sábado, 15 de janeiro de 2022

De Fujaco reza a história...agora!

A perspectiva de prisma garante-nos a pluralidade de visões tantas quanto a vontade na obtenção de várias vistas sobre o mesmo assunto. O Paulo Ferreira chamar-lhe-ia Hiperlapse, municiado do seu arsenal de parafernálias tecnológicas, rodando sobre o modelo. 

Alcançar, assim, uma construção mental de uma pedaço de terra unindo memórias desgarradas no tempo e criar essa espécie de viagem em voo de pássaro, remete para a justificação da postagem anterior: no mesmo, o tanto que ainda há para ver!

De abalada para as bandas de S. Pedro do Sul, terra fértil de surpresas para colmatar preguiças de caminheiros incapazes da preparação atempada da ronda, ficou decidida a visita a Fujaco...e logo se veria! - nada como uma voz de comando a impor resolução!

O acesso a Fujaco faz-se por uma estrada que vai lá directa e lá finda: por defeito, fica esclarecido o isolamento.

De acordo com o termómetro do carro, em alguns locais a temperatura exterior oscilou entre os 0º e 1º, antevisão do dia fresquinho que nos esperava.

A primeira impressão de Fujaco é a de renovado espanto: um aglomerado de casas empinando monte acima, tantas vezes visto e sempre espantoso.

Qual o primeiro homem, primeira família, a decidir-se assentar neste ermo rodeado de serras? E porquê? Que crimes, que dores, quais angústias bastaram para se fazer desaparecer neste ermo rodeado de lobos, abafado na neve de inverno e varrido pelo vento gélido? Se parássemos para pensar no que se esconde atrás de Postais Bonitos...

Xisto e mais xisto, a ribeira a correr no fundo da penedia escarpada, um Alojamento Local inacessível ao mais comodista dos citadinos, pois era necessária vencer uma escadaria para o topo, e um habitante - por sinal, o único que avistámos - que quase nos varreu de lés-a-lés com a escada que trazia alçada ao ombro, quando, atendendo ao caniche que o acompanhava, virou o passo e a escada, longa, acompanhando o movimento, pelas traseiras nos ia decepando as cabeças. 

Sobe que sobe, sem necessidade de aviso ou outras marcas, apenas restava subir a eito o carreiro que se empinava encosta acima, desbragado até ao topo - o malandro, a sorrir para nós!

Por onde a vista alcançava, iria ser penar digno de penitência que limpasse o pecado da gula e abastança da quadra finda.

Ao longe, quase imperceptíveis, as antenas no topo de S. Macário balizavam o hipotético destino: dá ganas fazer-se valente e forte, ainda que a intensidade do porfia não passe do mais fofinho algodão travestido do mais puro aço.

E foi tarefa árdua: vencer 500 mt. de altitude em 5 km! A exactidão dos números é irrelevante para o caso, pois, na sua incorrecção, não estarão muito longe dos valores apresentados - a diferença a verificar-se na carga de esforço seria mínima.

Como tantas vezes digo: "no pain, no gain", nada se ganha sem esforço e a recompensa está à nossa espera, não necessariamente quando se chega, mas como se chega.

Ao fundo, o recorte da silhueta das várias serras entrepostas entre si em tonalidades de cinzento e ciano, atapetadas de névoas baixas ainda persistentes, são quadros pintados com mestria pela criacção: não passam de mais perfis de serrarias e montanhias; mais nevoeiros formados como em qualquer outro lugar semelhante; cores cuja paleta, estes que a terra há de comer, já viu e reviu - mas são sempre espanto!

E as vezes que interrompemos a subida, mais que para o descanso das pernas, foi para render homenagem ao belo que se espraiava nas nossas costas.


Ao avistar a aldeia da Pena pelo lado sul, a surpresa que contextualiza o mote: a diversidade de visões e a multiplicidade de entendimentos dispostos ser criados e julgados - não avistando a fraga imensa que lhe faz costas, pois estando no seu topo, já se nos aparenta uma aldeia inocente, placidamente assente num local rodeado por elevações; já não a visão fantástica do casario prestes a ser engolida pelo penedio imenso que lhe ensombra os dias.

A Pena e o cabeço a cujos pés passa o caminho do "morto que matou o vivo", 
que dá passagem para Covas do Monte, mais acima, deslocada para a direita.

Aos 900  mt., como seria de esperar, o vento reinava e a sensação térmica deveras desconfortável. Mais acima, no topo, em S. Macário, entre os 1.050 e os 1.100 mt., seria o zénite do desconforto: vento forte e gélido.

Dadas as variáveis, para a resolução da equação estavam avisados os caminhantes - mandou a loucura que montássemos banca para almoçar precisamente...no topo!, espécie de romaria ao Santo e préstimo de homenagem em jeito de piquenique.   

Justificados os olhares que nos dirigiram as poucas pessoas afoitadas o bastante para ver a paisagem por breves segundos e regressar à viatura.

Novas paisagens por velhos caminhos, ou novos caminhos por velhas paisagens.

O regresso contemplava a consulta ao mapa, um pouco ao Deus-dará que o caminho fez-se para andar; após demorados, complexos e laboriosos cálculos de orientação decidimos o regresso pela aldeia de Leirados

Lá no alto, São Macário.
 

Trajecto inicial até à cumeeira para vencer o elevado desnível.
 
Resumidamente: pode dizer-se que foi uma tareia das antigas: 18 km. de extensão, dificuldade amplificada pelo somatório do desnível e o constante vento e frio.

2022 começou em grande, belo augúrio - encontrámos-nos no monte!

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