sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Nos palcos da vida.

Não custa a vida a quem se governa com o dinheiro dos outros. O despautério assentou praça e não arreda - a vergonha perdeu cotação e caiu na valeta.

Misturar rácios económico/financeiros e fé é palestra troglodita; é anúncio de mesquinhez e miudeza de ideias. É curta vista de açambarcador rasteiro, babando suores frios na cupidez insensível do lucro.

Agora,  jogo está feito e os dados lançados; o Lobo já não pode despir a pele de cordeiro e o altar sacrificial está montado. Aproximem-se os comensais, esta boda é para vós - os pobres continuarão ausentes.

Os meus altares:











quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Do fundo do baú.



Os próximos dias irão ser passados nesta companhia que mão diligente de carteiro me fez chegar, a tempo e horas de o saborear neste arremedo de clima polar - coerência acima de tudo!

O relato da expedição primeira de subida do Anapurnna, o primeiro 8.000 mts. a ser escalado, em 3 de Junho de 1950, complementado com fotos elucidativas, é uma descrição crua das dificuldades enfrentadas pela expedição composta por 9 franceses e os guias sherpa.

Da próxima vez que me queixar do frio no Gerês, darei um murro em mim próprio.

Edição portuguesa de 1955.

P.s. - venham o chã e as meias quentes.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

À neve, todos à neve!

Por não saber o que escrever, hesitei bastante antes de postar prosa. É que a última expedição acarretou insondáveis desígnios de alma que teimam em respirar.

O Alvão continua no sítio, apesar da rotação da terra e da notícia recente da possibilidade de o seu núcleo ter parado de girar mais rápido do que o globo e invertido o sentido da própria rotação.

Acho que andámos todos à roda.

Assunto fértil em investidas foi o Areião, que o astrónomo amador, investido da mais recente parafernália tecnológica, não deixou esmorecer no entusiasmo transbordante do sol em Janeiro.

Confesso a minha pouca propensão para interesse no assunto - pouco sei das qualidades da areia, quanto mais discutir sobre técnicas de extracção da mesma! Contudo, creio ser necessário apontar um telescópio para o Pólo Norte e esperar o alinhamento dos astros...deve ser a influência gravitacional da lua. Acho que o M. vai avançado na discussão; assim como no terreno.

Outro ponto assaz pertinente, discutido entre um naco de alheira e uma azeitona, regado a tintol, foi o posicionamento dos astros aquando do nascimento - parece que já mudou a ordem e, agora, sou Touro.

Não sei se é bom, ou mau. Ou vice-versa.

Foi o aspirante a astrólogo quem nos revelou a nova disposição, ainda que não houvesse deitado cartas. Ou lido os búzios.  E sem apontar o binóculo para o Pólo Norte, como sugestão do M.!

Um pormenor intrigante está relacionado com o vinho; é que o P. referiu-se diversas vezes à nebulosa e eu estranhei, pois calhou meia garrafa a cada um. Não sei como foi possível ele estar nebuloso com tão pouco - e nem provámos o xiripiti!

O positivo que se extrai destes encontros é a multiplicidade de ocasiões em que o mesmo assunto pode ser discutido - nada fica por dizer entre nós. À observação loquaz sobre uma qualquer matéria, emitida por um qualquer interveniente, logo outro vem à pedra brandir a mesma questão alertando-nos para a singularidade do assunto; não é pouca coisa quando, um terceiro emissor, vem reforçar esse pendor extraordinário e avisar-nos do fenómeno espraiado a nossos olhos.

Observadores, é o que somos!

À noite fomos ver as estrelas. 

Creio em interessados na deslocação a uma casa de diversão nocturna - pelo menos, foi o que depreendi de tanto ouvir falar em Andrómeda. Só pode ser nome de boite!

Do resto não mais dei conta: refugiei-me no interior do carro e passei pelas brasas. 

Será isto a extracção do areião?

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Sugestão livresca


Não me canso de elogiar esta colecção - Retratos da Fundação - editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Aqui, já o fiz por diversas vezes trazendo títulos de assuntos tão díspares quanto a vida na prisão, ou a vida das guardas de passagem de nível.
São retratos fugazes, mas acutilantes, sobre um Portugal que raramente aparece nos escaparates das notícias deste país tombado a litoral e, frequentemente, ingrato para quem o vive na sua plenitude.
Será, talvez, a melhor relação qualidade/preço possível de encontrar - charcutaria incluída!
Com um número médio aproximado de 100 págs. por cada número e o preço fixo nos € 3,50, é pornografia a céu aberto; é escândalo de 1ª página e abertura de telejornal.
Neste número, com um título absolutamente fantástico - Homens sem coração -, é feito o relato na 1ª pessoa das condições atribuídas aos homens que passavam 6 meses por ano na pesca do bacalhau, em águas da Gronelândia e Terra Nova. 
Lançados de madrugada ao mar gelado, sozinhos no dóri, passavam horas na labuta, lançando as linhas e recolhendo o bacalhau para dentro da embarcação. Do apuro da pescaria, saía a jorna diária - quanto mais se pescava, mais recebia.
Relato franco e sensível sobre a vida de pescador, essa espécie de fatalismo que cai sobre aqueles que vão ao mar.    
A não perder - é fácil de encontrar!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

O peregrino e o seu burro.

Há anos que mantenho o hábito de destacar peças jornalísticas para ler mais tarde; seja pelo interesse do tema, pela dimensão da peça ou, mais prosaicamente, por preguiça, acumulo resmas de páginas semi-rasgadas aguardando atenção.

Ontem, folgado de tempo e habilitado com paciência bastante, atirei-me de cabeça ao arquivo de papel já amarelecido.

Curiosamente, - apelar ao advérbio é um jargão que serve para empacotar "coincidências" - deparei com este recorte do Público, de Novembro de 2022, que nos apresenta Enrique Balsera: um peregrino que se fez à estrada depois de um acidente de viação o remeter a uma cadeira de rodas durante 1 ano.

Hoje, acompanhado do seu fiel Espírito Santo, o burro que o acompanha há três anos e meio, percorre estradas movido pelo correctivo que Deus lhe deu - "nunca um castigo -, levando-o a perceber que o importante na vida é saber sentir."

                                              


O apelo à coincidência acima descrito fica marcado pelo extracto a seguir e que retirei da última página lida, momentos antes, do livro que estou lendo por ora:  

"E Mahmoud Darwich, o poeta que mora numa mala, nem sequer numa arca, procura uma pátria para criar pardais, enviar cartas de amor com o endereço nas costas do envelope para o caso de serem devolvidas. É o eterno ser do distante, aquele que está apenas de passagem; atravessa as planícies estrangeiras, anda pelas ruas que desenha, traça-lhes as linhas, as curvas e as encostas à medida que avança. Quando decide parar, desenha um banco de pedra, põe aí a mala, pousa a cabeça em cima dela e dorme. Dorme e sonha, de cabeça leve, de corpo leve, de sono leve; está sempre pronto a partir de novo, o caminho dele é infinito, é ele o mestre dessa obra, o arqueólogo e o agrimensor." 

Tahar Ben Jelloun - O escrivão público - pág 107

ed. Cavalo de Ferro