Não deixando arrefecer o tema da última publicação - é curioso como as ocorrências se interligam, uns dirão que é o universo em conluio, outros, dirão coincidência: mas é curioso! - encarei um livro da minha biblioteca cuja narrativa nos envolve na viagem "que o ORFEÃO e TUNA ACADÉMICA DO PORTO fizeram, por várias e distantes cidades de Espanha, no ano da graça de Nosso Senhor, de 1928."
Travestiu-se o autor de jornalista, durante a jornada, e compilou dados e notas para para posterior narrativa da mesma. Atravessando a Espanha a partir da fronteira de Barca-dÁlva aportaram a Barcelona, passando por Medina, Valladolid e Tarragona.
De matéria impossível é qualquer comparação ao tempo actual, seja pelo espírito da demanda, seja pelas atitudes comportamentais dos elementos da comitiva - mas, mesmo assim, são narradas coisas do arco-da-velha: "Pelas proximidades, a "malta", amodorrada, abre os olhos, aplaude os contendores, acha deliciosa a discussão, mas...adormece de novo!" (pág. 32). Gand'as malucos!
Mas o ponto coincidente com o tema de abertura é a passagem pela fronteira em Barca-d'Alva, um dos temas discutidos na última reunião de condomínio. Quando fizemos o Trilho da Pontes, partindo de A Fregeneda, cumprimos essa parte do trajecto em sentido inverso ao da excursão exposta no livro. Tentando uma comparação de vistas, sensações, transcrevo as partes que me parecem as mais relevantes para o efeito, concedendo aba larga às diferenças de quase 100 anos.
"Partida da Régoa.
(...) Por tôda a carruagem, o ruído amáina. Os estômagos trabalham, silênciosamente, em diamantes. De seguida, com gulosa sofreguidão, a «malta» inicia um verdadeiro ataque às munições de reserva. Não há - vê-se - espírito de previsão. Será o que Deus quiser; chegando para agora...para logo, Deus dará! - dizem todos, rindo...
É a refeição alegre, cortada de ditos espirituosos, continua, por largo tempo. Recordando a minha missão de jornalista, peguei no caderno e saí, peregrinando ao longo dos corredores. (...) E a paisagem? Encostei-me alguns minutos à janela e esqueci-me a contemplá-la.
Montanhas, íngremes de rochas facetadas, e, por tôdas elas, oliveiras baixas, confrangidas na contemplação dos abismos; de quando em quando, riscando o fundo cinzento da paisagem, passa o tronco vermelho de algum sobreiro de pequena corpulência. Em frente à Quinta do Castelinho, o comboio pára. (...) Junto de nós, sempre ao nosso lado, como se não quisesse deixar-nos e caminhando para o coração de Portugal, enquanto nós nos afastamos dêle, o Douro, barrento e impetuoso.
Por vezes, a montanha aproxima-se, debruça-se sôbre o combóio e as rochas, de ciclópica corpulência sobrepostas e mal pousadas, ameaçam esmagar-nos.
(...) Pocinho. Pasmoso, o panorama! Oliveiras alinhadas num longo plaino fresco, e, em volta, a distância, fileiras intermináveis de montanhas. Sôbre uma destas, e nesta altura, o sol rompe, e ilumina uma pequena capela branca, de cúpula arredondada, com todo o sabor de capela mourisca!
Côa. Tonalidade verdejante. (...) As oliveiras baixas, sem rama, teem tôdas o troco grosso e envelhecido. Rebanhos de cabras olham, lá de cima, impávidas, o combóio...
A Espanha aproxima-se. (...) Vendo a vegetação alcandorada em sítios incessíveis, a gente chega a acreditar na geração espontânea...
Por fim, Barca de Alva.
Aparecem, imponentes, os primeiros «carabineros».
(...)Marchamos, de novo. Minutos depois, às 4,45 por entre a imensa alegria da «malta», que já só «habla» castelhano, entrrmos em Espanha. a paisagem muda, a pouco e pouco. Ràpidamente, fugitivamente, o sol dá-nos um acentuado ar da sua graça.
Antes de Frageneda, contemplando a profundidade dos abismos e o aspecto escalvado das montanhas (...).
Como serpente imensa, lá em baixo, muito lá em baixo, o rio corre sempre, espumante de raiva, morto por se despertar de tão antipáticas profundidades.
Que aridez! longe, o sol sorri com doçura, sôbre uma nesga de montanha verde. É ainda Portugal, carinhoso e lindo, que desaparece à distância, acenado com a esperança de nos vêr a tornar.
(...)
"Transposta a célebre ponte internacional, que todos quizeram vêr, o combóio pára na primeira estação genuinamente espanhola. Digna de vêr-se, a curiosodade dos que atravessam pela primeira vez, a linha fronteiriça! Para êles, é tudo novo! E, mal a locomotiva apita, descem apressados, a contemplar...
A primeira coisa com que deparamos, nesta vulgaríssima estação de Frageneda, digna de tôda a desolação que a rodeia, foi com sete ou oito «guardias» barrigudos e enxundiosos, que passeavam a importância dos seu bigodes frisados, ao longo da «gare!» Capa ampla, caída em pregas, farda de mescla azulada, e, fechando a extravagante indumentária, o mais curioso e irritante chapeu, que os meus olhos téem visto. Imaginem que ridícula figura fará um cristão, com um tacho negro e luzidio na cabeça, ao qual se colasse, por trás, em forma de trapézio, um cartão de oleado lustroso debruado com guarnições brancas de caixão! É de pôr calafrios na espinha, semelhante atentado contra o bom gôsto."