quinta-feira, 22 de junho de 2023

Do desconcerto do mundo.


 Do desconcerto do mundo em 11 pontos:

1 - Por sua conta e risco, 5 milionários patrocinaram uma viagem de turismo mórbido,

2 - usando um submarino (????)

3 - sem homologação (????),

4 - cientes do perigo em que incorriam.

5 - Houve um problema grave causador de uma implosão

6 - provocador da morte de todos.

7 - O mundo está chocado com o infortúnio dos infelizes.

8 - Telejornais alargaram emissões,

9 - convidaram especialistas

10 - e declararam luto mundial. 

11 - Todos os dias, por sua conta e risco e para fugir à miséria e à guerra, centenas de migrantes do norte de África embarcam em botes e embarcações rumo à Europa, cientes do perigo em que incorrem. Há sempre problemas graves e mortes a registar. Muitos, são lançados ao mar. Telejornais alargam a emissão, convidam especialistas e discutem o divórcio do casal real.  

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Das Alminhas



Sempre tive fascínio pelas "alminhas". Lembro que, ainda antes de poder formular qualquer hipótese sobre o que via, sentia o olhar atraído para aquelas construções de beira de estrada - talvez pelas cores garridas que saltavam das pinturas alegóricas, ou  pelo inusitado da vista de figuras que eu considerava como pertencentes ao interior dos templos, ali à mão-de-semear.

Com o passar do tempo, fui-me aproximando - literalmente, aproximando! - vencendo o temor reverencial que emprestamos àquilo que desconhecemos, e ganhando curiosidade por aquela manifestação de religiosidade bem entranhada no sentir português.


Bem presente no património cultural português, a existência das alminhas, junto às redes viárias e encruzilhadas, é caso único no mundo: a representação das almas do Purgatório suplicando rezas e esmolas para sua salvação. (https://www.snpcultura.org/vol_alminhas.html).

O Purgatório foi uma imposição dogmática saída do Concílio de Trento como resposta da igreja católica à reforma protestante. "O céu e o inferno são os dois destinos eternos."(As palavras da palavra" - pd. Gonçalo Portocarrero de Almada e Zita Seabra, Aletheia Editores); o purgatório é uma certeza de salvação impondo uma purificação antes da ascensão aos céus.


Para "estas coisas" do inominável, do indizível, gosto de socorrer-me da erudição do prof. Moisés Espírito Santo, estudioso profundo e aclamado das "leis" não escritas e ancestrais que regem o nosso viver de todos os dias e pelas quais passámos como cão por vinha vindimada: 

"O conjunto das almas da aldeia é objecto de um culto propiciatório e local, que se pratica nas encruzilhadas das estradas e constitui uma das mais salientes características da religião popular. Cada encruzilhada possui um pequeno monumento incrustado na parede, como um nicho, que ostenta uma pintura protegida por um vidro: são as alminhas, que podem chegar a ser em número de várias dezenas numa mesma aldeia. Uma encruzilhada é um lugar eminentemente sagrado e constitui uma ruptura do espaço segurizante da aldeia. Os letrados e o clero consideram esses nichos como uma homenagem às almas do purgatório, mas eles estão de facto relacionados com a errância das almas e com as "irmandades". Não obstante, por influência do clero e nomeadamente como reacção à Reforma que negou a existência do purgatório, esses monumentos desenvolveram-se a partir do séc. XVI, representando invariavelmente as almas no meio das chamas, agarrando-se às mãos, aos pés, ao cajado, ao cinto de figuras como Santo António ou São Miguel." (in A religião popular portuguesa, pág. 186 - Moisés Espírito Santo - Assírio & Alvim).

O caminho, sempre o caminho e os passantes, como metáfora desta vida a cumprir-se: uns, vão; outros, vêm. 

"Nas alminhas da estrada
Nunca passes sem rezar
Talvez um dia precises
Das preces de quem passar"

"Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós, que estamos penando."


"Vós, que tendes por aqui passado, lembrai-vos de nós, cada vez mais"
(in Alminhas do Alto Minho, pág 10-11, Ana Eleonora Borges - Ed. Apenas)



"As alminhas foram inicialmente constituídas por um painel onde se representavam, através de pintura, as almas do Purgatório ansiando pelas orações dos vivos. Elas representam a materialização da
relação "próxima" entre o Homem e a Divindade,  entre o microcosmo que nós somos e o macrocosmo, através de um simples mas piedosa construção com elevado sentido religiosos  piedoso. (...) As alminhas simbolizam a preocupação sempre presente e a piedosa devoção, que sobretudo no alto Minho existe,  do culto aos mortos e da sua mística.
Orar por aqueles que partiram, ajudá-los através da oração a encontrar a tão almejada paz, isto tudo como expressão de amor, de saudade, da aceitação pelo inevitável, desejando contribuir para que o percurso posa ser para eles suavizada, é um facto. (...) O martírio da expiação e a ideia piedosa da oração como forma de reduzir a pena. A chamada de atenção para aqueles que, estando ainda a partilhar a vivência terrena, devem tomar atenção a forma como vivem a vida; são  esses os fundamentos para estas construções, estes pequenos templos de Oração." (in Alminhas do Alto Minho, pág 8-9, Ana Eleonora Borges - Ed. Apenas)


 
Como tantas outras coisas neste país, também este património sofre com o vandalismo intelectual dos "fazedores de opinião" que, brandindo a esponja da moral e a lixívia da sua mente, pretendem-se criaturas impolutas, perfeitas e exemplares, teorizando filosofias de bagatela sobre o passado, o presente e o futuro, e  também sobre os fundamentos que nos construiram - bem ou mal, estão em nós presentes!


Os 2 livrinhos que a seguir se apresentam em foto são curiosos trabalhos da década de 50 do século passado, levados a cabo pelo pe. Francisco de Babo. Neles, é feita a apologia desta manifestação popular e o apelo a todos numa "...cruzada de beleza, fé e piedade...(Alminhas, padrões do Portugal Cristão, pe. francisco de Babo) para "...bordejar as nossas estradas e caminhos desses como que marcos miliários de espiritualidade, que chamem a atenção dos transeuntes para o sentido dos caminhos de Deus..."(Alminhas portuguesas, pe. Francico de Babo).


Pretendia o incansável divulgador, criar um movimento pujante de restauração, incremento e adoração de alminhas, afirmando, imperativo: "Adense-se a rede de capelinhas da devoção e da arte popular, construam-se nichos de Alminhas em profusão, por todos os lugares e caminhos..." (Alminhas, padrões de Portugal Cristão).

Numa linguagem típica de época, bem paroquial e ao jeito do Portugal retrógrado de então, sumariava os resultados advindos com a publicação do 1º volume: "A campanha esbraseante, feliz e ovante da restauração das alminhas portuguesas dos caminhos e encruzilhadas e da nova plantação ao longo de todas as vias das praias, dos campos, das serras, nas aldeias, nas vilas e cidades, incluindo a capital, onde tiveram sua hora de glória, há séculos, pretende ser o signo patriótico-religioso do segundo quartel da centúria em que vivemos, como os cruzeiros o foram da época dos Centenários por volta de 1940." (Alminhas Portuguesas) 

Pormenor da capa do 2º volume

Na contracapa do 2º volume, encontra-se escrita a explicação que descodifica a gravura da capa: "Portugal, que Nossa Senhora de Fátima livrou da maior guerra mundial, oferece-lhe, como preito de gratidão, a cruzada de restauração das lindas e tradicionais Alminhas.

Servi-me, também, de uma breve descrição das "Alminhas do Alto Minho", da editora Apenas (http://apenas-livros.com/pagina/inicio) excelente na proposta de pequenas introduções a grandes temas da etnografia, etnologia, folclore e outros, a preços muito convidativos.


Certamente por associação de ideias, pertinente partida do meu cérebro, lembrei aquele famoso soneto de Camões: 
Alma minha gentil, que te partiste 
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento etéreo, onde subiste, 
Memória desta vida se consente, 
Não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meu tão puro viste

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus que teus anos encurtou
Que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
Quão cedo de meus olhos te levou.

sábado, 10 de junho de 2023

Dia de Portugal, dos portugueses e de quem quiser.

                                                                        VIAGEM

                                         Não penses na rédea, na espora,
                                         não penses nos cavalos que partiram num qualquer 
                                         outono,
                                         não lamentes, não olhes para trás,
                                         não queiras dar o seu a seu dono,
                                         e vai,
                                         vai simplesmente para sul, para o acaso de tudo,
                                         e pelas noites brancas derrama uma lágrima,
                                         uma lágrima de ouro.
 
in Biografia - José Agostinho Baptista