Há anos que mantenho o hábito de destacar peças jornalísticas para ler mais tarde; seja pelo interesse do tema, pela dimensão da peça ou, mais prosaicamente, por preguiça, acumulo resmas de páginas semi-rasgadas aguardando atenção.
Ontem, folgado de tempo e habilitado com paciência bastante, atirei-me de cabeça ao arquivo de papel já amarelecido.
Curiosamente, - apelar ao advérbio é um jargão que serve para empacotar "coincidências" - deparei com este recorte do Público, de Novembro de 2022, que nos apresenta Enrique Balsera: um peregrino que se fez à estrada depois de um acidente de viação o remeter a uma cadeira de rodas durante 1 ano.
Hoje, acompanhado do seu fiel Espírito Santo, o burro que o acompanha há três anos e meio, percorre estradas movido pelo correctivo que Deus lhe deu - "nunca um castigo -, levando-o a perceber que o importante na vida é saber sentir."
"E Mahmoud Darwich, o poeta que mora numa mala, nem sequer numa arca, procura uma pátria para criar pardais, enviar cartas de amor com o endereço nas costas do envelope para o caso de serem devolvidas. É o eterno ser do distante, aquele que está apenas de passagem; atravessa as planícies estrangeiras, anda pelas ruas que desenha, traça-lhes as linhas, as curvas e as encostas à medida que avança. Quando decide parar, desenha um banco de pedra, põe aí a mala, pousa a cabeça em cima dela e dorme. Dorme e sonha, de cabeça leve, de corpo leve, de sono leve; está sempre pronto a partir de novo, o caminho dele é infinito, é ele o mestre dessa obra, o arqueólogo e o agrimensor."
Tahar Ben Jelloun - O escrivão público - pág 107
ed. Cavalo de Ferro
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