...e na falta de inspiração, recorro ao eterno Miguel Torga e aos seus diários para arrancar esta prosa deliciosa:
"Gerês, bouça da Mó, 23 de Julho
- vai daqui para Roma sem parar...- garantiu-me o guarda florestal, a mostrar-me pela serra fora o piso aliciante da geira romana.
- vai...vai...- respondi-he eu, a tirar da esperança universal de que todos os caminhos vão dar a Roma uma filosofia sem complicações.
O rio Homem (que assombroso nome para um rio!) em baixo, passava no seu calvário de carne e osso, do lado de lá, a serra Amarela erguia-se abrupta com as suas casarotas enigmáticas no alto; sobre a minha cabeça, hirto, pendia o pico de Cabril; de maneira que nenhuma metafísica era possível ali.
- E que tal esta solidão? - quis saber eu.
- Triste...- respondeu o eco de um queixume. - Sempre aqui neste ermo...
«Vai daqui a Roma sem parar», pus-me a reflectir outra vez. e percebi então, de repente, a sedução mágica dos caminhos e o desespero amargo das sentinelas."
in Diário - III3ª edição, 1973
pags.104 e 105
A sedução mágica dos caminhos que também há de ter seduzido Fernando Pessoa quando afirmou "viajar é perder países", certamente atento ao desespero amargo das sentinelas a guardar estradas que vão!
Excelente. Nada mais oportuno.
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