quinta-feira, 19 de março de 2015

O lobo - IV

Ao contrário dos excertos anteriores recolhidos de obras de ficção, este relata o teor das conversas entre velhos conhecidos que casualmente se encontram numa festividade, dados à estampa por um deles num repositório vadio de lembranças.
O que a realidade tem de ficção, e a ficção de real, é matéria para filósofos; contudo, quem não teve esta vivência escuta estas histórias com o mesmo sentimento com que ouve as facécias dos caçadores: cada um deles matou um coelho maior que o do outro. E tão maior era que, se o número de intervenientes for elevado, é de crer que os coelhos atinjam o tamanho de elefantes.
- Uma vez apanhou-me a noite em Gralhós, aqui a dois quilómetros e meio de casa, como sabeis. Era janeiro e fazia luar. À Cruz do Lucas, começo a sentir a roupa a fugir-me do corpo e a pele toda arrepiada. «Mau!» - disse para comigo. Trazia a espingarda à bandoleira. Puxei-a para o braço e pu-la em posição de tiro. Nisto, um lobo a menar-me por cima da parede do tapado do Rua. Não tenho mais nada, largo a correr e a disparar. Estoirei quantos cartuchos trazia no cinturão. À volta de uns trinta...
- E o lobo?
- Nunca mais o vi.
- Algum cão.
- Tu é que tens bom cão.
- Pior me aconteceu a mim. Vinha a subir o Fontão de bicicleta, já de luzes acesas. À Poça do Monteiro, dois lafraus a seguirem-me, um de cada lado da estrada. Carai! Volto para trás, dali a Sapiãos nem sei se fui pelo chão se pelo ar. Só parei na estrebaria do Zé do Rio. Estava lá o Labrego com a família. Deixou-me dormir com eles na carroça, com um molho de palha por colchão e um liteiro por coberta. Que camada de piolhos apanhei, Pai da Vida.
- Não te vás sem resposta. Um dia andava com a rês na Veiga, junto do ribeiro. Eu estava de pé, recostado ao pau, a olhar para as ovelhas. Não rugia uma palha. De repente, um estupor dá um salto, fila um carneiro pelo cachaço e aí vai ele. Ainda abri a boca para lhe gritar, mas fiquei sem fala.
- Então não o viste aproximar-se?
- O finório veio a rastejar pelo ribeiro, encoberto pela vegetação, mediu o salto, zás! São muito ladinos...
- O que nos vale é eles não terem faro. Se não...
- Que não têm faro? Têm e bom. Muito mais apurado que o dos cães.
- Sempre ouvi dizer que não tinham.
- Tolices.
- Tenham que não tenham, eu cá nunca lhes tive medo.
- Se calhar nunca viste nenhum?
- Então não vi? Fartei-me de ver lobos. Mas nunca lhes tive medo. Eu que levasse a espingarda e deixasse-los comigo. Já das almas do outro mundo não poderei dizer o mesmo. A essas guardava-lhes o meu respeitinho!”

“ Prolegómenos II” - Bento da Cruz
   Âncora Editora
   1ª edição
   pág. 151/152

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