terça-feira, 6 de junho de 2017

Sugestão imperdível de leitura.

Wook.pt - Trás-Os-Montes, o Nordeste
"A sujidade era medieval. De Setembro à Primavera mantinha-se nas aldeias o hábito secular que durou até fins dos anos 50, de cobrir as ruas com palha, que depois, molhada da chuva e das penicadas de mijo e bosta que se atiravam das janelas - esgotos só no séc. XXI - calcada pelos passantes e os animais, fumegava e fermentava até que, podre bastante, fosse recolhida para ser levada para as hortas, os amendoais e olivais, seu único e muito biológico adubo."pág. 15

"Recordo também a rapariga holandesa, loira, linda, e simpática, que num dos últimos arraiais, mal contendo o riso, me veio contar o que um homem de uns cinquenta e tantos, arranhando um pouco o alemão tinha sugerido, ao perguntar-lhe se era casada: 
- Não sou.
- E tem filhos?
- Não.
- Namorado?
- Também não.
- A nossa aldeia é boa, e das maiores. Você acha que seria capaz de vir para cá viver?
- Para aqui? Não!
Do vinho, ou desapontado, o homem encarou-a estupefacto:
- Olhe que ainda se há-de arrepender! Eu tenho dois tractores!"pág. 26


São 76 páginas de prosa magnífica por apenas € 3,15 - 4 cêntimos por página! 

Mesmo quem não sabe ler reconhece que é um achado. 


terça-feira, 16 de maio de 2017

Por terras de lá.

"Para o concelho de Coura, mandaram recado a Domingos da Cunha, sempre testo e pronto para a causa real, e, como não, se não perdia de vista que tinha cinco filhos, quatro deles a pedir comezia!
Além dos muitos servos e arrendatários que a casa do Amparo tinha em Romarigães e terras vizinhas, desfrutava, pelas suas relações de parentesco, de grande influência na fidalguia do Alto Minho. Por sua vez, passou palavra aos Melos, de S. Pedro da Castanheira; aos Coutinhos, de Pico de Regalados; aos Araújos, de Couto de Sabariz; aos Castros, de S. Martinho de Vascões e Insalde; aos Barbosas de Lima, de S. Miguel de Porreiras, aos Antas, de Rubiães e de Santa Maria de Agualonga; aos Sotomaiores e Gamas, de Infesta; aos Liras, de S. Mamede de Ferreira, e aos Pereiras da Silva, de Santa Maria da Cunha. Por montes e vales, onde havia almuinha ou casal, os porteiros bateram nos tambores o rufo de guerra. Romarigães foi designada para local de concentração. Dia a dia chegavam recrutas de toda as partes, desde Fontoura, a escorregar para o rio Minho, a Corno de Bico, a olhar os Arcos. Gondalim mandou uma bela maltesia de tombadores de lobo, e Pardelhas e Covas mocetões feitos nas cavas e estorgadas. "

in "A casa grande de Romarigães" - Aquilino Ribeiro
Livraria Bertrand - 5ª edição.
pág. 52

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Reabertura dos passadiços do Paiva

Para gáudio de quem verdadeiramente gosta, reabriram os passadiços do Paiva na sua plenitude após o nefasto incêndio do Verão passado. Esqueçamos as enchentes, as modas ou as passerelas de exibição; para as evitar, basta sair cedo da cama e ser o primeiro a entrar naquele corredor maravilhoso e ir de encontro à magia da natureza. ver aqui

segunda-feira, 6 de março de 2017

Admirável mundo novo...ou nem tanto assim!


O Mundo avança a tal velocidade numa sucessão imparável de avanços tecnológicos que nem damos conta do que fica; apenas a vertigem dos acontecimentos é notada, o atropelo constante e sucessivo das diversas novidades num festival de canibalismo tecnológico.Tal arrazoado de ideias vem a propósito de um artigo que encontrei numa revista antiga - melhor: não é tão antiga assim, é de Novembro de 1999. Ainda não é de maior, como dizem os irmão zucas. No dito cujo, o articulista dá-nos notícia do novo mundo que nos espera; da soberba do novo Homem - algo como homo/deus/computus - perante o domínio das vias cibernéticas, enfim: a via digitalis em todo o seu esplendor.Apesar de ameaçador das liberdades, se lido ao espírito da época, é um textinho muito inocente quando lido hoje - e não correram assim tantos anos. Podemos, inclusive, considerar o articulista um tanto naif nas considerações feitas sabendo nós o que (hoje) sabemos.

“Num mundo em que tudo tem um preço e coisa alguma está imune à curiosidade alheia, surge enfim o serviço ideal. A partir do primeiro dia do ano 2000 vai ser possível ao comum dos mortais comprar imagens de satélite de qualquer ponto – pontinho, mesmo – do globo. Até agora, esse privilégio estava reservado às organizações militares, detentoras de potentes mecanismos de vigilância a partir do espaço. Mas com a entrada no mercado de uma empresa norte-americana chamada Space Imaging, o satélite Ikonos vai estar disponível ao público em geral. Assim, diariamente, o Ikonos dará várias vezes a volta à terra, levando noventa minutos a completar cada uma dessas órbitas, durante os quais poderá fotografar qualquer pedaço de solo até à dimensão mínima de um metro quadrado. O custo dessas imagens de alta resolução é do equivalente a quase cem contos, mas as fotografias menos pormenorizadas podem ficar por uns parcos 5400$00. Isto significa, segundo John Copple, o responsável pelo projecto, que o serviço Ikonos acaba por sair mais barato que as tradicionais fotografias aéreas, feitas de helicóptero ou avião, e têm uma qualidade de resolução muito superior. Alem disso, colocado a uma altitude de 680 quilómetros, o aparelho é obviamente indetectável à vista desarmada. As experiências feitas pela empresa incidiram em pormenores da cidade. (...) Por enquanto, resta apenas especular sobre quais serão os clientes habituais da Space Imaging. As hipóteses mas sérias apontam para latifundiários, companhias de extracção de petróleo e empresas de telecomunicações. Mas os voyeurs são também potenciais fregueses. Através dos serviços da nova empresa, pode-se, por exemplo, ficar a conhecer os hábitos diários do vizinho do lado, seguir os passos de uma marido infiel, controlar os filhos ou invadir a privacidade de uma qualquer estrela.(...)”


in Grande Reportagem, 2ª série, novembro de 1999.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Falares da nossa terra - III

Para aqueles que fazem do "carago!" uma esqusitice linguística quase a roçar a paródia, o que andam a perder  em fascínio habituados que estão ao português polido da bem parecença modernaça.

Olha: diz-lhe que sim e mais que também!

Cabeçada de cavalo – algo que não saiu a contento;
Cabras – inflamação das pernas provocada pelo calor da lareira. Para as evitar, algumas mulheres faziam umas capas de papel pardo, colocando-as entre as meias;
Cabrita – névoa que surge nos olhos;
Cachorro-rateiro – pequenito;
Caçoila – tijela com asas;
Caçurra – porrada
Caguei não tenho, vou ali já venho – virar costas a alguém;
Cala quem deu, fala quem recebeu – um procedimento correcto, pois quem oferta não deve propagandear ou gabar-se disso;
Cama de urtigas – faziam-se para arredar as febres das crianças, através da elevada transpiração causada pela comichão das ervas estendidas entre as mantas;
Cambais – ruas da aldeia. Diz-se: corer os cambais;
Cambiço – indivíduo alto e magricelas;
Cantar as três Marias – estar eufórico;
Caráspita – ora bolas!;
Carne atormentada – mal cozida;
Carreira-de-Santiago – Via Láctea;
Catancho – interjeição de surpresa: ora bolas!; caramba.
Catramoiço – pessoa volumosa, desengraçada; queda em série, em pilha;
Catrapó – que caminha com lentidão;
Cavanir – fugir; sair sem pedir licença;
Chá de quelha – urina;
Chavasca – conversa sem tino;
Choveu tanta água que até os cães a podiam beber de pé – chuva abundante,  alagadiça;
Coalhado de gente – à pinha;
Coche-coche – interjeição que significa: porra; não vou nisso; o mesmo que bô-bô;
Coisa assim… - expressão de admiranço;
Comei farelo – ide à bardamerda;
Conversa – frio que penetra através de janelas ou portas;
Correr o cão – vadiar, deambular;
Criado atrás dos tojos – de má catadura, de má criacção e formação cívica e ética;
Cu de sono – dolente, dorminhoco;

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Falares da nossa terra - II

Prosseguindo a divulgação de algumas expressões coligidas da obra em destaque, aí vão mais algumas pérolas:

Babaroca - palerma;

Bafarela - brisa;

Baiona - saia tosca, mal feita;

Balqueirada - grande quantidade de qualquer coisa;

Balulas - batatas;

Barba feita e cu rapado - tudo feito nas devidas condições;

Barleiro - mentiroso;

Barlisses - mentiras;

Barrondas - porcas com cio;

Bem pode vir junça e três a atar - precisado de dinheiro;

Benairo - peça de vestuário despida de graça;

Benzenicar - fingir que se trabalha;

Bestunto - estúpido;

Bifes de testa de carneiro - quando as crianças pediam bifes;

Brequefeste - pancadaria, crispação;

Buçalo ou Boçalho - filho de cruzamento de burra e cavalo ou de égua e burro;

Buchana - gordo;

Buchelo - enchido à base de ossos e courato de porco;

Bujarca - pessoa sem valor, desasseada, deselegante. Vocábulo insultuoso para a mulher;

Burro castelhano - velhaco, matreiro, manipulador;

Butadiço - aquele que arrisca;

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Coisas que nos chegam a casa.


Acabadinho de chegar: roteiro da via algarviana, empacotado à maneira e acompanhado por 19 mapas de grande formato, desdobráveis, a cores.

A Via Algarviana é uma Grande Rota Pedestre, com cerca de 300 km no seu eixo principal, a qual atravessa 11 municípios no Algarve, com início em Alcoutim e término no Cabo de S. Vicente.

Faz cócegas na sola dos pés!! Um destes dias...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Falares da nossa terra

Recolha de vocábulos e expressões usados em Almendra, freguesia do concelho de Vila Nova de Foz Côa, e coligidos da obra "Almendra - alcunhas e falares", de Alfredo Mendes, edição da C. M de Vila Nova de Foz Côa.
Por ser matéria de infindável interesse, oportunamente regressarei com mais expressões.

A água vai de mar a monte - muita porção, enxurrada;

À custa de barba longa - do esforço alheio;

Abrunhos-cagoiços - Ameixas pequenas que provocam diarreia;

Acredito como visse - não duvido;

Acusa-Cristos - pessoa bisbilhoteira, delatora;

Ainda o não disseram três doutores - não se dar por convencido;

Albernó - casaco desajustado;

Amarmalhar ou Amarvalhar - trabalhar depressa;

Anda a dizer adeus ao mundo - está muito doente, quase moribundo;

Andar com as mão à frente dos pés - ser perdulário;

Ande eu quente, ria-se a gente - uma vez satisfeito, que haja gozo geral;

Aquele é como os de Vale Meão - de noite dizem, de manhã não vão - gente que não cumpre o prometido;

Aqui está o que o nosso menino fez: mijança de um dia, cagança de um mês - alude a alguém desprovido de qualquer habilidade, tanso ou palerma;

Arrampanado - dorido, exausto;

Arremansa a piona - fica tranquilo;

Arrepelinha - está tudo cheio, à pinha;

As primeiras são vassouras e as segundas senhoras - distinção do viúvo quanto ao desempenho da primeira mulher e da segunda mulher. A primeira, muito atarefada nas lides da casa e a segunda, livre de tais serviços, quer-se dizer, melhor tratada, sem bulir uma palha.

Atafais - roupa pouco cuidada;

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017



A publicação destas revistas difere no tempo quase 20 anos. O assunto abordado tem como sujeito principal a cabra-montês em Portugal: o seu extermínio em finais do séc. XIX e o regresso às serranias do Gerês por inícios do milénio. ver aqui
Após a captura no Gerês da última cabra viva, em 20 de Setembro de 1890, foi esta enviada para o Jardim Zoológico de Lisboa vindo a falecer poucos dias após; os últimos avistamentos ocorreram junto da Lomba do Pau no distante ano de 1892.
Depois disto, mais de 1 século medeia o avistamento de novos espécimens por aqueles lugares. E, para que já as avistou ainda que ao longe, a paisagem fica outra: as pedras ganham vida e tudo faz sentido, de novo.
"De acordo com investigadores do início do séc. passado, seriam 4 as sub-espécies diferetes da Cabra-montês presentes na península Ibérica: Cabra pyrenaica pyrenaica (Pirinéus); Cabra pyrenayca hispania (Andaluzia); Cabra pyrenayca victorae (Gredos), e Cabra pyrenaica lusitanica (extinta). Esta ideia negava a convicção de que todas as populações de cabras portuguesas e espanholas pertenceriam à mesma sub-espécie da única espécie de cabra-montês europeia (Cabra aegagrus pyrenaica. A polémica continua actual, quando cada vez mais se contesta a validade e a artificialidade de certos níveis taxonómicos, entre os quais a sub-espécie." (in Fórum Ambiente, nº 40, de Julho de 1997).
Movidos pela vaidade, assente num qualquer desvio de personalidade, pois que não passa de puro exibicionismo e manifestação ridícula de entretenimento, alguns caçadores tudo fazem para que a proibição de caça deste animal seja levantada permitindo o seu abate e consequente exibição do troféu, diz-se que dos mais raros para aquelas "freguesias".
Infelizmente, todos nós sabemos já o desfecho desta história: em menos de 10 anos estará qualquer organismo a alertar o perigo de extinção da cabra-montês.
Por mim, egoisticamente, posso afirmar: á a vi no seu ambiente natural, não precisarei de esperar 100 anos.