quinta-feira, 20 de maio de 2021

Serenata à chuva

Dos poucos trilhos que fiz para os lados de Sever do Vouga, perdurava na lembrança as encostas despidas invadidas pela massa disforme de eucaliptos, cenário desolador a aproximar-se célere da desilusão.

Apesar desta pré-contingência, a vontade em botar solas ao caminho "irracionalizou" toda e qualquer demanda da prudência em matéria de juízo feito: mesmo à bategada de água caída dos céus, chuva civil não molha militar! Avante até Couto de Esteves - ver aqui 

Couto de Esteves, freguesia pertencente ao município de Sever do Vouga, é terra antiga com foral atribuído em 1128 por D. Teresa e D. Afonso Henriques. 

São quase 900 os anos que nos separam de então e, naturalmente, quase tudo terá mudado; mas é sempre emocionante pisar, sentir, quase cheirar ou tocar essa camada invisível formada pelo respeito devido e o espanto assarapantado que os curtos 80 anos de vida caídos em sorte nos obrigam.


Cedo começou a dissipar-se o temor de mais um pedregulho visual atirado de rompante ás minhas retinas à medida que nos embrenhávamos no mato, saídos do meio da pedraria erguida casa, assoberbados pelo verde vivo e prenhe de fulgor - e não apenas por culpa da chuva! 

Quando miriades plantas, plantinhas, plantonas honram o trajecto com a sua presença; quando o cenário se ergue à altura de um castelo, como um baile de sombras à nossa passagem; quando a matiz se expande pelas léguas em redor - não há, não pode haver, ser vivente, consciente - ou não, dizem - que não seja de súbito abalado pelo frémito de vida que se descobre ou intui em cada rincão. 


Apesar da chuva insistente, embora miúda, e do céu permanentemente nublado, toda a envolvente respirava viva e convidava ao avanço por entre veredas de bosque, acompanhando levadas e o rumorejar constante de regatos e ribeiros. 


De surpresa em surpresa até à loucura geral: a descoberta diz-que-é uma-espécie de Golden Gate Brige perdida nos confins de uma qualquer impenetrável floresta tropical esquecida nos tempos e à qual não faltou a fantasmagórica e sinistra figura do cobrador de passagem.


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