quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

BREXIT à moda de Alvão


A procura de um novo rumo:



A difícil "mesa das negociações":


O acordo final:


A foto da praxe para memória futura:


Os créditos fotográficos são do negociador Horácio Alencastre.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

E agora, José?

Descarado e sem licença faço meus os versos do imensurável Carlos Drummond de Andrade, “E agora, José?”, e trago à colação o abandono prematuro, ora anunciado, de um dos bravos do pelotão (ou, para os cabeças-no-ar, a versão cósmica: plutão - já vi plasmada numa sentença esta confusão fonética, proferida por um juiz, certamente, astrónomo amador).
Também diz o povo que quem 60 não 70 e quem 70 não 60 – mais curiosidades fonéticas a adoçar o timbre da prosa -, reveladoras de um estado de alma a tender para o pícaro como alguns pratos da cozinha para o salgado.
“E, afora este mudar-se todo o dia” – isto é Camões, senhores! – o Tempo, no seu devir, anuncia-se insolente, atrevido, sem matéria para apelo: não há recurso para a perda de tempo.
As decisões fraturantes (como hoje sói dizer-se na Assembleia da República)  são, então, as mais complexas, estridentes, espampanantes, por implicação directa com a contagem dos nossos dias; a alguns, de difícil compreensão, a outros, naturais como a água-das-pedras.
Transcrevo um pequeno texto de um livro a que muitas vezes recorro em busca da simplicidade que tantas vezes insistimos em complicar.
  
Um coração com discernimento
                              Se chegares a uma encruzilhada,
                              na estrada, segue por ela.

            Yogi Berra

As grandes decisões da vida estão todas ocultas atrás de um véu que nos impede de ver os seus resultados.

Toda a escolha é crise, no sentido chinês da palavra: é ao mesmo tempo perigo e oportunidade. Só quando vemos uma dessas polaridades é que temos mais probabilidades de tomar uma má decisão ao fazermos a nossa escolha.

Devemos estar sempre preparados para enfrentar o perigo.

Frente à oportunidade, nunca devemos dizer: ”Impossível”.

Na maior parte dos casos, o problema não é desconhecermos que caminho queremos tomar. É apenas desperdiçarmos a nossa vida, esperando a sua garantia.

Com efeito, as grandes decisões da vida quase nunca são claras. Há uma coisa clara, porém: a vida é formada por uma série de dilemas, de opções, de mistérios, de possibilidades aproveitadas e não aproveitadas. Boa decisão, má decisão, quem sabe? Como se estabelece a diferença entre elas? Apenas isto: são os valores que nós aplicamos ao processo de tomada de decisões e a atitude que aplicamos à sua vivência que transformam as encruzilhadas em nova vida.

Troçaram de Yogi Berra pela sua intuição aparentemente absurda, mas ele não estava completamente errado. As encruzilhadas são aqueles momentos da vida em que nos é dada uma oportunidade: em que não temos alternativa a não ser começar de novo. Com efeito, “se chegares a uma encruzilhada na estrada”, segue por ela de coração aberto. Confia que o Espírito, que te trouxe até tão longe, não te abandonará no caminho.

“Os tempos do coração”, pág. 29, Joan Chittister Ed. Paulinas

Nota final: em momento de mudança, convém referir que a cabidela d’"Alice" se mantém por igual.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Excelente artigo para reflexão da autoria de António Pinto Ribeiro, no suplemento ípsilon, do jornal Público datado de 21 de Novembro de 2014.

NINGUÉM FICARÁ PARA VER TANTAS IMAGENS.
A fotografia é um excelente exemplo da apropriação exaustiva do mundo pelo ser humano narcísico da contemporaneidade – e uma das mais eloquentes formas de expressão do consumo imparável.
Em determinado momento de Tristes Trópicos,  Lévi-Strauss diz que “ o mundo começou sem o homem e terminará sem ele”. Esta frase poderá ser medonha para o ser humano narcísico contemporâneo. Ele é aquele que, na posse de todas as tecnologias existentes, não apenas se julga a razão de ser da criação como equaciona já a sua própria eternidade. Isto, claro, enquanto sobrevivente do mundo que ele próprio vem destruindo (curioso como ele não se importa de destruir o seu mundo e ir ocupar outros mundos no recém-estreado filme Interstellar, de Christopher Nolan). A frase de Lévi-Strauss será medonha na medida em que ameaça esse ultra-narcisismo dos seres que ocupam apressada e vorazmente todo o espaço em volta.
Porém, a clareza e a objectividade daquela frase podem provocar outras reacções . Uma reacção de inactividade, de tipo letárgico, que se traduz na atitude de, perante os factos achar que não há nada a fazer, que nenhum esforço é merecido, que não vale a pena qualquer intervenção ou compromisso com o mundo. Ou uma recção de voracidade. Ora, a fotografia é, na actualidade, um exemplo dessa apropriação exaustiva do mundo que é também, ao mesmo tempo, expressão do consumo imparável.
Saltemos o tempo em que a fotografia implicava uma produção complexa, exigia um enorme domínio da tecnologia e era um objecto de raridade, olhada como a actividade que tinha ousado atentar contra a suprema habilidade da pintura. Saltemos também os dilemas de Walter Benjamin sobre a possível perda da aura da obra de arte, dada a sua reprodutibilidade possível e infinita. Hoje, a par de uma minoria de fotógrafos que recorrem à metodologia da “antiga fotografia” e que são uma espécie de artesãos da imagem, basta a qualquer utilizador de telemóvel reclamar-se fotógrafo para ser como tal reconhecido por um número excessivo de pares que o incensam com um simples like nessa função. E dado que as redes sociais impõem a quantificação como critério supremo de classificação, eis que uma imagem vulgar pode ter centenas de milhar de likes e uma fotografia de autor não ter direito a qualquer like.
Dir-se-á que, ainda assim, com certeza haverá uma diferença entre estes fotógrafos de impulso e os fotógrafos profissionais; estes últimos têm, antes da fotografia, um pensamento obre a fotografia (que por vezes justifica alguma lentidão no processo de produção). Mas estes são os poucos fotógrafos crentes, que ainda vivem a fantasmagoria da imagem, aquela que provoca o sentimento de ausência, de desejo, de fantasia. De resto, concordemos: os resultados são muito semelhantes. Entre os milhões de fotografias feitas por impulso e os milhares de fotografias produzidas por profissionais e expostas em feiras, bienais, websites, livros, há uma semelhança de atitude – e, até alguma continuidade.
A continuidade vem, quer dessa incontinência de clicar, quer porque qualquer fotografia devolve ao observador o facto de ela resultar da interrupção de um momento e do seu consequente aprisionamento dentro de quatro margens. Em cada uma delas pode estar o desejo de ser continuada para lá dessas margens, de poder conter um enquadramento em expansão permanente. Assim, tanto nas feiras de fotografia como no rolar das imagens no iPhone ou no tablet está presente e subentendido um exercício: colar pelas margens todas as fotografias do mundo, criando como que um mapa universal onde todas as subjectividades estivessem contidas.
Trata-se de um paradoxo, é certo, porque nesta compulsão de produzir tantas imagens não está presente outra coisas se não a predação continuada do mundo e o desejo de imortalidade. À medida que crescem exponencialmente os auto-retratos, os famosos selfies, mais sentido faz a afirmação de Joan Fontcuberta – “Eu fotografo. Eu existo!” – e mais esta projecção narcísica se expande por todo o espaço em redor: ”Acentuou-se a necessidade de capturar tudo e tudo pode ser fotografado – e, mostrado…As fotografias transformaram-se em expressões de vitalidade, experiências que são transmitidas, partilhadas e depois desaparecem mental e fisicamente” (Joan Fontcuberta, em Pandora’s camera). Este autor e fotógrafo não tem uma visão necessariamente pessimista da fotografia digital, até porque ela permitiu que o horror dos prisioneiros de Abu Ghraib fosse testemunhado em todo o mundo, mas não deixa de afirmar que o digital abriu a caixa de Pandora – e ainda só estamos no início…Estas imagens aceleram um processo de inversão: já não são imagens do mundo, elas fazem o mundo e, como são apenas media, de alguma maneira há muito já extinguiram um certo mundo, o mundo dos fenómenos (chuva, vento, carícias, medo, luta, etc.). Restaram, pois, as imagens e os seus predadores.
Dar-se-ão conta, estes milhões de predadores de imagens, de que ninguém estará cá para observar as suas subjectividades mas o mundo continuará a existir? Muito destruído, mas ainda vivo. Poder-se-á colocar o mesmo dilema a muitas outras produções do humano – prédios, livros, comboios, esculturas -, mas enquanto para estes se pode imaginar que as suas ruinas se fundirão a longo termo com o que resta do húmus, para as imagens não restará outro destino a não ser o do desperdício e do lixo virtual.