domingo, 28 de junho de 2015

São João da Fraga - prólogo

O rumor insinuava-se há várias semanas, preciso mas encoberto, quase disfarçado de informação burocrática e oficial: gente de fora, de longe, para além de onde a vista alcança, aportaria a nossos domínios partilhando uma calcorreada pelas serranias costumeiras.
Outros usos e costumes, dialectos e manias - sandice de quem escreve? Lá diz o povo: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso! (o meu primo, serralheiro, assegura errata ao ditado: “cada porca com seu parafuso” - onde está a verdade?).
E o que o povo diz, é letra de lei.
Quase não dormi, comi mal e tive febre neste entretanto; dei baixa ao emprego e consultei o cura - “que não era motivo para tanto”, ”filhos do mesmo pai” e outras sentenças que não descortinei o alcance. É homem erudito, sabe latim. Não lhe disse que eram mulheres, os forasteiros.
S. João da Fraga seria o destino!, decidiu o conselho de sábios, temente a Deus, prodigalizando interesse na protecção do santo em prejuízo das belezuras do percurso – nunca se sabe quem lá vem e é bom ter uma capela à vista com o santo lá dentro, ainda que minima, mas à vista, branquinha, destacada dos penedios envolventes. “Não vá o diabo torcê-las!” - ouvi certa vez de um, torcido por 1 quartilho de branco da Lixa.
Adiante, que para a frente vem carroça: consultei mapas, enciclopédias, tratados e destratados; procurei resposta nas borras do café, no rasto das estrelas e no ralo da banheira.
Nada! O universo, aliado à força das trevas, conluiava-se contra mim.
Darth Vader, meu sacana, sei que és tu! 
I'll be back.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

24 de Junho

"Disse, a medo, por te ver,
Com a fogueira a brincar:
-"Com o fogo não se brinca!-
E eu morto por me queimar..."
Giesta Brava (Porto) 
ano 1942

"Menina vestida à moda,
Vamos p'rá roda bailar
Já tenho a cabeça à roda
...e a  roda sem começar!!!"
Ile Trado (Coimbra) 
ano 1952

"Tantas fogueiras fizeste,
Tantas fogueiras saltaste, 
Que no final nem soubeste
Em qual delas te queimaste."
Zé da Foz 
ano 1962

"Deste-me um beijo, Manel,
Na noite de S. João.
Deus queira que tanto mel
Não traga nenhum ferrão."
Lena 1963 

in Quadras de S. João  1928-1978
Jornal de Notícias


sábado, 13 de junho de 2015

13 de Junho

Se se perde qualquer coisa de que muito se gosta, lê-se o Responso a Santo António:

"Santo António se vestiu,
  Santo António se calçou
  na sua cacheirinha (cajado) pegou,
  Nosso Senhor encontrou
  - Tu, António, onde vás (vais)?
  - Eu, Senhor, convosco vou.
  - Tu, António, não virás
  por esse mundo ficarás, todas as coisas perdidas
  a todas acharás.
  Pai-nosso,
 Avé-maria."

in Orações e benzeduras da freguesia da Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez (recolha)
Ana Eleonora Borges
ed. Apenas, 1ª ed. 2005
pág. 15

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Sugestão cinéfila



“Em Janeiro de 1969 António Campos desloca-se a Vilarinho das Furnas para filmar os últimos dias desta aldeia comunitária.”


Curioso como sinto o mesmo, hoje: a urgência de captar sobre a inclemência do tempo.

Aqui, http://www.jornalmapa.pt/2013/11/13/morreu-vilarinho-das-furnas-sob-o-manto-de-agua-que-lhe-deu-a-vida/ , tantas coisas que não vemos, já erodidas pelos anos, mas que se pressentem na rudeza com que se apresenta o meio que nos envolve; quase se adivinha, num jogo de palpite e efabulação, a vivência da aldeia igual, por semelhança, a tantas outras vivências espalhadas pelo país.

O filme tem pouco mais de 1 hora, mas é um documento magnífico.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Ofício nº 47 de 29 de Março de 1890

(…) a ocupação da Serra [do Gerês], por soldados, idos de Guimarães, a mando do governo, contra as populações revoltadas, não se fez esperar. Estava instalado o confronto: de um lado as populações locais e a sua Câmara, do outro o próprio Governo central, o Administrador do Concelho, seu representante legal, e os Serviços Florestais. E a luta deve ter sido renhida, a avaliar pela documentação da época, com os serranos a arrancar as plantações,
a impedir os jornaleiros de trabalhar e a incendiarem as florestas e os montes usurpados. O seguinte documento, enviado pelo Administrador do Concelho ao Governador Civil, assinala um dos momentos de tréguas nesta contenda:
 
Ofício nº 47 de 29 de Março de 1890:
Tenho a honra de participar a V. Exª que o comandante da força estacionada no logar de S. João do Campo, communicou julgar hoje alli desnecessária a permanência da mesma, por vêr que o povo está socegado, disposto a não se oppor aos trabalhos florestaes, e, muito menos, a sublevar-se de novo; tendo-o feito irreflectivelmente. O commandante da força conscio do seu dever e sempre obediente no cumprimento de suas obrigações tem só em vista que eu, em seu nome, mui respeitosamente represente a V. Exª que, caso V. Exª resolva mandar estacionar a força por mais tempo nas proximidades do Gerez, se digne determinar que a mesma mude a residência para o logar das Caldas do Gerez, onde estará melhor aquartellada , do que no local do Campo. Porque o destacamento teve de sair com a maior rapidez , e talvez na supposição de pouca demora, veio, apenas , prevenido com o mais indispensavel, de modo que agora está sem calçado , e sem roupa branca; e, n’aquelle logar, impossibilitado de se prover facilmente. Diz mais que, sendo a força mal alimentada por meio de boleta, resolveu uzar do rancho, no que está sendo demasiado lesada, por quem lhe fornece os mantimentos; e na impossibilidade de remediar-se receando a remoção de um dia para o outro, (como succedeu as forças) digo para o outro.
V. Exª determinará como julgar conveniente. Deus guarde a V. Exª.

(Do Copiador especial da correspondência expedida pela Administração do Concelho, para o Governador Civil, de 1890, no Arquivo Municipal da Câmara de Terras de Bouro. (…) A cópia deste documento foi-me gentilmente fornecida pelo Dr. José António de Araújo). Depois do confronto militar, as populações serranas, em colaboração com a Câmara, passaram a lançar mão dos instrumentos legais possíveis: os aforamentos dos montes, de que o caso de Vilarinho constitui um exemplo.
in Vilarinho da Furna – Memórias do passado e do futuro
Centro de estudos da população, ambiente e desenvolvimento
Universiade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.