Curioso que sou, cuidei de indagar sobre esse tal João Garcia e os "inomináveis" feitos que tantos lhe apontam.
" Ao mal de altitude junta-se uma permanente sensação de cansaço. O coração começa a bater mais depressa, chega a atingir, mesmo em repouso, uma média de 100 pulsações por minuto, em vez das 50 ou 60 normais. O ritmo cardíaco em descanso vai aumentando e a capacidade para o coração bater mais depressa em esforço vai diminuindo. Até que, pura e simplesmente, não se consegue fazer esforço." - pág. 143/144.
Não por qualquer motivo bisonho: apenas para aquilatar da justa apreciação geral, do país no seu todo, ao nosso feito: a conquista da Nevosa. Dirão, alguns: " foi só um montezinho!, uma ridícula elevação!". CAROS: são 1.546 mts., bem mais alto que o ridículo 4º andar que habitais.
"Tentarei fazer como em 1998 - um dia de repouso no Campo Base Avançado, subir à tarde ao Colo Norte, dormir e no dia seguinte continuar para os 7.850 mts., para o Campo 2. Aí, parar algumas horas para fazer águas e bebidas, e a meio da tarde continuar para os 8.300 mts. Estarei então no Campo 3, onde conto esperar pelos outros e cerca da meia-noite partir para cima." - pág. 160.
É apenas para duros e experimentados, conhecedores profundos dos meandros mais escabrosos da caminhada em alta montanha; é um verdadeiro quebra-cabeças técnico. Creiam: subir à Nevosa põe à prova o mais experimentado dos duros.
" A seguir existem umas passagens um pouco aéreas, estreitas, de cornija e esporão de neve, onde também existiam umas cordas fixas, que nós usámos apenas como apoio de mão. Depois, não subimos directamente pela crista acima, mas contornamos a face norte, vamos pela face nevada. Agora a dificuldade volta a ser a inclinação da pirâmide sumital, que em algumas zonas chega a ter uns 50-60 graus." - pág. 196
Para aquilatarem do grau de dureza duma façanha desta natureza, posso informar os mais incréus que EU cheguei a transpirar durante a ascensão; suadinho até à bica! São tamanhas as provações que, apenas quem por elas passou, será capaz de afirmar denodadamente - é superlativo!
"Aqui eu começo a ter as primeiras alucinações. Via como se fosse um corte no gelo. Vêem-se várias camadas de neve anterior e duas ou três manchas negras. Mas eu, no lugar dessas duas ou três manchas negras, por vezes via escaladores a fazerem big-wall, ou seja, pendurados ali no gelo, na vertical. Naquele momento aquelas manchas pareciam-me gente. Aquela altitude é completamente impossível. Mas eu via-os...e ao mesmo tempo tinha a noção de que não podia ser, que era apenas eu a imaginar, como quando olhamos para uma rocha e dizemos: « Olha, aquilo até parece uma cara!»." - pág. 197.
Do espírito de sacrifício necessário geralmente não reza a história; contudo, posso assegurar que apenas o espírito mais resiliente se mostra capaz de empreender o desfio aos deuses. A certo passo, sinto um incómodo no pé direito, algo impeditivo de assentar plenamente a sola no chão coriáceo, inclemente. Dotado de presença de espírito, não me deixei abater e descalcei a bota; cheguei, até, a descalçar a peúga e encarar uma pedrinha assassina pronta a derrubar-me. É assim, precisámos responder com serenidade à gravidade dos acontecimentos. Não é para todos!
"Nessa altura já não consigo calçar botas, porque os meus pés incharam com bolhas e a melhor forma de evitar infecção é evitar rebentar essas bolhas. Faço todo este caminho calçado com uns patuscos de plumas, uma espécie de pantufas que servem para aquecer os pés dentro do saco cama, mas que não foram de todo feitos para andar em cima de pedregulhos. Ao andar sinto literalmente tudo na sola dos pés. Caminho com mil cuidados, meio encolhido. mais tarde vi imagens dessa caminhada, parecia um faquir, ou uma velhinha a andar descalça em areia a ferver." - pág. 225.
Em resumo: da leitura não apreendi a excitação em torno da "façanha" descrita, nem a justificação para os encómios laudatórios, assim como para a ausência dos mesmos relativamente à nossa odisseia. Será pelos 7.000 mts. de diferença de altitude entre os picos? A sério?! É o país que temos...
Para quem quiser, à venda nas livrarias.

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