segunda-feira, 6 de março de 2017

Admirável mundo novo...ou nem tanto assim!


O Mundo avança a tal velocidade numa sucessão imparável de avanços tecnológicos que nem damos conta do que fica; apenas a vertigem dos acontecimentos é notada, o atropelo constante e sucessivo das diversas novidades num festival de canibalismo tecnológico.Tal arrazoado de ideias vem a propósito de um artigo que encontrei numa revista antiga - melhor: não é tão antiga assim, é de Novembro de 1999. Ainda não é de maior, como dizem os irmão zucas. No dito cujo, o articulista dá-nos notícia do novo mundo que nos espera; da soberba do novo Homem - algo como homo/deus/computus - perante o domínio das vias cibernéticas, enfim: a via digitalis em todo o seu esplendor.Apesar de ameaçador das liberdades, se lido ao espírito da época, é um textinho muito inocente quando lido hoje - e não correram assim tantos anos. Podemos, inclusive, considerar o articulista um tanto naif nas considerações feitas sabendo nós o que (hoje) sabemos.

“Num mundo em que tudo tem um preço e coisa alguma está imune à curiosidade alheia, surge enfim o serviço ideal. A partir do primeiro dia do ano 2000 vai ser possível ao comum dos mortais comprar imagens de satélite de qualquer ponto – pontinho, mesmo – do globo. Até agora, esse privilégio estava reservado às organizações militares, detentoras de potentes mecanismos de vigilância a partir do espaço. Mas com a entrada no mercado de uma empresa norte-americana chamada Space Imaging, o satélite Ikonos vai estar disponível ao público em geral. Assim, diariamente, o Ikonos dará várias vezes a volta à terra, levando noventa minutos a completar cada uma dessas órbitas, durante os quais poderá fotografar qualquer pedaço de solo até à dimensão mínima de um metro quadrado. O custo dessas imagens de alta resolução é do equivalente a quase cem contos, mas as fotografias menos pormenorizadas podem ficar por uns parcos 5400$00. Isto significa, segundo John Copple, o responsável pelo projecto, que o serviço Ikonos acaba por sair mais barato que as tradicionais fotografias aéreas, feitas de helicóptero ou avião, e têm uma qualidade de resolução muito superior. Alem disso, colocado a uma altitude de 680 quilómetros, o aparelho é obviamente indetectável à vista desarmada. As experiências feitas pela empresa incidiram em pormenores da cidade. (...) Por enquanto, resta apenas especular sobre quais serão os clientes habituais da Space Imaging. As hipóteses mas sérias apontam para latifundiários, companhias de extracção de petróleo e empresas de telecomunicações. Mas os voyeurs são também potenciais fregueses. Através dos serviços da nova empresa, pode-se, por exemplo, ficar a conhecer os hábitos diários do vizinho do lado, seguir os passos de uma marido infiel, controlar os filhos ou invadir a privacidade de uma qualquer estrela.(...)”


in Grande Reportagem, 2ª série, novembro de 1999.

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