Excelente artigo para reflexão da autoria de António Pinto Ribeiro, no suplemento ípsilon, do jornal Público datado de 21 de Novembro de 2014.
NINGUÉM FICARÁ PARA VER TANTAS IMAGENS.
A fotografia é um excelente exemplo da apropriação exaustiva
do mundo pelo ser humano narcísico da contemporaneidade – e uma das mais
eloquentes formas de expressão do consumo imparável.
Em determinado momento de Tristes Trópicos, Lévi-Strauss diz que “ o mundo começou sem o
homem e terminará sem ele”. Esta frase poderá ser medonha para o ser humano
narcísico contemporâneo. Ele é aquele que, na posse de todas as tecnologias
existentes, não apenas se julga a razão de ser da criação como equaciona já a
sua própria eternidade. Isto, claro, enquanto sobrevivente do mundo que ele
próprio vem destruindo (curioso como ele não se importa de destruir o seu mundo
e ir ocupar outros mundos no recém-estreado filme Interstellar, de Christopher Nolan). A frase de Lévi-Strauss será
medonha na medida em que ameaça esse ultra-narcisismo dos seres que ocupam
apressada e vorazmente todo o espaço em volta.
Porém, a clareza e a objectividade daquela frase podem provocar
outras reacções . Uma reacção de inactividade, de tipo letárgico, que se traduz
na atitude de, perante os factos achar que não há nada a fazer, que nenhum
esforço é merecido, que não vale a pena qualquer intervenção ou compromisso com
o mundo. Ou uma recção de voracidade. Ora, a fotografia é, na actualidade, um
exemplo dessa apropriação exaustiva do mundo que é também, ao mesmo tempo,
expressão do consumo imparável.
Saltemos o tempo em que a fotografia implicava uma produção complexa,
exigia um enorme domínio da tecnologia e era um objecto de raridade, olhada
como a actividade que tinha ousado atentar contra a suprema habilidade da
pintura. Saltemos também os dilemas de Walter Benjamin sobre a possível perda da
aura da obra de arte, dada a sua reprodutibilidade possível e infinita. Hoje, a
par de uma minoria de fotógrafos que recorrem à metodologia da “antiga
fotografia” e que são uma espécie de artesãos da imagem, basta a qualquer
utilizador de telemóvel reclamar-se fotógrafo para ser como tal reconhecido por
um número excessivo de pares que o incensam com um simples like nessa função. E dado que as redes sociais impõem a
quantificação como critério supremo de classificação, eis que uma imagem vulgar
pode ter centenas de milhar de likes e
uma fotografia de autor não ter direito a qualquer like.
Dir-se-á que, ainda assim, com certeza haverá uma diferença
entre estes fotógrafos de impulso e os fotógrafos profissionais; estes últimos
têm, antes da fotografia, um pensamento obre a fotografia (que por vezes justifica
alguma lentidão no processo de produção). Mas estes são os poucos fotógrafos crentes,
que ainda vivem a fantasmagoria da imagem, aquela que provoca o sentimento de
ausência, de desejo, de fantasia. De resto, concordemos: os resultados são
muito semelhantes. Entre os milhões de fotografias feitas por impulso e os
milhares de fotografias produzidas por profissionais e expostas em feiras,
bienais, websites, livros, há uma
semelhança de atitude – e, até alguma continuidade.
A continuidade vem, quer dessa incontinência de clicar, quer
porque qualquer fotografia devolve ao observador o facto de ela resultar da
interrupção de um momento e do seu consequente aprisionamento dentro de quatro
margens. Em cada uma delas pode estar o desejo de ser continuada para lá dessas
margens, de poder conter um enquadramento em expansão permanente. Assim, tanto
nas feiras de fotografia como no rolar das imagens no iPhone ou no tablet está presente e subentendido um
exercício: colar pelas margens todas as fotografias do mundo, criando como que
um mapa universal onde todas as subjectividades estivessem contidas.
Trata-se de um paradoxo, é certo, porque nesta compulsão de
produzir tantas imagens não está presente outra coisas se não a predação
continuada do mundo e o desejo de imortalidade. À medida que crescem
exponencialmente os auto-retratos, os famosos selfies, mais sentido faz a afirmação de Joan Fontcuberta – “Eu
fotografo. Eu existo!” – e mais esta projecção narcísica se expande por todo o
espaço em redor: ”Acentuou-se a necessidade de capturar tudo e tudo pode ser
fotografado – e, mostrado…As fotografias transformaram-se em expressões de
vitalidade, experiências que são transmitidas, partilhadas e depois desaparecem
mental e fisicamente” (Joan Fontcuberta, em Pandora’s
camera). Este autor e fotógrafo não tem uma visão necessariamente pessimista
da fotografia digital, até porque ela permitiu que o horror dos prisioneiros de
Abu Ghraib fosse testemunhado em todo o mundo, mas não deixa de afirmar que o
digital abriu a caixa de Pandora – e ainda só estamos no início…Estas imagens
aceleram um processo de inversão: já não são imagens do mundo, elas fazem o
mundo e, como são apenas media, de
alguma maneira há muito já extinguiram um certo mundo, o mundo dos fenómenos
(chuva, vento, carícias, medo, luta, etc.). Restaram, pois, as imagens e os
seus predadores.
Dar-se-ão conta, estes milhões de predadores de imagens, de
que ninguém estará cá para observar as suas subjectividades mas o mundo continuará
a existir? Muito destruído, mas ainda vivo. Poder-se-á colocar o mesmo dilema a
muitas outras produções do humano – prédios, livros, comboios, esculturas -,
mas enquanto para estes se pode imaginar que as suas ruinas se fundirão a longo
termo com o que resta do húmus, para as imagens não restará outro destino a não
ser o do desperdício e do lixo virtual.