Ao contrário dos excertos anteriores recolhidos de obras de ficção, este relata o teor das conversas entre velhos conhecidos que casualmente se encontram numa festividade, dados à estampa por um deles num repositório vadio de lembranças.
O que a realidade tem de ficção, e a ficção de real, é matéria para filósofos; contudo, quem não teve esta vivência escuta estas histórias com o mesmo sentimento com que ouve as facécias dos caçadores: cada um deles matou um coelho maior que o do outro. E tão maior era que, se o número de intervenientes for elevado, é de crer que os coelhos atinjam o tamanho de elefantes.
“- Uma vez
apanhou-me a noite em Gralhós, aqui a dois quilómetros e meio de
casa, como sabeis. Era janeiro e fazia luar. À Cruz do Lucas, começo
a sentir a roupa a fugir-me do corpo e a pele toda arrepiada. «Mau!»
- disse para comigo. Trazia a espingarda à bandoleira. Puxei-a para
o braço e pu-la em posição de tiro. Nisto, um lobo a menar-me por
cima da parede do tapado do Rua. Não tenho mais nada, largo a correr
e a disparar. Estoirei quantos cartuchos trazia no cinturão. À
volta de uns trinta...
- E o lobo?
- Nunca mais o vi.
- Algum cão.
- Tu é que tens bom
cão.
- Pior me aconteceu a
mim. Vinha a subir o Fontão de bicicleta, já de luzes acesas. À
Poça do Monteiro, dois lafraus a seguirem-me, um de cada lado da
estrada. Carai! Volto para trás, dali a Sapiãos nem sei se fui
pelo chão se pelo ar. Só parei na estrebaria do Zé do Rio. Estava
lá o Labrego com a família. Deixou-me dormir com eles na carroça,
com um molho de palha por colchão e um liteiro por coberta. Que
camada de piolhos apanhei, Pai da Vida.
- Não te vás sem
resposta. Um dia andava com a rês na Veiga, junto do ribeiro. Eu
estava de pé, recostado ao pau, a olhar para as ovelhas. Não rugia
uma palha. De repente, um estupor dá um salto, fila um carneiro
pelo cachaço e aí vai ele. Ainda abri a boca para lhe gritar, mas
fiquei sem fala.
- Então não o viste
aproximar-se?
- O finório veio a
rastejar pelo ribeiro, encoberto pela vegetação, mediu o salto,
zás! São muito ladinos...
- O que nos vale é
eles não terem faro. Se não...
- Que não têm faro?
Têm e bom. Muito mais apurado que o dos cães.
- Sempre ouvi dizer
que não tinham.
- Tolices.
- Tenham que não
tenham, eu cá nunca lhes tive medo.
- Se calhar nunca
viste nenhum?
- Então não vi?
Fartei-me de ver lobos. Mas nunca lhes tive medo. Eu que levasse a
espingarda e deixasse-los comigo. Já das almas do outro mundo não
poderei dizer o mesmo. A essas guardava-lhes o meu respeitinho!”
“ Prolegómenos II” - Bento da Cruz
Âncora Editora
1ª edição
pág. 151/152
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