segunda-feira, 23 de março de 2015

O lobo - V

Para fechar a temática lupina e fazer a transição para a saída à Serra de Arga no dia seguinte, pretendi publicar este excerto na passada 6ª feira mas, imponderáveis e condicionalismos surgidos das profundas da paciência e irritação do mais comum dos mortais, impediram-me de o fazer.
Se houvesse sido possível, elevaria o estatuto deste blogue aos píncaros da notoriedade, pois que a precisão de agendamento das matérias mais parecia obedecer a um esquema ultra-sofisticado e pós-profissional digno da mais reputada das publicações - como é mais ao menos ao calhas, até me saí bem!
A relação com o meio envolvente e a diversidade de interpretações possível de coligir sobre um mesmo assunto, traduz a complexidade da vivência e interacção dos seres viventes, ora com o seu semelhante, ora com o seu dissemelhante, desde o início dos tempos.
A construção de um edifício de pensamento estruturado em mitos, sugestões religiosas e outras particularidades que hoje se nos aparentam inocentes, frágeis, até incoerentes, é a base do Homem que foi à lua, que fala para o outro lado do mundo munido de 200 gramas de plástico made in china e dobra vidro sem o partir.
Contudo, apesar deste racionalismo cibernético de hoje precursor da robotização do humano, quem de nós não faz figas no penalti decisivo a favor da nossa equipa?; quem prescinde bater três vezes na madeira quando, em conversação, se alude a uma hipotética tragédia ou drama humano?; quem se esquece de colocar “Maias” à entrada de casa e janelas a fim de vedar a passagem do mafarrico durante a noite de 30 de Abril para 1 de Maio?
Afinal, tem muito que se lhe diga... 
Para os camponeses, as serras são um espaço misterioso e hostil, enquanto a planície é transparente. Na montanha refugiam-se os «ladrões e desertores»; as atenções que lhe dedicam são marcadas tanto pelo receio como pela admiração, o pavor e o encanto, a repulsa a a atracção, atitudes contraditórias que estão na base de toda a ideia de sagrado. A montanha figura entre as imagens que exprimem a união entre a terra e o céu – ela toca o céu e por isso os santuários situam-se sempre nos cumes.
Os camponeses do Alto-Minho imaginam a serra d'Arga, por exemplo, como um monstro devorador: ao referirem-se à serra os habitantes nunca lhe pronunciamo nome, como se fosse tabu. Dizem «a serra...a nossa», fazendo uma paragem na voz, uma pausa ritual que exprime o respeito ou o temor, porque a simples pronúncia do nome da força titânica poderia despertar o monstro adormecido. Nas crenças locais, todas as serras estão ligadas ao oceano por «braços de mar», rios subterrâneos, sendo a montanha e o oceano duas forças devoradoras cúmplices. Algumas delas são «inteiramente ocas», como ventres imensos e tenebrosos.
Para conjurar o medo da montanha, os camponeses recorrem a várias técnicas religiosas, entre as quais figura a «caça aos lobos», animais que são numerosos no Norte do país, mas a quem se atribui maior ferocidade do que têm realmente. Para os camponeses, o lobo é a representação do demónio das florestas; para os psicanalistas, é o simbolo do pai. A «caça» ao lobo é uma cerimónia religiosa e exorcizante mais do que uma batida propriamente dita: é barulho e agitação festiva. No Soajo, aldeia da serra do mesmo nome, a «grande caçada» realiza-se em 24 de Agosto, dia de S. Bartolomeu, durante o qual o «Diabo anda à solta», libertado pelo santo que o guarda todo o ano. Na noite que antecede aquela data os habitantes são mantidos em vigília por constantes rufares de tambores, toques de sinos, girândolas de foguetes, baile na praça pública e ofícios na igreja. A «caçada» não se estende ao conjunto da serra mas apenas a uma parte, numa área cercada por um muro em forma de funil que conduz a um precipício onde cairão os lobos. Aliás, ninguém espera encontrar lobos já que, após uma noite de barulho, os animais não estão à espera do primeiro tiro para se porem em fuga, e nunca se chega a saber se algum foi morto porque são eles próprios que se lançam no abismo, no fim do funil. No entanto, pode supor-se, depois que todos os lobos morreram, que se tomou posse da montanha.”
A religião popular portuguesa” - Moisés Espirito Santo
Assírio & Alvim
1ª edição
pág. 30

quinta-feira, 19 de março de 2015

O lobo - IV

Ao contrário dos excertos anteriores recolhidos de obras de ficção, este relata o teor das conversas entre velhos conhecidos que casualmente se encontram numa festividade, dados à estampa por um deles num repositório vadio de lembranças.
O que a realidade tem de ficção, e a ficção de real, é matéria para filósofos; contudo, quem não teve esta vivência escuta estas histórias com o mesmo sentimento com que ouve as facécias dos caçadores: cada um deles matou um coelho maior que o do outro. E tão maior era que, se o número de intervenientes for elevado, é de crer que os coelhos atinjam o tamanho de elefantes.
- Uma vez apanhou-me a noite em Gralhós, aqui a dois quilómetros e meio de casa, como sabeis. Era janeiro e fazia luar. À Cruz do Lucas, começo a sentir a roupa a fugir-me do corpo e a pele toda arrepiada. «Mau!» - disse para comigo. Trazia a espingarda à bandoleira. Puxei-a para o braço e pu-la em posição de tiro. Nisto, um lobo a menar-me por cima da parede do tapado do Rua. Não tenho mais nada, largo a correr e a disparar. Estoirei quantos cartuchos trazia no cinturão. À volta de uns trinta...
- E o lobo?
- Nunca mais o vi.
- Algum cão.
- Tu é que tens bom cão.
- Pior me aconteceu a mim. Vinha a subir o Fontão de bicicleta, já de luzes acesas. À Poça do Monteiro, dois lafraus a seguirem-me, um de cada lado da estrada. Carai! Volto para trás, dali a Sapiãos nem sei se fui pelo chão se pelo ar. Só parei na estrebaria do Zé do Rio. Estava lá o Labrego com a família. Deixou-me dormir com eles na carroça, com um molho de palha por colchão e um liteiro por coberta. Que camada de piolhos apanhei, Pai da Vida.
- Não te vás sem resposta. Um dia andava com a rês na Veiga, junto do ribeiro. Eu estava de pé, recostado ao pau, a olhar para as ovelhas. Não rugia uma palha. De repente, um estupor dá um salto, fila um carneiro pelo cachaço e aí vai ele. Ainda abri a boca para lhe gritar, mas fiquei sem fala.
- Então não o viste aproximar-se?
- O finório veio a rastejar pelo ribeiro, encoberto pela vegetação, mediu o salto, zás! São muito ladinos...
- O que nos vale é eles não terem faro. Se não...
- Que não têm faro? Têm e bom. Muito mais apurado que o dos cães.
- Sempre ouvi dizer que não tinham.
- Tolices.
- Tenham que não tenham, eu cá nunca lhes tive medo.
- Se calhar nunca viste nenhum?
- Então não vi? Fartei-me de ver lobos. Mas nunca lhes tive medo. Eu que levasse a espingarda e deixasse-los comigo. Já das almas do outro mundo não poderei dizer o mesmo. A essas guardava-lhes o meu respeitinho!”

“ Prolegómenos II” - Bento da Cruz
   Âncora Editora
   1ª edição
   pág. 151/152

quarta-feira, 18 de março de 2015

O lobo - III

Porque ler muito faz mal aos olhos e causa distúrbios mentais, sugiro que apuremos o ouvido neste trecho musical do 2ª álbum dos Galandum Galundaina, "Modas i anzonas".

Quem não conhece, não dará por perdido o seu tempo a procurar no You Tube outras músicas - não adianto mais para não afectar a surpresa. Se tiveram tempo e paciência para ler tudo o que venho escrevendo neste repositório de coisas soltas, acho-me credor de mais um pouco da Vossa indulgência e recomendo a audição, não só deste trecho; não só deste disco; mas de toda a obra (ok!, armei-me um pouco em erudito - são só três discos!)





terça-feira, 17 de março de 2015

O lobo - II

Portugal tem duas linguas oficiais: o português e o mirandês. São 2 monumentos sobre os quais se ergue a nossa identidade. Deliciem-se com a música do falar de Miranda que nos soa tão distante mas, simultaneamente, nos convoca reminiscências de que não cuidamos saber e que nos parecem intímas, como se vindas do fundo da memória até nós.
"Buns tiempos aqueilhes, poucas canseiras!
Meia fogaça de pan, por die, más que bundaba para andar alegre i inda tirar fuorças para, de nuite a la ida i benida, cantar puls caminos. Assi bencie l miedo que cunfessaba, agabando-se, nunca lo haber bido.
- Miedo de quei? De las buostas paradas? De la queruja ou bornaciego? De l semitério, de ls muortos? You? Nien de ls bibos!
Solo tengo miedo que me falte la fogaça i uns tragos de augardiente a la pumanhana, pal zaiuno, i a las bezes l friu. Nó, que eilhas ruoben.
Ye berdade que naqueilhas paraiges rundában lhobos i estes storbeiros, medruncos de die, que até se scápan de ls bérrios dun nino – cobardos -, naqueilhas horas de la nuite, pulas ancruzelhadas, podien traer ua surpresa mui pouco agradable.
Storbeiros, digo, i adbertidos: si, porque la nuite fui feita por Dius, para esso, pa l lhobo s'adbertir de qualquiera maneira i, cumo criatura que nun ten lhugar al sol, gozar al menos, a la lhuç de las streilhas, la sue lhiberdade.
Parécen dues streilhas ls sous uolhos: i gela tanto! Aquel mirar. Agarra de surpresa l caminante i acumpanha-lo a ua cierta lunjura, uas bezes al lhado cumo un perro, outras bezes atrás (óstias!) ou delantre. A las bezes dá-le la tunteira de parar, sintar-se al meio l camino arreganhando la bocarra, cumo uma foia, amostrando la dentuça afilada de adonde sálen ls caneiros cumo facas de aço, relhamposas.
Coraige! Nesses sfregantes nun le buolbades cuostas.
Aguantai-bos. Benci l miedo cun outro maior bien einebitable que serie l de scapar. Nien l aticeis. Amostrai solo que teneis sangre friu i pacéncia, mirai-lo de frente i boziai-le, até que sue real senhorie, juiç de la nuite, se resuolba a zampedir la passaige, l que fai cun aires de caçuada i debagaroso... "
"La mona l maio" - José Francisco João Fernandes
Âncora Editora
1ª edição
pág. 13 a 15

segunda-feira, 16 de março de 2015

O lobo - I

Se a tanto me ajudar o engenho e arte irei postando, não as de bacalhau, mas excertos  de prosa catados da literatura e tendo o lobo como protagonista.
Inicío com mestre Aquilino Ribeiro e "Quando os lobos uivam", romance que merece releitura à custa de certos esquecimentos que os novos tempos da globalização impõem.

A certa altura os cães do Manuel da Obriga romperam em grande babaréu à volta dum ronho do matagal. Acorreu o homem, e despachadamente entrou por ele dentro, apartando as frondes.E, vai senão quando, deparou-se-lhe um grande lobo que lhe dardejava, agachado por detrás dos sargaços, olhos sonsos a fuzilar na cabeçorra meio dobrada para o chão. Sem perda de tempo, meteu a espingarda à cara e puxou o gatilho. Chapéu, o tiro moita, e, como o lobo lhe desse a impressaõ de retesar-se nos jarretes para investir, ficou assustado e sem pinga de sangue. Se a fera dava o pulo?! Desandou, fingindo não o ver, como as vezes que avistava uma lebre na cama e «não trazia como lhe fazer bem».
Quando se apanhou na limpaça, despediu a chamar gente que andava ali perto numa estorgada. Vieram todos, armados de gadanhas e sacholas, com seus cachorros. Entretanto, os rafeiros não tinham desamarrado do barbeito onde se escondia o lobo: béu! béu!
Quando a fera viu a malta toda romper pelo urgueiral dentro, soergueu-se com certa moleza e com moleza se pôs a marchar em direcção a um tufo mais espesso, provávelmente no intuito de emboscar-se. Mas os rafeiros cortaram-lhe a retirada. Os homens então, não tendo a coragem de o acometer de frente, armaram-se de pedras e começaram a lapidá-lo. As mulheres traziam-lhas nas abadas. A primeira pedrada foi do Obriga...Perdeu-se. A outra foi do Pampolinha, e foi acertar na barriga do lobo. O bicho deu um ronco, mordeu a pedra, e estancou a arruaçar. Uma terceira bateu-lhe na espádua. Depois, como se lhes afigurasse improcedente o tiroteio assim mandado e o lobo num dado momento pudesse recobrar-se e fugir, procuraram atingí-lo nas pernas e quebrar-lhas.
Quando os lobos uivam” - Aquilino Ribeiro
Livraria Bertrand
2ª edição
pág. 249 a 251

quarta-feira, 11 de março de 2015

Sugestão grátis e em cima da hora

A quem aprouver a sugestão, foi lançado há 2 dias um livrinho (70 págs.) deveras interessante sobre a temática do Lobo ibérico, com chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e que pode ser encontrado, também, nas lojas do Pingo Doce. Por entre a laranja e o rabanete, o Super-pop limão e o creme para barbear, não são os € 3,15 de custo que nos irão garantir um lugar no inferno dos gastadores nestes baralhados tempos pós tróika.
 
 
 
"Malditos, histórias de homens e de lobos", de Ricardo J. Rodrigues, o mesmo autor que há uns anos nos havia trazido o relato emocionado de um investigador da espécie em "Bitcho bravo",  são 4 estórias  - ou, uma reportagem alargada, se preferirem - entrecruzadas na relação difícíl da coexistência entre o Homem e a besta, milenar disputa de medos e desconfianças que, nestes dias que são os nossos, fazem tombar sobre a humana consciência o opróbio da responsabilidade pela morte de um mundo que se vai para sempre.