Posto os termos em ordenança, fui em passeio higiénico pelas páginas do imprescindível:
Editado em 1918, é mais do que um mero repositório de memórias de viagens e deslocações pelo país. Misto de opinativo e descritivo, tão ao em voga à época, traça um retrato - tanto quanto possível - transversal aos usos e costumes, politicas e politiquices, ao feito e por fazer. é leitura de dupla condição de viagem: pelos territórios físicos e os da alma.
Para aguço do apetite, as entradas das 395 páginas deste guia:
1 - Viajar, recordar
2 - Portugal
3 - Terrinhas e cousas portuguesas
4 - Braga antiga. - A processão dos fogaréus
5 - Trancoso
6 - O coração do Minho
7 - Terra de Miranda
8 - São Miguel de Seide
9 - A caminho de Barroso
10 - Penacova
11 - São Martinho de Bornes
12 - São Mamede de Riba Tua
13 - Braga antiga - O braguês
14 - Leça da Palmeira
15 - A Terra-Negra
16 - Bussaço
17 - Portugal velho. - O morgado de Sabariz
Por ainda há não muito tempo ter passado por lá, transcrevo um apontamento breve sobre esta zona e arredores - pág. 93 a 96, 3ª edição, 6º milhar - 1919:
"Do cimo da vetusta albarrã do castelo de Trancoso, em desmantêlo, nas terras altas da Beira, a vista, galgando chãs acidentadas de outeiros e morros, uns de penedio, outros de pinhais espessos, alguns de restolhadas centeias, desgarra-se cheia da luz de um céu que se vê todo de lado a lado; - desgarra-se pelos longes de um panorama de ondeantes montanhas verdecidas, com chapadas amarelas, a tôda a roda, do norte a levante, de levante a sul, de sul a poente, de poente a norte, a muitas léguas de distância, mais de vinte, algumas, como o monte de Valongo, em cone, para alêm da serra da Lixa, do Marão, da Nogueira sobre o Corgo - longemente, na estrema, lá para as bandas do mar do Porto.
Vê-se na raia norte, ao fundo, esfumada, a serra da Lousa, no concelho longínquo de Carrazeda de Anciães, termo da Vilariça sôbre a foz do Sabor, que logo pega com a serra de Reboredo, em Trás-os-Montes, até Carviçais, para os lados de Miranda-do-Douro. O sol nasce por detrás do monte de Valico, em Espanha, até onde parece dilatar-se a campina sem fim do Escalhão. Ao lado da serra da Marofa, para alêm de Pinhel, branqueia a tôrre da praça de Almeida, que mal se enxerga a vista nua; distinguem-se a custo os pingos claros da casaria esparsa da povoação de Freixadas de Averca; e, por detrás, muito longe, o horizonte fecha-se com a mancha azulina da serra da Gata, na Castela-Velha, até o Germelo.
Para cá, à serra da Guarda, com a sentinela do seu castelo cimeiro, segue-se a da Estrêla de altura formidável, que, avançando pela Beira dentro, atravessa, de invés, o coração de Portugal e desce ao longo de tôda a Estremadura, sempre voltada a sul, até lá baixo - até Sintra, declinando e parando então, súbito, sôbre o mar.
Por entre quebradas de montes, descortina-se, lá muito no fim, o pico do Caramulinho - mancha azul, apagada. Aqui defronte, próximo, a serra alta de Almansor, sarracena e lendária, com um declive rápido, à direita, sôbre a pasta negra da floresta de pinheiros da Quinta de Ferro, espêssa de matas e de medos.
É um panorama circular de serraria num horizonte de léguas."
Tudo isto sem pagar bilhete!

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