segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Viagens sem molhar os pés - II

Com Fernão Mendes Pinto - "Fernão, mentes? Minto!" e as suas venturas, aventuras e desventuras na Ásia, em tempos de potência planetária espalhando Albuquerques terríficos por quanta terra havia. O fabuloso relato divide opiniões quanto à sua veracidade e rigor histórico - diz-se que o Fernão seria dado um pouco a exageros, aumentando e inventando muitos dos feitos de que se ufana, adoçando a "...rude e tosca escritura..."deixada de herança aos filhos, "...para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos que passei no discurso (decorrer) de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido..." lá para os confins da Ásia. 

Enquanto repositório da narração das andanças da pobre criatura, sempre em bolandas - ora no meio do mato, ora na luta contra os mouros, pasmado pela chusma diversa de plantas e animais (alguns, claramente saídos da fértil imaginação do autor), Peregrinação convoca-nos para esse terreno mítico onde se misturam os feitos heróicos, a história e as estórias que o peso dos séculos transforma em encantamento. Real ou fábula, o que interessa?


Acompanhei a leitura dos dois volumes com a audição de "Por este rio acima", de Fausto Bordalo Dias. Obra de génio, álbum fundamental no compêndio de história da música portuguesa e em qualquer discoteca de bom gosto. Inspirando-se em capítulos da narrativa, Fausto escreve-rescreve-trescreve, ou des-escreve o original e faz parir de sua pena 15 textos que, não o sendo, são: originais!

Na Planície das serpentes, o autor, Paul Theroux, um habitual por estas paragens, provavelmente o melhor escritor de viagens do mundo - não confundir com guia turístico! -, relata-nos a viagem de carro ao longo da fronteira dos EUA com o México. 

O livro é recente - 2019 - e abarca, como não pode, o não tão actual problema das migrações e a tentativa desesperada dos países desenvolvidos em barrar a entrada no seu território aos milhares fugidos da tragédia e da miséria. O muro do Trump é apenas mais mediático que as nossas fronteiras, as da Europa; portanto não é um tema exclusivo dos americanos, mas que toca a todos.

É um relato pungente da miséria com a salvação à vista do olhar no outro lado da barreira, cuja ânsia de fuga é impiedosamente explorada pelos cartéis de droga. Toda a violência dos grupos armados e do Estado é primorosamente narrada, bem como a brutalidade policial, a corrupção e o medo que tolhe vontades. 

Por fim, sendo um regresso ao início, a Biblia. Confesso nunca haver passado estes que a terra há de comer pelas páginas da Bíblia, ora por distanciamento, ora por desconhecimento na forma de a abordar. Não sentia uma carência, do ponto de vista religioso, mas sim um vazio cultural assente na ausência de um texto fundamental na construção do caminho para milhões de pessoas.

A nova tradução, por Frederico Lourenço, mantendo o rigor do texto religioso, pretende-se sob uma perspectiva não-confessional revelando-se como matéria de estudo universitário, onde as notas explicativas ganham protagonismo. Uma Bíblia com sentido pedagógico nos seus comentários era o que faltava a um analfabeto nestas matérias - tal como eu!

Por ora, estou lendo o 3º de 6 volumes - o primeiro livro do Antigo Testamento: Os Livros Proféticos. 


Sendo como livro de viagens a ultima categoria em que incluiríamos a Bíblia, também neste modo "escape" ela pode ser lida, atendendo à vastidão geográfica e (in)temporal do seu texto, permitindo uma imagética infinda qualquer seja o pendor que queiramos dar à obra. Chegou tarde, mas ainda veio a tempo.
Ainda sobram alguns exemplares que o SARS-CoV-2, covid 19 para os mais íntimos, fez o especial favor de juntar a esta grande viagem e que oportunamente trarei à montra.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Viagens sem molhar os pés - I

Só está parado quem não anda! 

Sentença clara como a água, assemelhando-se na essência às previsões diárias do horóscopo: de tão amplas e vastas, não há quem não vislumbre um tiro certeiro no alvo das dúvidas que nos assolam.

A paragem forçada a que nos obriga a peste - aqui e ali fintado o degredo, à laia de contrabandista iludindo as autoridades - remete-nos para uma fundamental característica da nossa condição humana: a adaptabilidade. E de tão velho, mas sem cair, o provérbio que nos aconselha a caçar com gato, à falta de fiel canídeo.

Adormecidas as botas, amorfanhada a mochila, eis a tentação do relaxe sugando-me as intenções; a vil e mesquinha preguiça arrastando-me à sua presença e ditando cristalino parecer: o que vais fazer?

E eu, humílimo de tão ser que é vaidade, deitei-me à cama a pensar. Aborrecido, de tanto penar o cérebro, busquei um livro para distracção momentânea na certeza de haver resolvido o dilema antes do tardar do dia.

E então, num súbito estendido nos meses, descobri as falhas na mecânica celeste que rege a ordem dos mundos no seu vagar de séculos de séculos; a histórica omissão nos compêndios da física nos seus ditames doutrinais: é possível viajar sem sair do lugar.


Deitado na cama, e sem rigor cronológico, corri Ceca e Meca: Dentro do segredo,  de José Luis Peixoto, fui à Coreia do Norte e ao imenso festival faz-de-conta orquestrado por um estado fechado e controlador das vontades alheias, mergulhando o seu povo num surreal viver, transformando qualquer manifestação própria num emaranhado de proibição e penalização temperadas a medo, muito medo.


Galguei oceanos numa releitura de Na Patagónia, de Bruce Chatwin. Seguramente, 30 anos me separam da leitura inicial e do deslumbramento pasmado com a solidão do sul. 


Subindo um pouco no território, e sem abandonar o sofá, aporto à Bahia de Todos-os-Santos, Brasil. Resultando de um desafio lançado à autora, Alexandra Lucas Coelho, por essa galáxia chamada Caetano Veloso, Cinco voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso é um caloroso roteiro que vai de Jorge Amado a Bethânia; dos terreiros às mães de santo, passando por Itapuã sublimemente cantado/contado por Toquinho e Vinícius.


Nova releitura ao sabor do correr dos dias, alargando distâncias, atropelando o senso comum e a percepção a baloiçar entre o incomensuravelmente pequeno e o infinito. Cosmos, de Carl Sagan,  é uma viagem pelo que É. 

Numa consideração pessoal, comprei o bilhete na altura certa.  


De novo. e ao abrigo da vontade abortada de botar pés ao caminho: Portugal a pé. Relato de um feito de vida a despoletar em mim o mortal pecado da inveja num ano pródigo em frustrações que estas viagens deitado atenuaram.


Notícias do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, é um tratado descritivo das terras de Vera Cruz, una completa  "Descrição verdadeira de todo o Estado pertencente à Coroa de Portugal, da fertilidade dessa província, de todas as aves, animais, peixes, bichos, plantas, que nelas há, e dos costumes dos seus naturais". Delicioso, também, na miríade exdruxula de termos e baptismo de terras, plantas, animais.


Mais um projecto de errância que a foice do vinte-vinte feriu, mas não de morte. Adiado consecutivamente por preguiça, inoportunidade, preguiça e inoportunidade, preparava-me para esta road-trip no ano maldito. Mais uma vez adiada, espero cumprir este ano a travessia da N2 e alimentar esta "certeza / que nasce da minha riqueza / do meu prazer em descobrir" - em regime de empréstimo pelo Sr. Variações.


 
Regressarei oportuno ao tema e a esta ânsia de partida.