sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Gralheira e Panchorra e Vale de Papas e Bustelo da Lage - mais 1 ficha, mais 1 viagem!

Por mais voltas que o planeta enlace o Sol, haverá sempre algo por explicar. Das novas do mundo que nos aparvalham a vidinha burguesa e cómoda, aqui e ali recheada por um excesso, apenas para compor a consciência.

Na aldeia da Gralheira, serra de Montemuro, a 1.110 mts. de altitude, existem 2 restaurantes-porta-aberta, daqueles que não necessitam de busca apressada à cozinheira, arrancada ao lameiro entretida que estava na cuida da bicharada - um deles, pizzaria!  

Estas surpresas, assim à laia de provocação do demo aos simples citadinos inchados de sabedoria balofa, traduzem a força e vontade férrea arreigada nestas gentes de montanha, sofrentes do rigor invernil e do infernal estio; mais uma vez paira à lembrança a resiliência vomitada em catadupa boca afora pelas cavalgaduras que nos têm governado, agora que se apresenta novo bodo aos pobres com o dinheiro dos outros!

Por cerca das 11:00h a temperatura rondava os 0º, jurava a pés juntos a tecnologia embutida na viatura.

Pelo andar da carruagem não seria rebate falso, a julgar pelo estado dos caminhos que íamos vencendo a custo, mais pelo perigo do gelo na sola das botas que pelas dificuldades impostas pelo terreno.


Saídos da Gralheira, caminhamos no sentido da Panchorra - por momentos, julguei-me a aportar a qualquer localidade mexicana.

Contudo, para memória futura, fixei para a posteridade o momento solene de entrada oficial na aldeia.


Novamente  o espanto a chapar-nos à fuça a sua presença: nas inquirições de 1258 - séc. XIII!!! - já a Panchorra é referida, ainda que incluída no termo de Ovadas, antigo centro religioso da freguesia medieval.

Espanto: se no séc. XXI atravessámos Ceca e Meca para lá chegar, quem teria sido a primeira criatura a decidir fixar-se naqueles ermos muito antes da data acima? Com aquelas condições climatéricas, qual alma do diabo seria doida o bastante para lá montar casa? Que penas, angustias, tristezas, seriam razão para arrastar alguém para ali?

Prorrogação do espanto: pelo menos para mim, são perguntas que não carecem de resposta; é assim que as coisas são, evitando-se delongas na explicação do fantástico que encerram.

Igreja matriz de S. Lourenço de Panchora.

Ponte sobre o rio Cabrum.

Na fotos acima é paradigmático o traço de intenção na instauração da comunidade: a igreja, enquanto agregador religioso; e a ponte, dizem os entendidos que construída por mestres locais ou regionais, dada a irregularidade nos seus componentes, valorizando-se o sentido prático das sua construção para a união das 2 margens e o mais fácil acesso aos terrenos agrícolas.

No verão, é o local transformado em praia fluvial - com a escassez de água, transformado o rio num fio de água, não admira o aviso numa placa, à entrada: - "Área não vigiada"; ou, como constava em inglês: -"Beach without watch".

Apesar do sol, a temperatura continuava baixa e não dava mostras de alteração significativa que obrigasse ao depósito da roupa excessiva na mochila.

Ao longo do dia, foi este o panorama mais comum: gelo resistente ao Sol;
 quando assim não era, o trilho tornava-se bastante lamacento. 

Com a vista a espraiar-se pela cumeada, saltava à vista a organização das propriedades limitadas pelos muros levantados em pedras. Todos eles, praticamente, sem serventia que se adivinhasse mas, imponentes na sua majestade de montanha, sóbrios mas assertivos na dignidade.

A um olhar mais acelerado passam sem cuidado marcas identificadoras de uma identidade própria - estão lá porque fazem parte, carecem de se anunciar.

Vale de Papas reservava a curiosidade de um ponto de venda de artesanato, atenta a pouca gente à vista - mais uma vez, o traço de resiliência impregnado neste viver!

Manifestação de religiosidade popular que para o 
citadino não passa de bizarria para o Instagram.

Por quanto mais resistirão estas paisagens?, por quanto mais fará sentido este modo de viver?


Muitas vezes é o caminhante assaltado no seu vagar pelo inquieto pensamento, sorrateiro e desafiador, assim como os felinos, propondo um desafio: e se fosse por aqui?, apenas seguir a estrada e deixar-se levar errante até ao próximo cruzamento e, então, desafiador, novamente o pensamento surgiria: e agora, por onde vais? Altas filosofias à parte, no caso foi apenas atravessar a estrada  e voltar a calcar a terra húmida. 


O complicado do Pessoa dizia que "viajar é perder países": modestamente, direi que o Sr. exdrúxulo-em-si estava errado - viajar é perder paisagens! Países são decretos administrativos que selam fronteiras.

Bustelo da Lage e um café já repetido de outras andanças 
onde os 0,70 € não pagam a paisagem envolvente.

A sempre fascinante divisão dos terrenos como marca da ancestralidade.

Perto do topo, o sol a esconder-se, a temperatura descia francamente.

"Num lugar da mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, 
não há muito tempo vivia um fidalgo desses de lança no cabide, 
adarga antiga, rocim magro e galgo corredor."
- a cada um, os seus moínhos.

Com o sol pelas costas, embora já sem qualquer efeito retemperador, foi necessário percorrer o resto da cumeada sob um vento forte e gélido, antes  de entrar no estradão que, atravessando uma Panchorra deserta, no devolveria à Gralheira pelo fim da tarde e a uns "reconfortantes" -1º de temperatura.