Com Fernão Mendes Pinto - "Fernão, mentes? Minto!" e as suas venturas, aventuras e desventuras na Ásia, em tempos de potência planetária espalhando Albuquerques terríficos por quanta terra havia. O fabuloso relato divide opiniões quanto à sua veracidade e rigor histórico - diz-se que o Fernão seria dado um pouco a exageros, aumentando e inventando muitos dos feitos de que se ufana, adoçando a "...rude e tosca escritura..."deixada de herança aos filhos, "...para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos que passei no discurso (decorrer) de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido..." lá para os confins da Ásia.
Enquanto repositório da narração das andanças da pobre criatura, sempre em bolandas - ora no meio do mato, ora na luta contra os mouros, pasmado pela chusma diversa de plantas e animais (alguns, claramente saídos da fértil imaginação do autor), Peregrinação convoca-nos para esse terreno mítico onde se misturam os feitos heróicos, a história e as estórias que o peso dos séculos transforma em encantamento. Real ou fábula, o que interessa?
Acompanhei a leitura dos dois volumes com a audição de "Por este rio acima", de Fausto Bordalo Dias. Obra de génio, álbum fundamental no compêndio de história da música portuguesa e em qualquer discoteca de bom gosto. Inspirando-se em capítulos da narrativa, Fausto escreve-rescreve-trescreve, ou des-escreve o original e faz parir de sua pena 15 textos que, não o sendo, são: originais!
Na Planície das serpentes, o autor, Paul Theroux, um habitual por estas paragens, provavelmente o melhor escritor de viagens do mundo - não confundir com guia turístico! -, relata-nos a viagem de carro ao longo da fronteira dos EUA com o México.
O livro é recente - 2019 - e abarca, como não pode, o não tão actual problema das migrações e a tentativa desesperada dos países desenvolvidos em barrar a entrada no seu território aos milhares fugidos da tragédia e da miséria. O muro do Trump é apenas mais mediático que as nossas fronteiras, as da Europa; portanto não é um tema exclusivo dos americanos, mas que toca a todos.
É um relato pungente da miséria com a salvação à vista do olhar no outro lado da barreira, cuja ânsia de fuga é impiedosamente explorada pelos cartéis de droga. Toda a violência dos grupos armados e do Estado é primorosamente narrada, bem como a brutalidade policial, a corrupção e o medo que tolhe vontades.
Por fim, sendo um regresso ao início, a Biblia. Confesso nunca haver passado estes que a terra há de comer pelas páginas da Bíblia, ora por distanciamento, ora por desconhecimento na forma de a abordar. Não sentia uma carência, do ponto de vista religioso, mas sim um vazio cultural assente na ausência de um texto fundamental na construção do caminho para milhões de pessoas.
A nova tradução, por Frederico Lourenço, mantendo o rigor do texto religioso, pretende-se sob uma perspectiva não-confessional revelando-se como matéria de estudo universitário, onde as notas explicativas ganham protagonismo. Uma Bíblia com sentido pedagógico nos seus comentários era o que faltava a um analfabeto nestas matérias - tal como eu!
Por ora, estou lendo o 3º de 6 volumes - o primeiro livro do Antigo Testamento: Os Livros Proféticos.
Sendo como livro de viagens a ultima categoria em que incluiríamos a Bíblia, também neste modo "escape" ela pode ser lida, atendendo à vastidão geográfica e (in)temporal do seu texto, permitindo uma imagética infinda qualquer seja o pendor que queiramos dar à obra. Chegou tarde, mas ainda veio a tempo.
Ainda sobram alguns exemplares que o SARS-CoV-2, covid 19 para os mais íntimos, fez o especial favor de juntar a esta grande viagem e que oportunamente trarei à montra.
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