segunda-feira, 26 de novembro de 2018

E agora, José?

Descarado e sem licença faço meus os versos do imensurável Carlos Drummond de Andrade, “E agora, José?”, e trago à colação o abandono prematuro, ora anunciado, de um dos bravos do pelotão (ou, para os cabeças-no-ar, a versão cósmica: plutão - já vi plasmada numa sentença esta confusão fonética, proferida por um juiz, certamente, astrónomo amador).
Também diz o povo que quem 60 não 70 e quem 70 não 60 – mais curiosidades fonéticas a adoçar o timbre da prosa -, reveladoras de um estado de alma a tender para o pícaro como alguns pratos da cozinha para o salgado.
“E, afora este mudar-se todo o dia” – isto é Camões, senhores! – o Tempo, no seu devir, anuncia-se insolente, atrevido, sem matéria para apelo: não há recurso para a perda de tempo.
As decisões fraturantes (como hoje sói dizer-se na Assembleia da República)  são, então, as mais complexas, estridentes, espampanantes, por implicação directa com a contagem dos nossos dias; a alguns, de difícil compreensão, a outros, naturais como a água-das-pedras.
Transcrevo um pequeno texto de um livro a que muitas vezes recorro em busca da simplicidade que tantas vezes insistimos em complicar.
  
Um coração com discernimento
                              Se chegares a uma encruzilhada,
                              na estrada, segue por ela.

            Yogi Berra

As grandes decisões da vida estão todas ocultas atrás de um véu que nos impede de ver os seus resultados.

Toda a escolha é crise, no sentido chinês da palavra: é ao mesmo tempo perigo e oportunidade. Só quando vemos uma dessas polaridades é que temos mais probabilidades de tomar uma má decisão ao fazermos a nossa escolha.

Devemos estar sempre preparados para enfrentar o perigo.

Frente à oportunidade, nunca devemos dizer: ”Impossível”.

Na maior parte dos casos, o problema não é desconhecermos que caminho queremos tomar. É apenas desperdiçarmos a nossa vida, esperando a sua garantia.

Com efeito, as grandes decisões da vida quase nunca são claras. Há uma coisa clara, porém: a vida é formada por uma série de dilemas, de opções, de mistérios, de possibilidades aproveitadas e não aproveitadas. Boa decisão, má decisão, quem sabe? Como se estabelece a diferença entre elas? Apenas isto: são os valores que nós aplicamos ao processo de tomada de decisões e a atitude que aplicamos à sua vivência que transformam as encruzilhadas em nova vida.

Troçaram de Yogi Berra pela sua intuição aparentemente absurda, mas ele não estava completamente errado. As encruzilhadas são aqueles momentos da vida em que nos é dada uma oportunidade: em que não temos alternativa a não ser começar de novo. Com efeito, “se chegares a uma encruzilhada na estrada”, segue por ela de coração aberto. Confia que o Espírito, que te trouxe até tão longe, não te abandonará no caminho.

“Os tempos do coração”, pág. 29, Joan Chittister Ed. Paulinas

Nota final: em momento de mudança, convém referir que a cabidela d’"Alice" se mantém por igual.

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