terça-feira, 25 de maio de 2021

Das placas toponímicas.

Curioso, busquei entendimento no dicionário para o vocábulo plasmada nesta placa e que me fez arregalar os olhos de espanto e algum temor, confesso.

Carvalha, Castelo de Paiva

mortório, s.m. préstito fúnebre; enterro; funeral; sítio da seara onde a sementeira não germinou; adj. diz-se do terreno estéril; estar em -: estar em desuso; ficar em -: diz-se de um terreno que ficou por semear; fig. diz-se de um projecto que não chegou a pôr-se em execução . (De morto).

Assim postas as coisas, descanso o receio nas características inférteis da terra que não faz medrar pevide; ou, por acção do devir, uso que ficou nas dobras do tempo.

Contudo, não vá o diabo torcê-las, arrepelam-se-me as tripas ao ouvir o esganiçado cantante em ruído de fundo gritando a plenos pulmões:

Just stop your crying

it's a sign of the times

we gotta get away from here

we gotta get away from here

just stop your crying

it'ill be alright

they told me that the end is near 

we gotta away from here

"Sign of the times " - Harry Styles


FUI!

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Serenata à chuva

Dos poucos trilhos que fiz para os lados de Sever do Vouga, perdurava na lembrança as encostas despidas invadidas pela massa disforme de eucaliptos, cenário desolador a aproximar-se célere da desilusão.

Apesar desta pré-contingência, a vontade em botar solas ao caminho "irracionalizou" toda e qualquer demanda da prudência em matéria de juízo feito: mesmo à bategada de água caída dos céus, chuva civil não molha militar! Avante até Couto de Esteves - ver aqui 

Couto de Esteves, freguesia pertencente ao município de Sever do Vouga, é terra antiga com foral atribuído em 1128 por D. Teresa e D. Afonso Henriques. 

São quase 900 os anos que nos separam de então e, naturalmente, quase tudo terá mudado; mas é sempre emocionante pisar, sentir, quase cheirar ou tocar essa camada invisível formada pelo respeito devido e o espanto assarapantado que os curtos 80 anos de vida caídos em sorte nos obrigam.


Cedo começou a dissipar-se o temor de mais um pedregulho visual atirado de rompante ás minhas retinas à medida que nos embrenhávamos no mato, saídos do meio da pedraria erguida casa, assoberbados pelo verde vivo e prenhe de fulgor - e não apenas por culpa da chuva! 

Quando miriades plantas, plantinhas, plantonas honram o trajecto com a sua presença; quando o cenário se ergue à altura de um castelo, como um baile de sombras à nossa passagem; quando a matiz se expande pelas léguas em redor - não há, não pode haver, ser vivente, consciente - ou não, dizem - que não seja de súbito abalado pelo frémito de vida que se descobre ou intui em cada rincão. 


Apesar da chuva insistente, embora miúda, e do céu permanentemente nublado, toda a envolvente respirava viva e convidava ao avanço por entre veredas de bosque, acompanhando levadas e o rumorejar constante de regatos e ribeiros. 


De surpresa em surpresa até à loucura geral: a descoberta diz-que-é uma-espécie de Golden Gate Brige perdida nos confins de uma qualquer impenetrável floresta tropical esquecida nos tempos e à qual não faltou a fantasmagórica e sinistra figura do cobrador de passagem.