sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Viagens sem molhar os pés - I

Só está parado quem não anda! 

Sentença clara como a água, assemelhando-se na essência às previsões diárias do horóscopo: de tão amplas e vastas, não há quem não vislumbre um tiro certeiro no alvo das dúvidas que nos assolam.

A paragem forçada a que nos obriga a peste - aqui e ali fintado o degredo, à laia de contrabandista iludindo as autoridades - remete-nos para uma fundamental característica da nossa condição humana: a adaptabilidade. E de tão velho, mas sem cair, o provérbio que nos aconselha a caçar com gato, à falta de fiel canídeo.

Adormecidas as botas, amorfanhada a mochila, eis a tentação do relaxe sugando-me as intenções; a vil e mesquinha preguiça arrastando-me à sua presença e ditando cristalino parecer: o que vais fazer?

E eu, humílimo de tão ser que é vaidade, deitei-me à cama a pensar. Aborrecido, de tanto penar o cérebro, busquei um livro para distracção momentânea na certeza de haver resolvido o dilema antes do tardar do dia.

E então, num súbito estendido nos meses, descobri as falhas na mecânica celeste que rege a ordem dos mundos no seu vagar de séculos de séculos; a histórica omissão nos compêndios da física nos seus ditames doutrinais: é possível viajar sem sair do lugar.


Deitado na cama, e sem rigor cronológico, corri Ceca e Meca: Dentro do segredo,  de José Luis Peixoto, fui à Coreia do Norte e ao imenso festival faz-de-conta orquestrado por um estado fechado e controlador das vontades alheias, mergulhando o seu povo num surreal viver, transformando qualquer manifestação própria num emaranhado de proibição e penalização temperadas a medo, muito medo.


Galguei oceanos numa releitura de Na Patagónia, de Bruce Chatwin. Seguramente, 30 anos me separam da leitura inicial e do deslumbramento pasmado com a solidão do sul. 


Subindo um pouco no território, e sem abandonar o sofá, aporto à Bahia de Todos-os-Santos, Brasil. Resultando de um desafio lançado à autora, Alexandra Lucas Coelho, por essa galáxia chamada Caetano Veloso, Cinco voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso é um caloroso roteiro que vai de Jorge Amado a Bethânia; dos terreiros às mães de santo, passando por Itapuã sublimemente cantado/contado por Toquinho e Vinícius.


Nova releitura ao sabor do correr dos dias, alargando distâncias, atropelando o senso comum e a percepção a baloiçar entre o incomensuravelmente pequeno e o infinito. Cosmos, de Carl Sagan,  é uma viagem pelo que É. 

Numa consideração pessoal, comprei o bilhete na altura certa.  


De novo. e ao abrigo da vontade abortada de botar pés ao caminho: Portugal a pé. Relato de um feito de vida a despoletar em mim o mortal pecado da inveja num ano pródigo em frustrações que estas viagens deitado atenuaram.


Notícias do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, é um tratado descritivo das terras de Vera Cruz, una completa  "Descrição verdadeira de todo o Estado pertencente à Coroa de Portugal, da fertilidade dessa província, de todas as aves, animais, peixes, bichos, plantas, que nelas há, e dos costumes dos seus naturais". Delicioso, também, na miríade exdruxula de termos e baptismo de terras, plantas, animais.


Mais um projecto de errância que a foice do vinte-vinte feriu, mas não de morte. Adiado consecutivamente por preguiça, inoportunidade, preguiça e inoportunidade, preparava-me para esta road-trip no ano maldito. Mais uma vez adiada, espero cumprir este ano a travessia da N2 e alimentar esta "certeza / que nasce da minha riqueza / do meu prazer em descobrir" - em regime de empréstimo pelo Sr. Variações.


 
Regressarei oportuno ao tema e a esta ânsia de partida.

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