terça-feira, 26 de julho de 2022

Do pico da Nevosa à Turquia

Lembrei João Garcia, o alpinista português que já escalou as 14 montanhas acima dos 8.000mt., quando pus os pés no topo do pico da Nevosa.

No topo, no topo...não! Foi um bocadinho mais abaixo - apenas impossibilitado pela tempestade que fazia sentir-se lá no alto: a neve acumulada ultrapassava o tornozelo e as rajadas de vento ciclónico eram lâminas aguçadas prestes a martirizar-nos por completo. Enchi de pedras os bolsos disponíveis afim de servirem de lastro e qualquer tentativa de contacto com os restantes 15 companheiros da expedição cobrava alto à energia disponível. Para trás haviam ficado 5 companheiros, para todo sempre fundidos na massa branca de neve, caídos ainda antes do temível Desfiladeiro da Morte.

A montanha tem um preço.

Bem...até fazia bom tempo e o vento era manso e para trás apenas ficou o M. que não quis subir. A neve, até houve - mas em Dezembro, quando lá não estive. E não éramos 20 - apenas 4...

A subida à Mina das Sombra é feita por um trilho impenetrável e quase impossível de ser vencido. Palco de terríveis naufrágios e horríveis assassinatos a sangue-frio, a sua conquista encheu de glória os intrépidos aventureiros lusos. 

Apesar o mau tempo poder ser causa de turbulentas comunicações com a base, apenas o elevado preparo e cuidado posto na aquisição da mais elevada parafernália técnica de localização evitou o suicídio colectivo que todos prenunciavam. A cada minuto, íamos sendo informados pelos geo-localizadores-referenciadores que já estavam cumpridos 1.500mt, que já só faltavam 13.500mt e que já havíamos subido mais 3 metros em altitude após a última comunicação: é um descanso saber que 15 segundos depois, já havíamos percorrido 1510mt, que já só falt...................

Vista a partir das minas. Ao centro, são visíveis os destroços do galeão Sta. Maria de Tenerife, atíngido por um temporal medonho quando regressava da carreira da Índias ocidentais, em 1758. Os locais afirmam ouvir murmúrios esparsos em noites de tempestade.

Apenas a vontade indómita permitiu que, hoje, estivesse aqui a dar testemunho da façanha; as probabilidades de estar a fazê-lo no remanso do lar eram, à partida, praticamente nulas.
Durante 4 anos, após o anúncio da intenção da expedição, fomos vilipendiados no carácter por elementos da mais baixa estirpe moral; fomos alvo de troça e chacota por almas viventes do Velho do Restelo; fomos apontados como aberrações.
Contudo, nada nos demoveu de cumprirmos o destino, essa roda imparável que gira sem parar. Lembro, numa expedição ao Tibete, ter visto uma no mosteiro em que recolhi e ter dado o meu impulso à roda.

Não foi bem no Tibete, mesmo, mesmo no Tibete...foi no Restaurante Tibete, em Vale de Cambra, que havia uma roda giratória de especiarias em cima da mesa e eu andava à procura de cominhos...e também, em abono da verdade, não foram necessários 4 anos para preparar a expedição: foram só 4 dias - falámos na segunda e saímos no sábado.

Apartes à parte, retomo o fio condutor da brava gesta dos heróis lusitanos: os perigos inusitados de um compromisso desta envergadura ficaram explícitos quando a rareza de oxigénio começou a fazer efeito no cérebro do fotógrafo da expedição. Apenas a coragem e sangue-frio de J. evitou a tragédia que esteve mesmo, mesmo, à borda de acontecer. 

Por efeito da rarefacção de oxigenação no cérebro, P. o engenheiro-de-redes-fotógrafo-videasta-desenhador-empresário-timelapser-devorador-de-alheiras-e-mouras, principiou a ouvir vozes em tom cavernoso, de acordo com testemunho do próprio, sugerindo-lhe a queda em voo livre no abismo que se apresentava à sua frente - 3 km em linha recta até ao chão.
O instante em que a perícia militar e o arrojo dos bravos permitiu salvar no último segundo uma vítima inocente.

Fruto da experiência militar em forças de elite, J., antevendo o cenário que se preparava, aplicou em P. as técnicas mais avançadas de resgate em alta montanha, subtraindo ao delírio mais um vítima.
Foi o momento de maior tensão vivido até ali!  

Bem...na verdade, a voz que P. ouvira era a de J. aconselhando-o a recuar um pouco mais pois o local era perigoso...e o delírio de P. era apenas a intenção de ângulo mais fechado na foto que J. se prestava a sacar no telemóvel.  

O caminho prosseguia por entre penhascos inóspitos e trilhos instáveis que ameaçavam lançar-nos no abismo. Derrocadas imprevisíveis lançavam pedras e calhaus da envergadura de toneladas por sobre as nossas cabeças, reclamando para si a nossa ousadia.     

É visível o depósito de pedras após a derrocada. Fomos salvos pelo sismógrafo.

A aproximação ao pico gerou intensas ondas de ansiedade. Apenas os eleitos conhecem este frenesim dos diabos a apoderar-se dos nervos, trazendo à realidade o motivo que lá nos levara. Fomos resgatados ao torpor que se apodera do espírito, entregue à missão de nos guiar por entre insondáveis perigos mas inabaláveis convicções. Para espantar a morrinha do pensamento, vagueámos por momentos nas cercanias do Pico. Ao longe, se observados, alguém teria a tentação de dizer estarmos perdidos: ó GENTE DESCRENTE, apenas fazíamos horas... 

Após inúmeras tentativas a subida ao Pico da Nevosa era um dado adquirido. Finalmente, podia arrogar-me o título de intrépido conquistador, audaz trepador e ousado aventureiro - os 2 picos mais altos de Portugal continental já estavam conquistados: o Pico da Nevosa seguiu-se à serra da Estrela, num passeio da escola em 1986. Acho que  foi o 9º B... 

Momentos inolvidáveis da grandeza lusitana, marcados na história logo a seguir às viagens do Vasco e à descoberta do Brasil.  

Ainda antes que o feito fosse notícia, já o prof. Marcelo nos comunicava a sua satisfação, prometendo-nos um medalha assim que chegássemos.  
Bem,..na verdade não foi  o Marcelo: acho que era um amigo do P. a propósito de um alçado...

A fim de evitar a tempestade que se anunciava medonha e terrível, foi opção encurtar caminho e passar pelo temível local das Minas dos Carris - actividades paranormais e cenas cósmicas polvilham a imaginação popular acerca deste local. Estava dado o mote para mais um grandioso desfile de coragem arrancado aos paladinos da audácia e bravura, entre os quais - modestamente e porque apenas sou obrigado pela força das circunstâncias -  eu me incluo.
Bem, na verdade até é um sítio pacato - apenas as carcaças das casas dos antigos mineiros dá alguma cor à imaginação. De resto...  

Faltava a última prova de fogo: atravessar a linha de fronteira e fugir aos demoníacos guardas, esperando não ser atingido por um tiro. Contam-se histórias de arrepiar um porco-espinho sobre a severidade e arbitrariedade destes personagens. Para fim de história, ainda restava a prova derradeira: descer o vale do rio Homem. RESPECT!

A cada desfiladeiro o perigo espreita, seja  em forma de derrocadas ou animais selvagens do mais selvagem que há.
 
Foi insano o  trabalho para vencer a vegetação acumulada e progredir no terreno, precavendo qualquer inconveniente que perturbasse a marcha gloriosa de regresso à civilização. Ainda que pudéssemos ser surpreendidos pela força militar, nada impediria o tropel esplendoroso da marcha civilizacional que representávamos; a candeia da vanguarda do conhecimento por nós empunhada e que cada homem, por esse mundo espalhado, sentado à borda do rádio, ansioso, notícias esperava desse devir que nossas almas aventureiras exalavam. VIVA O PROGRESSO!

Bem...na verdade, pela hora prevista para a nossa chegada, dificilmente seríamos surpreendidos pela guarda-florestal - eles, também jantam! E glória, glória...bem...era mais sentar o mocho no banco do carro e abalar até ao restaurante.

Emocionado, o sr. Lino quase se desfez em lágrimas à nossa chegada. O restaurante em pé, aplaudindo-nos, frenético. Para nós, o reconhecimento justo.

Finalmente, o descanso do heróis em forma de refeição: Falafel de grão e ervas; hambúrger de legumes; quiche com batata doce; creme de inhame; risoto de quinoa com cogumelos; tofu com natas, eram as sugestões de refeição. A união dos planos físico e espiritual,  a simbiose com vista ao aprimoramento do Ser, o abandono do plano sensorial para o êxtase contemplativo da luz interior.   

Bem...em boa verdade, não foi esta, a ementa - foi bacalhau em duas das infinitas possibilidades para levar à mesa; e não houve nenhuma contemplação da luz interior, foi mais sobre a adesão da Turquia à UE.

Ah! O restaurante levantou-se, mas não todo - foi só a uma mesa para nos deixarem passar.