quarta-feira, 25 de setembro de 2024

De trilho em trilho

Não deixando arrefecer o tema da última publicação - é curioso como as ocorrências se interligam, uns dirão que é o universo em conluio, outros, dirão coincidência: mas é curioso! - encarei um livro da minha biblioteca cuja narrativa nos envolve na viagem "que o ORFEÃO e TUNA ACADÉMICA DO PORTO fizeram, por várias e distantes cidades de Espanha, no ano da graça de Nosso Senhor, de 1928.



Do Atlântico ao Mediterrâneo", Parente de Figueiredo. 1928


Travestiu-se o autor de jornalista, durante a jornada, e compilou dados e notas para para posterior narrativa da mesma. Atravessando a Espanha a partir da fronteira de Barca-dÁlva aportaram a Barcelona, passando por Medina, Valladolid e Tarragona.

De matéria impossível é qualquer comparação ao tempo actual, seja pelo espírito da demanda, seja pelas atitudes comportamentais dos elementos da comitiva - mas, mesmo assim, são narradas coisas do arco-da-velha: "Pelas proximidades, a "malta", amodorrada, abre os olhos, aplaude os contendores, acha deliciosa a discussão, mas...adormece de novo!"  (pág. 32). Gand'as malucos!

Mas o ponto coincidente com o tema de abertura é a passagem pela fronteira em Barca-d'Alva, um dos temas discutidos na última reunião de condomínio. Quando fizemos o Trilho da Pontes, partindo de A Fregeneda, cumprimos essa parte do trajecto em sentido inverso ao da excursão exposta no livro. Tentando uma comparação de vistas, sensações, transcrevo as partes que me parecem as mais relevantes para o efeito, concedendo aba larga às diferenças de quase 100 anos.


"Partida da Régoa. 
(...) Por tôda a carruagem, o ruído amáina. Os estômagos trabalham, silênciosamente, em diamantes. De seguida, com gulosa sofreguidão, a «malta» inicia um verdadeiro ataque às munições de reserva. Não há - vê-se - espírito de previsão. Será o que Deus quiser; chegando para agora...para logo, Deus dará! - dizem todos, rindo...

    É a refeição alegre, cortada de ditos espirituosos, continua, por largo tempo. Recordando a minha missão de jornalista, peguei no caderno e saí, peregrinando ao longo dos corredores. (...) E a paisagem? Encostei-me alguns minutos à janela e esqueci-me a contemplá-la.
  Montanhas, íngremes de rochas facetadas, e, por tôdas elas, oliveiras baixas, confrangidas na contemplação dos abismos; de quando em quando, riscando o fundo cinzento da paisagem, passa o tronco vermelho de algum sobreiro de pequena corpulência. Em frente à Quinta do Castelinho, o comboio pára. (...) Junto de nós, sempre ao nosso lado, como se não quisesse deixar-nos e caminhando para o coração de Portugal, enquanto nós nos afastamos dêle, o Douro, barrento e impetuoso.

    Por vezes, a montanha aproxima-se, debruça-se sôbre o combóio e as rochas, de ciclópica corpulência sobrepostas e mal pousadas, ameaçam esmagar-nos.

(...) Pocinho. Pasmoso, o panorama! Oliveiras alinhadas num longo plaino fresco, e, em volta, a distância, fileiras intermináveis de montanhas. Sôbre uma destas, e nesta altura, o sol rompe, e ilumina uma pequena capela branca, de cúpula arredondada, com todo o sabor de capela mourisca!
    Côa. Tonalidade verdejante. (...) As oliveiras baixas, sem rama, teem tôdas o troco grosso e envelhecido. Rebanhos de cabras olham, lá de cima, impávidas, o combóio...

    A Espanha aproxima-se. (...) Vendo a vegetação alcandorada em sítios incessíveis, a gente chega a acreditar na geração espontânea...


    Por fim, Barca de Alva.
    Aparecem, imponentes, os primeiros «carabineros». 

    (...)Marchamos, de novo. Minutos depois, às 4,45 por entre a imensa alegria da «malta», que já só «habla» castelhano, entrrmos em Espanha. a paisagem muda, a pouco e pouco. Ràpidamente, fugitivamente, o sol dá-nos um acentuado ar da sua graça.

    Antes de Frageneda, contemplando a profundidade dos abismos e o aspecto escalvado das montanhas (...). 

    Como serpente imensa, lá em baixo, muito lá em baixo, o rio corre sempre, espumante de raiva, morto por se despertar de tão antipáticas profundidades.

    Que aridez! longe, o sol sorri com doçura, sôbre uma nesga de montanha verde. É ainda Portugal, carinhoso e lindo, que desaparece à distância, acenado com a esperança de nos vêr a tornar.  

(...)
    "Transposta a célebre ponte internacional, que todos quizeram vêr, o combóio pára na primeira estação genuinamente espanhola. Digna de vêr-se, a curiosodade dos que atravessam pela primeira vez, a linha fronteiriça! Para êles, é tudo novo! E, mal a locomotiva apita, descem apressados, a contemplar...

    A primeira coisa com que deparamos, nesta vulgaríssima estação de Frageneda, digna de tôda a desolação que a rodeia, foi com sete ou oito «guardias» barrigudos e enxundiosos, que passeavam a importância dos seu bigodes frisados, ao longo da «gare!» Capa ampla, caída em pregas, farda de mescla azulada, e, fechando a extravagante indumentária, o mais curioso e irritante chapeu, que os meus olhos téem visto. Imaginem que ridícula figura fará um cristão, com um tacho negro e luzidio na cabeça, ao qual se colasse, por trás, em forma de trapézio, um cartão de oleado lustroso debruado com guarnições brancas de caixão! É de pôr calafrios na espinha, semelhante atentado contra o bom gôsto."



quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Reunião de condomínio

Na foto acima, o Presidente da A. A. d'A. (Associação dos Amigos d'Alice), à direita, acompanhado pelo seu vice, à esquerda, perora sobre o candente tema "A fritura da alheira e suas consequências durante o período filipino em Portugal", durante o congresso  realizado no p.p. sábado e subordinado ao tema " A carne na panela e as invasões napoleónicas - uma visão etnográfica." . in Jornal da Bairrada.

O Trilhos e Petiscos é um blog moderno e actual e, como tal, fazendo jus à condição in do seu status, é com orgulho que demonstro a primeira fake news deste espaço de pluralidade democrática mas onde só eu escrevo.

Os tipos acima representados não são o presidente da A.A.d'A. e o seu vice; são o 1º vogal e o secretário - os snrs. Amorim e Ferreira, respectivamente; continuando na senda das fake news, posso adiantar que o tema da palestra não foi: "A fritura da alheira e suas consequências durante o período filipino em Portugal", mas sim: "A fritura da moura e suas consequências durante o período filipino em Portugal" - cirúrgico!

Os dirigentes supra indicados não existem; isto é: existem, mas não são dirigentes, ou seja - não são dirigentes porque a A.A.d'A. não existe; logo, se não existe não dirigem e, em sequência a esta, se não dirigem não são dirigentes de algo que não existe!

Isto, são: FAKE NEW'S!

A foto acima foi tirada há mais de 8 anos, em 13 de agosto de 2016, nas cercanias de Freixo de Numão (todas estas informações são verdadeiras!), e relembrada no jantar de sábado como resquícios de um outro tempo

Aparte a dislexia geográfica na sua lembrança (Freixo de Durão, penedo Numão e outras variáveis impossíveis), o retrato transporta-nos para um tasco plantado numa curva de estrada e uma ramada a servir de céu, nesse Douro que é sempre mágico - lá, sinto-me num tempo parado não por inacção, mas sim por presença; ou isso...ou o vinho a fazer efeito, venha um copo cheio que o diga!

O P. (o snr. Ferreira, na foto acima) lamentava a falta de tempo, devorado pela voracidade dos acontecimentos, para reaver o prazer vagabundo daqueles tempos; o M. fotografava instagramente os pratos de petiscos e o J. (o snr. Amorim) pedia vinho para mim.

Por entre projectos de novas travessias e futuras caminhadas de arrepiar caminho, o regresso a casa fez-se pela mítica e sempre bela Hollywood Valadares bordejando a Grande Cidade a seus pés e o horizonte pregado no infinito.

Das colunas de som da viatura ecoava uma música muito famosa, irmã de outra também famosa, feitas por alguém também muito famoso - não conhecia nenhuma delas!

Ao longe, no horizonte, a Grande Cidade vista a partir da Hollywood Valadares. O efeito photoshop usado para conferir movimento à foto chama-se Carga Etílica.