Para fechar a temática lupina e fazer a transição
para a saída à Serra de Arga no dia seguinte, pretendi publicar
este excerto na passada 6ª feira mas, imponderáveis e
condicionalismos surgidos das profundas da paciência e irritação
do mais comum dos mortais, impediram-me de o fazer.
Se houvesse sido possível, elevaria o estatuto
deste blogue aos píncaros da notoriedade, pois que a precisão de
agendamento das matérias mais parecia obedecer a um esquema
ultra-sofisticado e pós-profissional digno da mais reputada das
publicações - como é mais ao menos ao calhas, até me saí bem!
A relação com o meio envolvente e a diversidade de
interpretações possível de coligir sobre um mesmo assunto, traduz
a complexidade da vivência e interacção dos seres viventes, ora
com o seu semelhante, ora com o seu dissemelhante, desde o início
dos tempos.
A construção de um edifício de pensamento
estruturado em mitos, sugestões religiosas e outras particularidades
que hoje se nos aparentam inocentes, frágeis, até incoerentes, é a
base do Homem que foi à lua, que fala para o outro lado do mundo
munido de 200 gramas de plástico made in china e dobra vidro sem o
partir.
Contudo, apesar deste racionalismo cibernético de
hoje precursor da robotização do humano, quem de nós não faz
figas no penalti decisivo a favor da nossa equipa?; quem prescinde
bater três vezes na madeira quando, em conversação, se alude a uma
hipotética tragédia ou drama humano?; quem se esquece de colocar
“Maias” à entrada de casa e janelas a fim de vedar a passagem do
mafarrico durante a noite de 30 de Abril para 1 de Maio?
Afinal, tem muito que se lhe diga...
“Para os camponeses,
as serras são um espaço misterioso e hostil, enquanto a planície é
transparente. Na montanha refugiam-se os «ladrões e desertores»;
as atenções que lhe dedicam são marcadas tanto pelo receio como
pela admiração, o pavor e o encanto, a repulsa a a atracção,
atitudes contraditórias que estão na base de toda a ideia de
sagrado. A montanha figura entre as imagens que exprimem a união
entre a terra e o céu – ela toca o céu e por isso os santuários
situam-se sempre nos cumes.
Os camponeses do
Alto-Minho imaginam a serra d'Arga, por exemplo, como um monstro
devorador: ao referirem-se à serra os habitantes nunca lhe
pronunciamo nome, como se fosse tabu. Dizem «a serra...a nossa»,
fazendo uma paragem na voz, uma pausa ritual que exprime o respeito
ou o temor, porque a simples pronúncia do nome da força titânica
poderia despertar o monstro adormecido. Nas crenças locais, todas as
serras estão ligadas ao oceano por «braços de mar», rios
subterrâneos, sendo a montanha e o oceano duas forças devoradoras
cúmplices. Algumas delas são «inteiramente ocas», como ventres
imensos e tenebrosos.
Para conjurar o medo
da montanha, os camponeses recorrem a várias técnicas religiosas,
entre as quais figura a «caça aos lobos», animais que são
numerosos no Norte do país, mas a quem se atribui maior ferocidade
do que têm realmente. Para os camponeses, o lobo é a representação
do demónio das florestas; para os psicanalistas, é o simbolo do
pai. A «caça» ao lobo é uma cerimónia religiosa e exorcizante
mais do que uma batida propriamente dita: é barulho e agitação
festiva. No Soajo, aldeia da serra do mesmo nome, a «grande caçada»
realiza-se em 24 de Agosto, dia de S. Bartolomeu, durante o qual o
«Diabo anda à solta», libertado pelo santo que o guarda todo o
ano. Na noite que antecede aquela data os habitantes são mantidos em
vigília por constantes rufares de tambores, toques de sinos,
girândolas de foguetes, baile na praça pública e ofícios na
igreja. A «caçada» não se estende ao conjunto da serra mas apenas
a uma parte, numa área cercada por um muro em forma de funil que
conduz a um precipício onde cairão os lobos. Aliás, ninguém
espera encontrar lobos já que, após uma noite de barulho, os
animais não estão à espera do primeiro tiro para se porem em fuga,
e nunca se chega a saber se algum foi morto porque são eles próprios
que se lançam no abismo, no fim do funil. No entanto, pode supor-se,
depois que todos os lobos morreram, que se tomou posse da montanha.”
“A religião popular
portuguesa” - Moisés Espirito Santo
Assírio & Alvim
1ª edição
pág. 30
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