Paulo Ferreira:
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"No dia 10 de maio de 2014, os novos mentores do então designado grupo de caminhadas “Bota
Rota” prepararam um trilho no Gerês, que ficaria para sempre na minha memória.
Naquela altura, o grupo estava a perder os seus principais membros, pelas mais variadas razões
pessoais e profissionais.
Lembro-me que havia solicitado ao Jorge Sousa, as “chaves de acesso”
a tudo o que eram plataformas e redes sociais, sendo ele um dos fundadores do grupo e que,
entretanto, estava a mudar-se para Lisboa. Com a felicidade estampada no rosto, aceitou
entregar-me as mesmas.
Era um desafio tremendo, garantir que dali em diante as comunicações nos canais do grupo que
haviam à data, seriam da minha responsabilidade.
A primeira tarefa, seria garantir que todos aqueles que habitualmente caminhavam com o
grupo, continuariam a receber os convites para as caminhadas, através da conta de email
existente.
Á medida que as caminhadas iam sendo realizadas, os membros que participavam eram cada
vez menos, dado que os mentores já lá não estavam. Era natural. Então, a estratégia passava
por adicionar ao grupo de email, novos membros. Rapidamente percebi que no meu local de
trabalho, haviam colegas interessados em participar. Outros amigos se juntaram e uma ou duas
caminhadas depois, sem que nada o fizesse prever, surgiu o maior grupo de que há memória
numa caminhada “Bota Rota”.
O dia começou bem cedo, com uma caminhada que ligava Fafião ao “Porto da Lage”, bem no
coração do Gerês. Aquele Gerês que eu tanto gosto. Selvagem, agreste, natural.
Lembro-me que dadas as características do trilho, que serpenteava a meia encosta os montes
sobranceiros ao vale por onde corre o rio Fafião, o grupo alongava-se e era difícil manter a
coesão do mesmo. A tão popular “bicha” era mais do que evidente. Mais parecia uma cobra com
80 metros de comprimento.
Por volta do meio dia, os elementos do grupo que iam na frente (lembro-me do Joaquim Mota,
o guia oficial), decidiram parar junto a uma linha de água, pois era o local mais fresco, de forma
a que fosse possível recarregar baterias, para as etapas que ainda estavam para vir. Deveríamos
estar a cerca de três ou quatro quilómetros do objetivo “Porto da Lage”.
Seguindo na retaguarda do grupo, eu conseguia ver o que se passava à minha frente e assim
poderia ajudar sempre que fosse necessário. Lembro-me que um casal meu amigo (a Cláudia de
Sousa e o Vitor França), seguiam na parte final e decidiram desistir de caminhar, pois estava a
ser demasiado o esforço físico deles.
Foi precisamente nesse momento que se deu início a um acontecimento que recordo agora com
nostalgia. Na altura fiquei apavorado.
O Pereira da Silva, ia na retaguarda do grupo e passou por mim, enquanto eu falava com o casal
que havia decidido ficar por ali á espera do nosso regresso. Lembro-me que olhei para ele e nada
fazia prever que fosse possível desviar-se do trilho. Os participantes seguiam quase uns atrás
dos outros, separados por alguns metros de distância. Deduzi que ele seguia alguém na sua
frente.
Depois de acertar os pormenores com quem decidiu interromper a caminhada, nomeadamente
garantir que ficariam ali á espera do nosso regresso, voltei ao trilho e dirigi-me até ao local onde
o grupo havia decidido descansar. Qual não foi o meu espanto, quando pergunto pelo Pereira
da Silva e o Joaquim Mota me diz que não tinha chegado. Fiquei apavorado, pois eu tinha-o visto
a caminhar em direção ao grupo.
Rapidamente se percebeu que tínhamos um problema (aliás isso iria ser habitual nas
caminhadas vindouras). Perder o Pereira da Silva era quase inevitável. Era qualquer coisa como
ir a Roma e não ver o Papa.
Lembro-me que alguns colegas foram á sua procura e dali a cinco minutos já estava ao nosso
lado. Quando chegou junto de nós, parecia que tinha saído de um forno a carvão. A roupa e o
rosto estavam riscados de preto. Havia percorrido um “atalho” (justificando-se), que o levou a
atravessar uma zona de mato, onde houvera um incêndio há relativamente pouco tempo e isso
tinha feito com que ficasse assim naquele estado.
O que acontecera, pode acontecer a qualquer um que gosta de caminhar na montanha. Muitas
das vezes somos traídos pelo nosso olhar. Coincidências que acontecem mais vezes do que
imaginamos. E aquela tinha sido uma delas.
Havia um outro grupo a percorrer aquele trilho, que eu já tinha visto durante alguns momentos
no período da manhã e que seguia mais á frente a cerca de um quilometro de distância do nosso.
Pegando nas palavras do Pereira da Silva, ele refere que seguia na parte de trás do nosso grupo
e a dada altura perdeu ligação com quem ia á sua frente. É normal. O que não é normal é ele ter
visto o grupo que seguia na outra encosta da montanha e deduzir que era o nosso. Era impossível
que tivéssemos andado tão rápido. Contudo, ele assim pensou. E tal como pensou, logo decidiu
colocar-se a caminho no encalço daquele grupo. E qual é a distância mais curta entre dois
pontos? – Uma reta!
Pois assim é na geometria, mas não o é para quem caminha na montanha. E o resultado foi que
saiu do trilho (com os olhos postos no horizonte) e enfiou-se no vale por onde corria um
pequeno riacho de águas límpidas, a umas dezenas de metros a jusante do ponto onde todo o
grupo descansava.
Foi aí que decidiu camuflar-se de negro, desbravando monte e afastando os arbustos,
aparecendo junto de nós, qual “Fenix renascida”. Não tive coragem de fazer a fotografia que
ficaria para a posteridade, pois na altura ainda não eramos tão próximos, quanto deduzo que
sejamos hoje.
Esta fotografia foi registada em Porto da Lage, depois de toda esta peripécia e demonstra com
naturalidade o estado de espírito do grupo. Uma mistura de felicidade com cansaço. E a vida
continuou. Memorável."
O Paulo Ferreira lança o desafio ao afamado comedor de marisco, Jorge Santos.
Prazo para entrega: 17 de Maio.