sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Dos livros.


    "Quando falo de Humanidade, não falo apenas do Homo-sapiens. Refiro-me a uma imensidão de seres que excluímos desde sempre: caçamos baleias, cortamos barbatanas de tubarão, matamos leões e penduramo-los na parede para mostrar que somos mais bravos do que eles. Além da matança de todos os outros humanos que julgámos nada terem, que existiam só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de amiba gigante. Ao  longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade - que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições - foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a Humanidade, e todos os que estão fora dela sejam uma sub-Humanidade. Não são só caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda a vida que, deliberadamente, largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: esta ideia prospectiva de que caminhamos para algum lugar. Há um horizonte, dirigimo-nos para lá e vamos largando, no percurso, tudo o que não interessa, o que sobra, a sub-Humanidade - de que alguns de nós fazem parte.

   É incrível que este vírus que está aqui agora apenas atinja pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra, esta de tirar a mama da nossa boca e dizer: «Respirem agora, quero ver.» Isto denuncia o artifício do tipo de vida que críamos, porque chega uma altura em que precisamos de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas o aparelho precisa de uma central hidroeléctrica ou nuclear ou de um gerador de energia qualquer nalgum lugar. E o gerador também pode desligar-se, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos a ser relembrados de que somos tão vulneráveis, que, se nos cortarem o ar por alguns minutos, morremos. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal Humanidade: ela extingue-se com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um insecticida; esta é a declaração da Terra.

    E, e somos inúteis aqui, deveríamos ter contacto com a experiência de estarmos vivos além dos aparatos tecnológico que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, não fosse o cifrão. Pode ser ficção afirmar que, se a economia não estiver a funcionar em pleno, nós morremos. Poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central num cofre gigante e deixá-los lá, a viver com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã, ouvi um indígena norte-americano, do conselho de anciãos do povo Lakota, a falar sobre o novo coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster (Vernom, um típico nome americano, pois, quando os colonos chegaram à América, além de proibirem as linguas nativas, mudavam o nome das pessoas). Repetindo as palavras de um ancestral, dizia ele: «Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o Homem perceberá que não consegue comer o seu dinheiro.»."

in A vida não é útil, págs. 11 a 14; Ailton Krenak, ed. Objectiva (2020) 


     

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Do desconcerto do mundo.


 Do desconcerto do mundo em 11 pontos:

1 - Por sua conta e risco, 5 milionários patrocinaram uma viagem de turismo mórbido,

2 - usando um submarino (????)

3 - sem homologação (????),

4 - cientes do perigo em que incorriam.

5 - Houve um problema grave causador de uma implosão

6 - provocador da morte de todos.

7 - O mundo está chocado com o infortúnio dos infelizes.

8 - Telejornais alargaram emissões,

9 - convidaram especialistas

10 - e declararam luto mundial. 

11 - Todos os dias, por sua conta e risco e para fugir à miséria e à guerra, centenas de migrantes do norte de África embarcam em botes e embarcações rumo à Europa, cientes do perigo em que incorrem. Há sempre problemas graves e mortes a registar. Muitos, são lançados ao mar. Telejornais alargam a emissão, convidam especialistas e discutem o divórcio do casal real.  

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Das Alminhas



Sempre tive fascínio pelas "alminhas". Lembro que, ainda antes de poder formular qualquer hipótese sobre o que via, sentia o olhar atraído para aquelas construções de beira de estrada - talvez pelas cores garridas que saltavam das pinturas alegóricas, ou  pelo inusitado da vista de figuras que eu considerava como pertencentes ao interior dos templos, ali à mão-de-semear.

Com o passar do tempo, fui-me aproximando - literalmente, aproximando! - vencendo o temor reverencial que emprestamos àquilo que desconhecemos, e ganhando curiosidade por aquela manifestação de religiosidade bem entranhada no sentir português.


Bem presente no património cultural português, a existência das alminhas, junto às redes viárias e encruzilhadas, é caso único no mundo: a representação das almas do Purgatório suplicando rezas e esmolas para sua salvação. (https://www.snpcultura.org/vol_alminhas.html).

O Purgatório foi uma imposição dogmática saída do Concílio de Trento como resposta da igreja católica à reforma protestante. "O céu e o inferno são os dois destinos eternos."(As palavras da palavra" - pd. Gonçalo Portocarrero de Almada e Zita Seabra, Aletheia Editores); o purgatório é uma certeza de salvação impondo uma purificação antes da ascensão aos céus.


Para "estas coisas" do inominável, do indizível, gosto de socorrer-me da erudição do prof. Moisés Espírito Santo, estudioso profundo e aclamado das "leis" não escritas e ancestrais que regem o nosso viver de todos os dias e pelas quais passámos como cão por vinha vindimada: 

"O conjunto das almas da aldeia é objecto de um culto propiciatório e local, que se pratica nas encruzilhadas das estradas e constitui uma das mais salientes características da religião popular. Cada encruzilhada possui um pequeno monumento incrustado na parede, como um nicho, que ostenta uma pintura protegida por um vidro: são as alminhas, que podem chegar a ser em número de várias dezenas numa mesma aldeia. Uma encruzilhada é um lugar eminentemente sagrado e constitui uma ruptura do espaço segurizante da aldeia. Os letrados e o clero consideram esses nichos como uma homenagem às almas do purgatório, mas eles estão de facto relacionados com a errância das almas e com as "irmandades". Não obstante, por influência do clero e nomeadamente como reacção à Reforma que negou a existência do purgatório, esses monumentos desenvolveram-se a partir do séc. XVI, representando invariavelmente as almas no meio das chamas, agarrando-se às mãos, aos pés, ao cajado, ao cinto de figuras como Santo António ou São Miguel." (in A religião popular portuguesa, pág. 186 - Moisés Espírito Santo - Assírio & Alvim).

O caminho, sempre o caminho e os passantes, como metáfora desta vida a cumprir-se: uns, vão; outros, vêm. 

"Nas alminhas da estrada
Nunca passes sem rezar
Talvez um dia precises
Das preces de quem passar"

"Ó vós que ides passando, lembrai-vos de nós, que estamos penando."


"Vós, que tendes por aqui passado, lembrai-vos de nós, cada vez mais"
(in Alminhas do Alto Minho, pág 10-11, Ana Eleonora Borges - Ed. Apenas)



"As alminhas foram inicialmente constituídas por um painel onde se representavam, através de pintura, as almas do Purgatório ansiando pelas orações dos vivos. Elas representam a materialização da
relação "próxima" entre o Homem e a Divindade,  entre o microcosmo que nós somos e o macrocosmo, através de um simples mas piedosa construção com elevado sentido religiosos  piedoso. (...) As alminhas simbolizam a preocupação sempre presente e a piedosa devoção, que sobretudo no alto Minho existe,  do culto aos mortos e da sua mística.
Orar por aqueles que partiram, ajudá-los através da oração a encontrar a tão almejada paz, isto tudo como expressão de amor, de saudade, da aceitação pelo inevitável, desejando contribuir para que o percurso posa ser para eles suavizada, é um facto. (...) O martírio da expiação e a ideia piedosa da oração como forma de reduzir a pena. A chamada de atenção para aqueles que, estando ainda a partilhar a vivência terrena, devem tomar atenção a forma como vivem a vida; são  esses os fundamentos para estas construções, estes pequenos templos de Oração." (in Alminhas do Alto Minho, pág 8-9, Ana Eleonora Borges - Ed. Apenas)


 
Como tantas outras coisas neste país, também este património sofre com o vandalismo intelectual dos "fazedores de opinião" que, brandindo a esponja da moral e a lixívia da sua mente, pretendem-se criaturas impolutas, perfeitas e exemplares, teorizando filosofias de bagatela sobre o passado, o presente e o futuro, e  também sobre os fundamentos que nos construiram - bem ou mal, estão em nós presentes!


Os 2 livrinhos que a seguir se apresentam em foto são curiosos trabalhos da década de 50 do século passado, levados a cabo pelo pe. Francisco de Babo. Neles, é feita a apologia desta manifestação popular e o apelo a todos numa "...cruzada de beleza, fé e piedade...(Alminhas, padrões do Portugal Cristão, pe. francisco de Babo) para "...bordejar as nossas estradas e caminhos desses como que marcos miliários de espiritualidade, que chamem a atenção dos transeuntes para o sentido dos caminhos de Deus..."(Alminhas portuguesas, pe. Francico de Babo).


Pretendia o incansável divulgador, criar um movimento pujante de restauração, incremento e adoração de alminhas, afirmando, imperativo: "Adense-se a rede de capelinhas da devoção e da arte popular, construam-se nichos de Alminhas em profusão, por todos os lugares e caminhos..." (Alminhas, padrões de Portugal Cristão).

Numa linguagem típica de época, bem paroquial e ao jeito do Portugal retrógrado de então, sumariava os resultados advindos com a publicação do 1º volume: "A campanha esbraseante, feliz e ovante da restauração das alminhas portuguesas dos caminhos e encruzilhadas e da nova plantação ao longo de todas as vias das praias, dos campos, das serras, nas aldeias, nas vilas e cidades, incluindo a capital, onde tiveram sua hora de glória, há séculos, pretende ser o signo patriótico-religioso do segundo quartel da centúria em que vivemos, como os cruzeiros o foram da época dos Centenários por volta de 1940." (Alminhas Portuguesas) 

Pormenor da capa do 2º volume

Na contracapa do 2º volume, encontra-se escrita a explicação que descodifica a gravura da capa: "Portugal, que Nossa Senhora de Fátima livrou da maior guerra mundial, oferece-lhe, como preito de gratidão, a cruzada de restauração das lindas e tradicionais Alminhas.

Servi-me, também, de uma breve descrição das "Alminhas do Alto Minho", da editora Apenas (http://apenas-livros.com/pagina/inicio) excelente na proposta de pequenas introduções a grandes temas da etnografia, etnologia, folclore e outros, a preços muito convidativos.


Certamente por associação de ideias, pertinente partida do meu cérebro, lembrei aquele famoso soneto de Camões: 
Alma minha gentil, que te partiste 
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento etéreo, onde subiste, 
Memória desta vida se consente, 
Não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meu tão puro viste

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus que teus anos encurtou
Que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
Quão cedo de meus olhos te levou.

sábado, 10 de junho de 2023

Dia de Portugal, dos portugueses e de quem quiser.

                                                                        VIAGEM

                                         Não penses na rédea, na espora,
                                         não penses nos cavalos que partiram num qualquer 
                                         outono,
                                         não lamentes, não olhes para trás,
                                         não queiras dar o seu a seu dono,
                                         e vai,
                                         vai simplesmente para sul, para o acaso de tudo,
                                         e pelas noites brancas derrama uma lágrima,
                                         uma lágrima de ouro.
 
in Biografia - José Agostinho Baptista

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Caminho de São Bento da Porta Aberta.

Existe um não-sei-o-quê em algumas pessoas que as deixa irrequietas; um estado de espírito que as não sossega, aflige no estado buliçoso que lhes lança, como praga, um agitado labéu: mexe-te!

Eu sou uma dessas pessoas; e, então, mexi-me!

A escolha recaiu no Caminho de São Bento da Porta Aberta. Como, pouco antes, havia recaído no Caminho da Geira e dos Arreeiros; e, mais recentemente, na Rota Vicentina. Opções que, por uma razão ou outra, foram sendo descartadas - não eliminadas!

O percurso, a iniciar em Fão ou Esposende, acompanha o Cávado no sentido inverso do seu percurso até ao mar por cerca de 80 Km, com paragens em Barcelinhos, Braga e Amares, usando a estrutura montada para os Caminhos de Santiago (o Central e o da Geira).

Por ser caminho de devoção antigo, percorre áreas de interesse histórico e religioso de inegável valia; por atravessar o Minho verdejante, paisagens lindíssimas; e, por todas as razões e mais alguma, come-se à grande!   

Atravessar terras com registo de presença que remontam ao ano 500 da nossa era; mosteiros que remontam ao alvores da nacionalidade; matas que atravessaram séculos...

As três primeiras etapas são percorridas sem esforço de maior, sendo o terreno amplo e sem grandes elevações; apenas a última etapa - e se a opção for subir pela Srª da Abadia (o caminho inicial, é o que faz sentido!) - exige pernas e alguma experiência. Contudo, o esforço é altamente compensado pela beleza natural do percurso.

O primeiro avistamento de Rio Caldo é emocionante, já em plena descida após a passagem pelo marco geodésico. De seguida, o avistamento da basílica traz outra emoção e, de novo, a sensação que  nos acompanha de nunca ser uma chegada, mas sim uma nova partida.




















  

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Não percebes, pá!?

Andava eu a cosminar nas lhiçadas do mundo quando, sem chus nem mus, me descubro intanfonado.

Então não é que esta gresca é obra daquele melúrias agarrado à momola, todo incacheirado?

Ele é um loulas, um mandulho!

Assentar-lhe uma biqueirada bem assente no lopes e pô-lo a andar é que era!

Agora, vou à chorça que se faz tarde.


ALVARÁ-DE-SOLTURA, s.m. Mulher alcoviteira, mexeriqueira (Mogadouro e Lagoaça)

BARRUNTA, s.m. Indivíduo labrego (Mogadouro e Lagoaça)

CORRE-VAI-DI-LO, s.m. Homem que só cura de mexericos, que não sabe guardar um segredo (Fornos)

DAR O ESTRANHO, loc. v. Ter saudade, melancolia (Barroso)

ESTABANADO, s.m. Indivíduo mal feito, desproporcionado

FONAS, adj. Diz-se do indivíduo sem qualquer importância (Moncorvo)

GAITADA, s.m. Dar uma gaitada, beber vinho (Fornos)

HOME-DE-RECIBO, s.m. Homem importante (Fornos)

INTENDERES, s.m.pl. Pareceres, opiniões. Dar intenderes.

JAROLDA, s.f. Pândega (Moncorvo)

LAGANHA, s. f. O m.q. remela (Bragança; Mogadouro)

MARIA-PÕE-A-MESA, s.f. O m.q. grilamesa (Fornos) / GRILAMESA, s.f. Louva-a-deus (Chaves)

NEM XÓ NEM EI, loc. conj. Nem uma nem duas; não disse uma única palavra (Moimenta - Vinhais)

OLHAPUDO, adj. Diz-se da criança que está com o sentido na comida (Moncorvo)

PÔR UMA JUSTIÇA À PORTA, loc. v. Levar a tribunal. Se voltares a entrar no meu terreno ponho-te uma justiça à porta (Fornos)

QUERRÓBIA, s.f. Súcia, pândega

RODELEIRA, s.f. Diz-se de mulher alcoviteira, mentirosa (Moimenta-Vinhais)

SENHOR TIO, loc.s. Nome pelo qual os filhos de Padre tratam seu pai (Barroso)

TIBÓRNIA, s.m. Pão torrado, embebido em azeite novo, que se come no lagar (Freixo de Espada à Cinta)

URZIBELHA, s.m. O m.q. chaugarço / CHAUGARÇO, s.m.Urze (Fornos)

VENTO DE TODOS OS DIABOS, loc. s. Vento do nascente (Barroso)

XIRGA, s.f. Ausência absoluta de uma coisa; pequena quantidade; gota. Nem xirga de água, nem gota  de água (Freixo de Espada à Cinta)

ZERIBARANDA, s,f, Sova, tunda (Vila Real)


abreviaturas:

adj. - adjectivo

loc.v. - locução verbal

m.q. - mesmo que

s.f. - substantivo feminino

s.m. - substantivo masculino

s.m.pl. - substantivo masculino plural

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Somos todos viajantes!

Porque de viagens se trata, exponho 2 exemplares salvos da pilha de monos do alfarrabista: o eterno E.T. e as aventuras da mítica Galactica.


Quem hesita em lembrar o tom assertivo do E.T., afirmando "E.T. phone home"? Hoje, os miúdos diriam que havia viralizado em milhões de partilhas e biliões de visualizações; na altura, apenas o nó na garganta da emoção causada pela solução encontrada para o contacto com os seus e fuga aos maus representados pelas forças da ordem.

E a eterna luta entre o Bem e o Mal, respectivamente a nave Galactica que transportava os últimos sobreviventes da espécie humana, vogando à deriva no oceano cósmico à procura de um lugar seguro para aportar e, do outro lado, o Mal, em perseguição desenfreada com o seu exército de Cylons à ordem de um líder imperial?

Pequenas pérolas arrancadas à memória.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Pitões das Júnias e o seu nevão.

O manto branco, o monte branco, 

gelo na estrada, pneu no asfalto.

Voa o Pisco, salta o Melro,

Feixe a tampa dá mau cheiro.

Olha o céu, solta o drone, 

vai chover, vai cair - não está bem, repetir!

Pé na poça, pé no chão,

pegada de lobo, pegada de cão.

Olha o foco, foca a folha,

passa a ponte, segue o carreiro,

volta atrás, vai em frente.

Sobe a ladeira, tira foto, 

salta a ribeira, chuta a pedra.

Compra o pão, aprecia o chouriço,

bebe o vinho e come o cozido.