E eis que mais uma folha se arranca ao calendário e novo mês se apresenta, renovando assim o ciclo das andanças desta vida e das nossas, pelos montes afora.
No passado sábado experimentámos evoluir na continuidade, explorando a inóspita e desconhecida área do Alvão. Cientes do mergulho no desconhecido, das franjas de perigo a que nos submetíamos - despudoradamente, quiçá: ingenuamente - demos as balas ao peito e as solas aos seixos, e avançámos destemidos rumo à Alice...quero dizer: Alvão, parque natural do Alvão.
Roía-nos a curiosidade o efeito devastador dos sequazes do deus Vulcano na sua passagem por aquela área em recente período infeliz. Deo gratias o pior cenário esfumou-se...
Dispostos a cumprir, no mínimo dos mínimos!, um percurso nunca inferior a 25 km de extensão - termo inegociável - , não fora o repto demonstrar-se humilhante e desprestigioso paras o sumário das nossas credenciais de papa-milhas, demos início à prova desafiadora, a insinuar-se desrespeitosa, petulante e insolente, por volta das 6:00h, ainda as franjas de luz solar não beijavam o breu negrume da escuridão da noite e um tremendo temporal de granizo trazido pelo vento glacial abatia-se inclemente sobre nós - Alea jacta est!
A vantagem do cronista, habilitado a tal por ausência dos demais, como prática de por exclusão de partes, sem contraditório na narrativa, é alcandorar-se ao posto primeiro de criador, sem peias ou medidas, alargando ou exagerando os seus préstimos e feitos; narrando, ou não narrando, distorcendo, encolhendo, dos fracos fazendo heróis e dos valentes frágeis mosquitos enxotados ao movimento de suas mãos.
Lembro um verso escrito na porta de um dos habitáculos sanitários da escola secundária que frequentei, esse mítico lugar transversal a todo o edifício que mantenha 4 paredes em pé e um telhado, o lugar por excelência para reflexão ponderada e atilada, respeitosamente batizado de cagadeira, que rezava assim:
onde a vontade se acaba,
todo covarde faz força
e todo valente se caga."
Quem o teria escrito? Um valente, humílimo reconhecedor dos seus humanos limites?, ou um fraco, de rabo alapado no cerâmico da sanita como rei no trono de magnífico império? À sua forma, maneira e sentido, qualquer um deles foi um deus na promoção da sua obra, fazedor de leis e mentor de vidas.
Eis a visão ofertada a quem leia este arrazoado de palavras. "Será verdade?", "Foi mesmo assim?", "A sério?", são interrogações a que não pretendo dar resposta, largando ao critério da imaginação de cada um o provimento da solução.
O carácter mítico da nossa missão estava escrito: avistar a árvore de Joshua, postada por terra, mas firme no seu carácter, foi o sinal: resquícios do Antigo Testamento - de quão longe vem a nossa tarefa!!!. O outro sinal foi a banda sonora no regresso a casa a cargo dos U2 que, por acaso, têm um álbum chamado: The Joshua Tree.
Serão necessários mais sinais? Ó gente incrédula!!!
Outro momento dissonante do racionalismo fundacional dos nossos actos foi o avistamento de uma pinha com um homem acoplado. Rara visão a fazer lembrar os afamados "Fenómenos do Entroncamento", fait-divers inocentes de um país ensimesmado em si mesmo, corriam os anos de cinzenta pasmaceira.
Intrigado, profundamente intrigado, procurei nos alfarrábios mais célebres e raros a resposta a tal demanda; ainda que incompleta pudesse ser, carecia de uma explicação que dissolvesse a ácida inércia que me tolhia o cérebro, dado o inusitado do avistamento.
Vagueei por entre as bambas prateleiras esconsas da minha biblioteca e encontrei o que afanosamente buscava:
Munido deste livrinho, quase um opúsculo mas repositório dos mais recentes avanços e desavanços da ciência e do entendimento, da mais preexcelência teoria anexa e contraditada e do preexcelso parecer das orgânicas e mecânicas das coisas, fumos, fogos fátuos e outros afins, proveniente dos mais sábios de entre os sábios, dei vazão satisfatório à minha curiosidade, acalmei as pulgas da minha inquietação pululante e desastibilizadora e afoguei as mágoas do desconhecido neste caldo de sabedoria.
Não afirmava eu da superior categoria da sapiência se aplicada à análise dos fenómenos circundantes ao nosso perímetro corporal? Mentes elevadas que postularam a matriz da materialidade inversa: mediante certas premissas "(...) imaginaram que os seus habitantes não eram mais do que homens terrestres, modificados na sua constituição organica." (pág. 17)
Digo, para a posteridade: o Homem é uma Pinha, e uma Pinha é o Homem - tudo depende do planeta que os abriga.
A jornada corria no vagar adequado e os quilómetros eram vorazmente deglutidos, triturados, na férrea vontade individual. Alucinados, percorríamos o terreno de encontro ao infinito e mais além, como uma legião romana a percorrer milhas sem fim nas estradas arduamente construídas pelo espaço do Império. A cada pormenor digno de realce estancávamos o passo e apreciávamos criticamente o fenómeno. Efabulávamos teorias e concluímos decisões, estabelecendo tratados num arco de conhecimento que partia do reino animal e abarcava o mineral, o espiritual e o gastronómico. Uma babel de sensações!
Caminhava o dia para o crepúsculo quando, inopinadamente, do mais recôndito âmago de que são feitas as surpresas, surge diante dos olhos, daqueles que a terra há de comer, uma visão indescritível e encrustada no território dos medos ancestrais povoadores do complexo reptiliano do nosso cérebro: sentado numa milenar construção de cimento, uma criatura encarava o ilimitado infinito e um clarão de imensa luz vogava por sobre a sua cabeça, como as auréolas às dos anjos.
Monstruosas hastes metálicas erguidas do chão balanceavam seus braços poderosos em rotinas circundantes como se, sugando o vazio, dele se alimentassem.
Mentalmente percorri as referências bibliográficas que pudessem fazer luz e claridade ao entendimento. Firmei na razão a âncora das minhas forças em compita demoníaca com a expressão do terror em plena serra do Alvão.
Tempos desconhecidos em dias obscuros.
Percorri de A a Z os cartapácios erguidos que nem colunas de templos de saber. Arrisquei teses, invejei antíteses mas as sínteses não me traziam a resposta. Camarinhas de suor inundavam-me a testa enrugada no esforço da compreensão.
Um som quase indistinto, a início, fez a sua aparição sem contemplação e inundou por completo a minha mente no espaço de tempo que leva a piscar um olho. Violento e impositivo no seu final, era a memória das palavras de S. Paulo na Carta aos Hebreus a martelar-me o fraco discernimento e que havia ouvido a um padre numa cerimónia de benção de capacetes dos motociclistas: "Temos a respeito disto, muita coisa a dizer e coisas difíceis de explicar apenas porque vós vos tornastes lentos em compreender." (Hebreus 5:11-14).
Não sei o significado, mas acho que condiz com o momento de tensão do texto.
Desesperado, lancei mão das hipóteses mais erráticas, umas; absurdas, outras; incongruentes, todas. Dias depois, refeito do esforço e retemperadas as emoções, encontrei entre os escombros daquela horas de ruína, por entre os livros consultados, este exemplar
revelador do desnorte causado por desinfeliz visão.
Permanece no reino do incompreendido a solução do avistamento. Seria a revelação cósmica de um D. Quixote teletransportado através da tessitura de uma fenda espácio-temporal, revelado naquele tempo e lugar preciso, arrancado às profundas do infinito? Talvez...Começam, assim, a fazer um outro sentido as palavras iniciais de "Dom Quixote de la Mancha": "Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo vivia um fidalgo desses de lança no cabide, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor.". Leiam com atenção o excerto destacado, cotejem o seu conteúdo com a fotografia e meditem neste ponto: repararam na subtileza da não menção aos moinhos? Andará por aqui a resposta, estou em crer.
A ver...como dizem os espanhóis!
Por entre episódios de vã soberba e jactânte pedantice, sobrou um raro exemplar de exacto confinamento da pretensão à realidade, um ajuste directo da mente que idealiza à mão que concretiza.
Por entre citações de "Os Maias", de Eça de Queiróz - "A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no ano de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete." - e uma garrafa de "Vila Real" o repasto atravessou tranquilo as horas morrentes do findar do dia no "Sabores do Alvão". Aos comandos da cozinha, nau maior de esdrúxulo comando - "E mais que o mostrengo, que a alma teme / E roda nas trevas do fim do mundo; / Manda a vontade, que me ata ao leme, / De El-Rei D. João Segundo." -, D. Fernanda prodigalizou-nos ceia de clero aldeão, peixe e carne de babar beiços. Os doces, tantos quantos os dedos da mão, lambarices, lambetas - jura um que a avó assim chamava! -, gulodices de encher o palato em voltas redondas na boca. Café e amarelo para fechar.
Ainda que não belisque opíparo banquete, fiquei um pouco constrangido ao saber que o peixe tinha por nome Lúcio. Coitado!, se calhar tinha família.
Especificações técnicas do percurso:
desnível positivo: 7.584 mts.
desnível negativo: 9.518 mts.
condições climatéricas à data:
- vento do quadrante SW com tendência a NNW; rajadas permanentes de / até 135 km/h;
P.S.: De leitura, ou falta dela, ou melhor: dos hábitos, se falou também. Para compor o texto usei citações de "D. Quixote", de Cervantes; da "Bíblia"; d'"Os Maias", de Eça de Queiróz, e do poema "O monstrengo", da "Mensagem" do complicado do Pessoa.









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