciam marcos de baliza à espera que os distribuíssem pelos campos; já os entrevadinhos tinham avantado para o meio da estrada, sobre os cotos das mãos ou as pernas engatinhadas, algumas secas da faca, e deitavam a lamúria:
- Ó meus ricos senhores, dai a esmola ao aleijadinho! Olhaide para a minha triste sorte!
Outros, no meio de mondongos, punham ao léu chagas cancerosas, mais roxas que as do santo Cristo, e charqueiros de putreia onde bichos reboludos, de cinta branca, e a mosca vareja vasculhavam. E berravam que o céu tremia:
- Ó almas caridosas, dai cinco reisinhos ao desinfeliz!
Os ceguinhos de nascença, de olhos vidrados, gemiam uma cantilena lenta e interminável como a noite que os envolvia:
- Pela luz dos vossos olhos dai uma esmola ao ceguinho! E os entrevados e enfezados, de cabeça de alambique e corpo minineiro, em caixas de petroline ou canastras de sardinha, ao lado de matulões barbaçudos, estendiam a mão, a guinxar:
- Oh! tende dó, deixai uma esmola ao desgraçadinho!
Atrás deles, aqui e além, a dois tanganhos, a panela do badulaque fervia; e, no pavor, passava a olha do pespé rençoso, colhido em porta responsada a Sant'António.
- Por alminha de quem lá tendes, ò meus ricos senhores!
Aquele tinha o carão roído dum cancro e dava vómitos olhá-lo; uma mulher vergava a cabeça debaixo dum lobinho, nascido no pescoço, e tão grande era que parecia trazer às costas uma badana pelada.E a sua voz arremedava o ladrar dos cães:
- Ponde aqui os olhos, ó gente que passais! Por alma dos vossos avós, dai a esmolinha!
Jesus! um homem não tinha pernas nem traseiro, e, fixe sobre uma tábua, parecia enterrado de estaca. Mais além, um monstro, com a boca rasgada até às orelhas e sem nariz e sem dentes, era mais temível que a morte negra. E a fenda rubra gemia:
- Ó santinhos de Nosso Senhor, tende piedade! Dai cinco reisinhos!
- Seja pelo amor de Deus! - murmurou Glórinhas. - Há cada espelho pelo mundo!...
- Levam vida regalada - disse a Zabana. - Não precisam trabalhar.
- Deus do céu! eu antes queria andar de rastos como a cobra!"
"Terras do Demo" - Aquilino Ribeiro
Ed. Bertrand, 1974, pág. 282/283