sexta-feira, 21 de outubro de 2022

É o país que temos...e é isto!

Curioso que sou, cuidei de indagar sobre esse tal João Garcia e os "inomináveis" feitos que tantos lhe apontam.
                    " Ao mal de altitude junta-se uma permanente sensação de cansaço. O coração começa a bater mais depressa, chega a atingir, mesmo em repouso, uma média de 100 pulsações por minuto, em vez das 50 ou 60 normais. O ritmo cardíaco em descanso vai aumentando e a capacidade para o coração bater mais depressa em esforço vai diminuindo. Até que, pura e simplesmente, não se consegue fazer esforço." - pág. 143/144.

Não por qualquer motivo bisonho: apenas para aquilatar da justa apreciação geral, do país no seu todo, ao nosso feito: a conquista da Nevosa. Dirão, alguns: " foi só um montezinho!, uma ridícula elevação!". CAROS: são 1.546 mts., bem mais alto que o ridículo 4º andar que habitais.
                "Tentarei fazer como em 1998 - um dia de repouso no Campo Base Avançado, subir à tarde ao Colo Norte, dormir e no dia seguinte continuar para os 7.850 mts., para o Campo 2. Aí, parar algumas horas para fazer águas e bebidas, e a meio da tarde continuar para os 8.300 mts. Estarei então no Campo 3, onde conto esperar pelos outros e cerca da meia-noite partir para cima." - pág. 160.

É apenas para duros e experimentados, conhecedores profundos dos meandros mais escabrosos da caminhada em alta montanha; é um verdadeiro quebra-cabeças técnico. Creiam: subir à Nevosa põe à prova o mais experimentado dos duros. 
                " A seguir existem umas passagens um pouco aéreas, estreitas, de cornija e esporão de neve, onde também existiam umas cordas fixas, que nós usámos apenas como apoio de mão. Depois, não subimos directamente pela crista acima, mas contornamos a face norte, vamos pela face nevada. Agora a dificuldade volta a ser a inclinação da pirâmide sumital, que em algumas zonas chega a ter uns 50-60 graus." - pág. 196 

Para aquilatarem do grau de dureza duma façanha desta natureza, posso informar os mais incréus que EU cheguei a transpirar durante a ascensão; suadinho até à bica! São tamanhas as provações que, apenas quem por elas passou, será capaz de afirmar denodadamente - é superlativo!
                "Aqui eu começo a ter as primeiras alucinações. Via como se fosse um corte no gelo. Vêem-se várias camadas de neve anterior e duas ou três manchas negras. Mas eu, no lugar dessas duas ou três manchas negras, por vezes via escaladores a fazerem big-wall, ou seja, pendurados ali no gelo, na vertical. Naquele momento aquelas manchas pareciam-me gente. Aquela altitude é completamente impossível. Mas eu via-os...e ao mesmo tempo tinha a noção de que não podia ser, que era apenas eu a imaginar, como quando olhamos para uma rocha e dizemos: « Olha, aquilo até parece uma cara!»." - pág.  197.

Do espírito de sacrifício necessário geralmente não reza a história; contudo, posso assegurar que apenas o espírito mais resiliente se mostra capaz de empreender o desfio aos deuses. A certo passo, sinto um incómodo no pé direito, algo impeditivo de assentar plenamente a sola no chão coriáceo, inclemente. Dotado de presença de espírito, não me deixei abater e descalcei a bota; cheguei, até, a descalçar a peúga e encarar uma pedrinha assassina pronta a derrubar-me. É assim, precisámos responder com serenidade à gravidade dos acontecimentos. Não é para todos! 
                "Nessa altura já não consigo calçar botas, porque os meus pés incharam com bolhas e a melhor forma de evitar infecção é evitar rebentar essas bolhas. Faço todo este caminho calçado com uns patuscos de plumas, uma espécie de pantufas que servem para aquecer os pés dentro do saco cama, mas que não foram de todo feitos para andar em cima de pedregulhos. Ao andar sinto literalmente tudo na sola dos pés. Caminho com mil cuidados, meio encolhido. mais tarde vi imagens dessa caminhada, parecia um faquir, ou uma velhinha a andar descalça em areia a ferver." - pág. 225.

Em resumo: da leitura não apreendi a excitação em torno da "façanha" descrita, nem a justificação para os encómios laudatórios, assim como para a ausência dos mesmos relativamente à nossa odisseia. Será pelos 7.000 mts. de diferença de altitude entre os picos? A sério?! É o país que temos...

Para quem quiser, à venda nas livrarias.



quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Por entre brandas e inverneiras

Mais eficaz que as medidas compensatórias anunciadas pelo governo, proponho uma pechincha em forma de livro: Castro Laboreiro - entre brandas e inverneiras, de Luísa Pinto, com a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos, colecção Retratos da Fundação.

Por € 3,50 - não é à página: é o livro todo! - somos conduzidos a esse movimento único de transferência de armas e bagagens para os prados mais benéficos para o gado de acordo com as características da época, lá por terras do Laboreiro.

Sabe bem ler que, apesar da diminuição progressiva da prática por falta de haver quem mande, pois a idade não perdoa, ainda se mantém viva a ordem de transferência entre os lugares para benefício do gado e não para entreter turista.

São apenas 116 páginas, mas repletas de informação (não confundir com Wikipédia) para se lêr numa tarde de chuva. De bom tom será dar uma vista interessada aos títulos publicados, todos eles retratos de um certo Portugal - breves, mas complementares ao que nos vai caindo no prato.

terça-feira, 26 de julho de 2022

Do pico da Nevosa à Turquia

Lembrei João Garcia, o alpinista português que já escalou as 14 montanhas acima dos 8.000mt., quando pus os pés no topo do pico da Nevosa.

No topo, no topo...não! Foi um bocadinho mais abaixo - apenas impossibilitado pela tempestade que fazia sentir-se lá no alto: a neve acumulada ultrapassava o tornozelo e as rajadas de vento ciclónico eram lâminas aguçadas prestes a martirizar-nos por completo. Enchi de pedras os bolsos disponíveis afim de servirem de lastro e qualquer tentativa de contacto com os restantes 15 companheiros da expedição cobrava alto à energia disponível. Para trás haviam ficado 5 companheiros, para todo sempre fundidos na massa branca de neve, caídos ainda antes do temível Desfiladeiro da Morte.

A montanha tem um preço.

Bem...até fazia bom tempo e o vento era manso e para trás apenas ficou o M. que não quis subir. A neve, até houve - mas em Dezembro, quando lá não estive. E não éramos 20 - apenas 4...

A subida à Mina das Sombra é feita por um trilho impenetrável e quase impossível de ser vencido. Palco de terríveis naufrágios e horríveis assassinatos a sangue-frio, a sua conquista encheu de glória os intrépidos aventureiros lusos. 

Apesar o mau tempo poder ser causa de turbulentas comunicações com a base, apenas o elevado preparo e cuidado posto na aquisição da mais elevada parafernália técnica de localização evitou o suicídio colectivo que todos prenunciavam. A cada minuto, íamos sendo informados pelos geo-localizadores-referenciadores que já estavam cumpridos 1.500mt, que já só faltavam 13.500mt e que já havíamos subido mais 3 metros em altitude após a última comunicação: é um descanso saber que 15 segundos depois, já havíamos percorrido 1510mt, que já só falt...................

Vista a partir das minas. Ao centro, são visíveis os destroços do galeão Sta. Maria de Tenerife, atíngido por um temporal medonho quando regressava da carreira da Índias ocidentais, em 1758. Os locais afirmam ouvir murmúrios esparsos em noites de tempestade.

Apenas a vontade indómita permitiu que, hoje, estivesse aqui a dar testemunho da façanha; as probabilidades de estar a fazê-lo no remanso do lar eram, à partida, praticamente nulas.
Durante 4 anos, após o anúncio da intenção da expedição, fomos vilipendiados no carácter por elementos da mais baixa estirpe moral; fomos alvo de troça e chacota por almas viventes do Velho do Restelo; fomos apontados como aberrações.
Contudo, nada nos demoveu de cumprirmos o destino, essa roda imparável que gira sem parar. Lembro, numa expedição ao Tibete, ter visto uma no mosteiro em que recolhi e ter dado o meu impulso à roda.

Não foi bem no Tibete, mesmo, mesmo no Tibete...foi no Restaurante Tibete, em Vale de Cambra, que havia uma roda giratória de especiarias em cima da mesa e eu andava à procura de cominhos...e também, em abono da verdade, não foram necessários 4 anos para preparar a expedição: foram só 4 dias - falámos na segunda e saímos no sábado.

Apartes à parte, retomo o fio condutor da brava gesta dos heróis lusitanos: os perigos inusitados de um compromisso desta envergadura ficaram explícitos quando a rareza de oxigénio começou a fazer efeito no cérebro do fotógrafo da expedição. Apenas a coragem e sangue-frio de J. evitou a tragédia que esteve mesmo, mesmo, à borda de acontecer. 

Por efeito da rarefacção de oxigenação no cérebro, P. o engenheiro-de-redes-fotógrafo-videasta-desenhador-empresário-timelapser-devorador-de-alheiras-e-mouras, principiou a ouvir vozes em tom cavernoso, de acordo com testemunho do próprio, sugerindo-lhe a queda em voo livre no abismo que se apresentava à sua frente - 3 km em linha recta até ao chão.
O instante em que a perícia militar e o arrojo dos bravos permitiu salvar no último segundo uma vítima inocente.

Fruto da experiência militar em forças de elite, J., antevendo o cenário que se preparava, aplicou em P. as técnicas mais avançadas de resgate em alta montanha, subtraindo ao delírio mais um vítima.
Foi o momento de maior tensão vivido até ali!  

Bem...na verdade, a voz que P. ouvira era a de J. aconselhando-o a recuar um pouco mais pois o local era perigoso...e o delírio de P. era apenas a intenção de ângulo mais fechado na foto que J. se prestava a sacar no telemóvel.  

O caminho prosseguia por entre penhascos inóspitos e trilhos instáveis que ameaçavam lançar-nos no abismo. Derrocadas imprevisíveis lançavam pedras e calhaus da envergadura de toneladas por sobre as nossas cabeças, reclamando para si a nossa ousadia.     

É visível o depósito de pedras após a derrocada. Fomos salvos pelo sismógrafo.

A aproximação ao pico gerou intensas ondas de ansiedade. Apenas os eleitos conhecem este frenesim dos diabos a apoderar-se dos nervos, trazendo à realidade o motivo que lá nos levara. Fomos resgatados ao torpor que se apodera do espírito, entregue à missão de nos guiar por entre insondáveis perigos mas inabaláveis convicções. Para espantar a morrinha do pensamento, vagueámos por momentos nas cercanias do Pico. Ao longe, se observados, alguém teria a tentação de dizer estarmos perdidos: ó GENTE DESCRENTE, apenas fazíamos horas... 

Após inúmeras tentativas a subida ao Pico da Nevosa era um dado adquirido. Finalmente, podia arrogar-me o título de intrépido conquistador, audaz trepador e ousado aventureiro - os 2 picos mais altos de Portugal continental já estavam conquistados: o Pico da Nevosa seguiu-se à serra da Estrela, num passeio da escola em 1986. Acho que  foi o 9º B... 

Momentos inolvidáveis da grandeza lusitana, marcados na história logo a seguir às viagens do Vasco e à descoberta do Brasil.  

Ainda antes que o feito fosse notícia, já o prof. Marcelo nos comunicava a sua satisfação, prometendo-nos um medalha assim que chegássemos.  
Bem,..na verdade não foi  o Marcelo: acho que era um amigo do P. a propósito de um alçado...

A fim de evitar a tempestade que se anunciava medonha e terrível, foi opção encurtar caminho e passar pelo temível local das Minas dos Carris - actividades paranormais e cenas cósmicas polvilham a imaginação popular acerca deste local. Estava dado o mote para mais um grandioso desfile de coragem arrancado aos paladinos da audácia e bravura, entre os quais - modestamente e porque apenas sou obrigado pela força das circunstâncias -  eu me incluo.
Bem, na verdade até é um sítio pacato - apenas as carcaças das casas dos antigos mineiros dá alguma cor à imaginação. De resto...  

Faltava a última prova de fogo: atravessar a linha de fronteira e fugir aos demoníacos guardas, esperando não ser atingido por um tiro. Contam-se histórias de arrepiar um porco-espinho sobre a severidade e arbitrariedade destes personagens. Para fim de história, ainda restava a prova derradeira: descer o vale do rio Homem. RESPECT!

A cada desfiladeiro o perigo espreita, seja  em forma de derrocadas ou animais selvagens do mais selvagem que há.
 
Foi insano o  trabalho para vencer a vegetação acumulada e progredir no terreno, precavendo qualquer inconveniente que perturbasse a marcha gloriosa de regresso à civilização. Ainda que pudéssemos ser surpreendidos pela força militar, nada impediria o tropel esplendoroso da marcha civilizacional que representávamos; a candeia da vanguarda do conhecimento por nós empunhada e que cada homem, por esse mundo espalhado, sentado à borda do rádio, ansioso, notícias esperava desse devir que nossas almas aventureiras exalavam. VIVA O PROGRESSO!

Bem...na verdade, pela hora prevista para a nossa chegada, dificilmente seríamos surpreendidos pela guarda-florestal - eles, também jantam! E glória, glória...bem...era mais sentar o mocho no banco do carro e abalar até ao restaurante.

Emocionado, o sr. Lino quase se desfez em lágrimas à nossa chegada. O restaurante em pé, aplaudindo-nos, frenético. Para nós, o reconhecimento justo.

Finalmente, o descanso do heróis em forma de refeição: Falafel de grão e ervas; hambúrger de legumes; quiche com batata doce; creme de inhame; risoto de quinoa com cogumelos; tofu com natas, eram as sugestões de refeição. A união dos planos físico e espiritual,  a simbiose com vista ao aprimoramento do Ser, o abandono do plano sensorial para o êxtase contemplativo da luz interior.   

Bem...em boa verdade, não foi esta, a ementa - foi bacalhau em duas das infinitas possibilidades para levar à mesa; e não houve nenhuma contemplação da luz interior, foi mais sobre a adesão da Turquia à UE.

Ah! O restaurante levantou-se, mas não todo - foi só a uma mesa para nos deixarem passar. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Gralheira e Panchorra e Vale de Papas e Bustelo da Lage - mais 1 ficha, mais 1 viagem!

Por mais voltas que o planeta enlace o Sol, haverá sempre algo por explicar. Das novas do mundo que nos aparvalham a vidinha burguesa e cómoda, aqui e ali recheada por um excesso, apenas para compor a consciência.

Na aldeia da Gralheira, serra de Montemuro, a 1.110 mts. de altitude, existem 2 restaurantes-porta-aberta, daqueles que não necessitam de busca apressada à cozinheira, arrancada ao lameiro entretida que estava na cuida da bicharada - um deles, pizzaria!  

Estas surpresas, assim à laia de provocação do demo aos simples citadinos inchados de sabedoria balofa, traduzem a força e vontade férrea arreigada nestas gentes de montanha, sofrentes do rigor invernil e do infernal estio; mais uma vez paira à lembrança a resiliência vomitada em catadupa boca afora pelas cavalgaduras que nos têm governado, agora que se apresenta novo bodo aos pobres com o dinheiro dos outros!

Por cerca das 11:00h a temperatura rondava os 0º, jurava a pés juntos a tecnologia embutida na viatura.

Pelo andar da carruagem não seria rebate falso, a julgar pelo estado dos caminhos que íamos vencendo a custo, mais pelo perigo do gelo na sola das botas que pelas dificuldades impostas pelo terreno.


Saídos da Gralheira, caminhamos no sentido da Panchorra - por momentos, julguei-me a aportar a qualquer localidade mexicana.

Contudo, para memória futura, fixei para a posteridade o momento solene de entrada oficial na aldeia.


Novamente  o espanto a chapar-nos à fuça a sua presença: nas inquirições de 1258 - séc. XIII!!! - já a Panchorra é referida, ainda que incluída no termo de Ovadas, antigo centro religioso da freguesia medieval.

Espanto: se no séc. XXI atravessámos Ceca e Meca para lá chegar, quem teria sido a primeira criatura a decidir fixar-se naqueles ermos muito antes da data acima? Com aquelas condições climatéricas, qual alma do diabo seria doida o bastante para lá montar casa? Que penas, angustias, tristezas, seriam razão para arrastar alguém para ali?

Prorrogação do espanto: pelo menos para mim, são perguntas que não carecem de resposta; é assim que as coisas são, evitando-se delongas na explicação do fantástico que encerram.

Igreja matriz de S. Lourenço de Panchora.

Ponte sobre o rio Cabrum.

Na fotos acima é paradigmático o traço de intenção na instauração da comunidade: a igreja, enquanto agregador religioso; e a ponte, dizem os entendidos que construída por mestres locais ou regionais, dada a irregularidade nos seus componentes, valorizando-se o sentido prático das sua construção para a união das 2 margens e o mais fácil acesso aos terrenos agrícolas.

No verão, é o local transformado em praia fluvial - com a escassez de água, transformado o rio num fio de água, não admira o aviso numa placa, à entrada: - "Área não vigiada"; ou, como constava em inglês: -"Beach without watch".

Apesar do sol, a temperatura continuava baixa e não dava mostras de alteração significativa que obrigasse ao depósito da roupa excessiva na mochila.

Ao longo do dia, foi este o panorama mais comum: gelo resistente ao Sol;
 quando assim não era, o trilho tornava-se bastante lamacento. 

Com a vista a espraiar-se pela cumeada, saltava à vista a organização das propriedades limitadas pelos muros levantados em pedras. Todos eles, praticamente, sem serventia que se adivinhasse mas, imponentes na sua majestade de montanha, sóbrios mas assertivos na dignidade.

A um olhar mais acelerado passam sem cuidado marcas identificadoras de uma identidade própria - estão lá porque fazem parte, carecem de se anunciar.

Vale de Papas reservava a curiosidade de um ponto de venda de artesanato, atenta a pouca gente à vista - mais uma vez, o traço de resiliência impregnado neste viver!

Manifestação de religiosidade popular que para o 
citadino não passa de bizarria para o Instagram.

Por quanto mais resistirão estas paisagens?, por quanto mais fará sentido este modo de viver?


Muitas vezes é o caminhante assaltado no seu vagar pelo inquieto pensamento, sorrateiro e desafiador, assim como os felinos, propondo um desafio: e se fosse por aqui?, apenas seguir a estrada e deixar-se levar errante até ao próximo cruzamento e, então, desafiador, novamente o pensamento surgiria: e agora, por onde vais? Altas filosofias à parte, no caso foi apenas atravessar a estrada  e voltar a calcar a terra húmida. 


O complicado do Pessoa dizia que "viajar é perder países": modestamente, direi que o Sr. exdrúxulo-em-si estava errado - viajar é perder paisagens! Países são decretos administrativos que selam fronteiras.

Bustelo da Lage e um café já repetido de outras andanças 
onde os 0,70 € não pagam a paisagem envolvente.

A sempre fascinante divisão dos terrenos como marca da ancestralidade.

Perto do topo, o sol a esconder-se, a temperatura descia francamente.

"Num lugar da mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, 
não há muito tempo vivia um fidalgo desses de lança no cabide, 
adarga antiga, rocim magro e galgo corredor."
- a cada um, os seus moínhos.

Com o sol pelas costas, embora já sem qualquer efeito retemperador, foi necessário percorrer o resto da cumeada sob um vento forte e gélido, antes  de entrar no estradão que, atravessando uma Panchorra deserta, no devolveria à Gralheira pelo fim da tarde e a uns "reconfortantes" -1º de temperatura.

sábado, 15 de janeiro de 2022

De Fujaco reza a história...agora!

A perspectiva de prisma garante-nos a pluralidade de visões tantas quanto a vontade na obtenção de várias vistas sobre o mesmo assunto. O Paulo Ferreira chamar-lhe-ia Hiperlapse, municiado do seu arsenal de parafernálias tecnológicas, rodando sobre o modelo. 

Alcançar, assim, uma construção mental de uma pedaço de terra unindo memórias desgarradas no tempo e criar essa espécie de viagem em voo de pássaro, remete para a justificação da postagem anterior: no mesmo, o tanto que ainda há para ver!

De abalada para as bandas de S. Pedro do Sul, terra fértil de surpresas para colmatar preguiças de caminheiros incapazes da preparação atempada da ronda, ficou decidida a visita a Fujaco...e logo se veria! - nada como uma voz de comando a impor resolução!

O acesso a Fujaco faz-se por uma estrada que vai lá directa e lá finda: por defeito, fica esclarecido o isolamento.

De acordo com o termómetro do carro, em alguns locais a temperatura exterior oscilou entre os 0º e 1º, antevisão do dia fresquinho que nos esperava.

A primeira impressão de Fujaco é a de renovado espanto: um aglomerado de casas empinando monte acima, tantas vezes visto e sempre espantoso.

Qual o primeiro homem, primeira família, a decidir-se assentar neste ermo rodeado de serras? E porquê? Que crimes, que dores, quais angústias bastaram para se fazer desaparecer neste ermo rodeado de lobos, abafado na neve de inverno e varrido pelo vento gélido? Se parássemos para pensar no que se esconde atrás de Postais Bonitos...

Xisto e mais xisto, a ribeira a correr no fundo da penedia escarpada, um Alojamento Local inacessível ao mais comodista dos citadinos, pois era necessária vencer uma escadaria para o topo, e um habitante - por sinal, o único que avistámos - que quase nos varreu de lés-a-lés com a escada que trazia alçada ao ombro, quando, atendendo ao caniche que o acompanhava, virou o passo e a escada, longa, acompanhando o movimento, pelas traseiras nos ia decepando as cabeças. 

Sobe que sobe, sem necessidade de aviso ou outras marcas, apenas restava subir a eito o carreiro que se empinava encosta acima, desbragado até ao topo - o malandro, a sorrir para nós!

Por onde a vista alcançava, iria ser penar digno de penitência que limpasse o pecado da gula e abastança da quadra finda.

Ao longe, quase imperceptíveis, as antenas no topo de S. Macário balizavam o hipotético destino: dá ganas fazer-se valente e forte, ainda que a intensidade do porfia não passe do mais fofinho algodão travestido do mais puro aço.

E foi tarefa árdua: vencer 500 mt. de altitude em 5 km! A exactidão dos números é irrelevante para o caso, pois, na sua incorrecção, não estarão muito longe dos valores apresentados - a diferença a verificar-se na carga de esforço seria mínima.

Como tantas vezes digo: "no pain, no gain", nada se ganha sem esforço e a recompensa está à nossa espera, não necessariamente quando se chega, mas como se chega.

Ao fundo, o recorte da silhueta das várias serras entrepostas entre si em tonalidades de cinzento e ciano, atapetadas de névoas baixas ainda persistentes, são quadros pintados com mestria pela criacção: não passam de mais perfis de serrarias e montanhias; mais nevoeiros formados como em qualquer outro lugar semelhante; cores cuja paleta, estes que a terra há de comer, já viu e reviu - mas são sempre espanto!

E as vezes que interrompemos a subida, mais que para o descanso das pernas, foi para render homenagem ao belo que se espraiava nas nossas costas.


Ao avistar a aldeia da Pena pelo lado sul, a surpresa que contextualiza o mote: a diversidade de visões e a multiplicidade de entendimentos dispostos ser criados e julgados - não avistando a fraga imensa que lhe faz costas, pois estando no seu topo, já se nos aparenta uma aldeia inocente, placidamente assente num local rodeado por elevações; já não a visão fantástica do casario prestes a ser engolida pelo penedio imenso que lhe ensombra os dias.

A Pena e o cabeço a cujos pés passa o caminho do "morto que matou o vivo", 
que dá passagem para Covas do Monte, mais acima, deslocada para a direita.

Aos 900  mt., como seria de esperar, o vento reinava e a sensação térmica deveras desconfortável. Mais acima, no topo, em S. Macário, entre os 1.050 e os 1.100 mt., seria o zénite do desconforto: vento forte e gélido.

Dadas as variáveis, para a resolução da equação estavam avisados os caminhantes - mandou a loucura que montássemos banca para almoçar precisamente...no topo!, espécie de romaria ao Santo e préstimo de homenagem em jeito de piquenique.   

Justificados os olhares que nos dirigiram as poucas pessoas afoitadas o bastante para ver a paisagem por breves segundos e regressar à viatura.

Novas paisagens por velhos caminhos, ou novos caminhos por velhas paisagens.

O regresso contemplava a consulta ao mapa, um pouco ao Deus-dará que o caminho fez-se para andar; após demorados, complexos e laboriosos cálculos de orientação decidimos o regresso pela aldeia de Leirados

Lá no alto, São Macário.
 

Trajecto inicial até à cumeeira para vencer o elevado desnível.
 
Resumidamente: pode dizer-se que foi uma tareia das antigas: 18 km. de extensão, dificuldade amplificada pelo somatório do desnível e o constante vento e frio.

2022 começou em grande, belo augúrio - encontrámos-nos no monte!

domingo, 9 de janeiro de 2022

O meu lamento.

Para aqueles que desdenham do país e vão fazer férias lá fora, que lá fora é que é:

Caminho Municipal 1123, serra de São Macário, São Pedro do Sul, Portugal, 
no dia 8 de janeiro de 2022