terça-feira, 26 de outubro de 2021

É dos livros.

Muitas vezes tentei a prática diarística nas andanças de bota-poeira, quer dos pequenos percursos, quer das aventuras de vários dias.

Contudo, a minha indisciplina nunca cedeu à vontade de registo destes momentos férteis de recordações e acontecidos - e quantos deles memoráveis!

A nostalgia é uma cena que não me assiste, prefiro a memória construtiva sabendo, de antemão, que todos os fluxos na vida se cruzam e entrecruzam e voltam a cruzar, tecendo uma teia de vivências que se nos acrescentam, se nos somam e se concluem no ínfimo instante do presente que nos separa do momento futuro. Tudo está relacionado com tudo, um emaranhado vívido e vivido.

Não são muitos os exemplos de relato na 1ª pessoa da experiência de caminhada que podemos encontrar editada, em Portugal. O mais abundante são registos para a fotografia, tal como as defesas espalhafatosas de alguns guarda-redes - é o percurso por ambientes exóticos, cujas fotografias mostram a excessiva ocupação por m3 da turistada ocidental; por trilhos inexplorados que nos transformam em verdadeiros Indiana Jones, mas que estão ao alcance de uma reserva nas Agências de Aventura!; ou, roteiros dos segredos mais bem guardados da terrinha, idealizados a partir de uma secretária, de um portátil com acesso à internet e recorrendo ao Google Maps.

Por justiça, é necessário dizer que existem bons exemplos; infelizmente, medram os maus!

Dos bons, recomendo - por experiência própria - os títulos abaixo. 

Entrei a medo na sua leitura; confesso que me moveu mais a curiosidade pela personagem motivadora - Santo António - que pelo relato da façanha. Gato escaldado...


Contudo, o relato descomplexado e sem rodeios; a clareza da escrita e o tom pessoal dos desabafos, aproxima a leitura a tantas memórias nascidas das andanças por aí: o cansaço, a percepção da resposta do corpo ao passar dos anos, o olhar, que se vai afinando - e refinando - para a destruição de património natural, cultural e imaterial; a visão límpida, clara e incisiva do quanto de nós - comunidade - vai ficando soterrada na poeira dos dias por incúria e desmazelo das entidades que haviam de responder por estas perdas.

POR ESTE REINO ACIMA é o relato do percurso de um hipotético caminho seguido por Santo António, saindo de Lisboa a caminho de Coimbra nos inícios do séc. XIII, para ingressar no mosteiro de Santa Cruz, procurando fugir às tentações ociosas de Lisboa. E de como, anos após, motivado pelo exemplo dos 5 franciscanos mártires em Marrocos, se desvincula dos crúzios fazendo-se franciscano.

É interessante tentar estabelecer pontes que nos levem àquele tempo através do relato da passagem pelos - hipotéticos - locais que o Santo terá percorrido, pois não existem fontes suficientes para o estabelecimento do percurso, tal como foi realizado; contudo, foi o A. diligente no sentido de se haver munida de informação bastante para que, deduzindo, atendendo aos vários caprichos naturais, geográficos, sociais e de costumes, pensasse uma rota por aproximação.   


NOS PASSOS DE SANTO ANTÓNIO antecede, no tempo, a escrita de POR ESTE REINO ACIMA, espécie de complemento e, talvez, a 1ª vontade posta no terreno de criação de um percurso Antoniano - espiritual, obviamente - a emular a saída de Lisboa, a caminho de Coimbra, de Fernando António de Bulhões.

O roteiro descrito é mais abrangente, procurando - através do mesmo método lógico-dedutivo, atendendo aos dados disponíveis - viver e experienciar os locais por onde supostamente terá passado o futuro santo.  

De Marrocos, à travessia do Mediterrâneo; das costas da Sicília a Pádua, passando por muitos outros lugares, a narrativa ilustra com meticulosidade bastante os passos de Santo António até ao dia da sua morte.

Balançando o relato entre o passado e o presente, muitas vezes me identifiquei no cardápio de emoções, dúvidas, angústias, medos, hesitações, frustrações e tantas outras particularidades atinentes à condição humana que o A. expressa, assim plasmado numa similitude de experiência.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Fico chateado, é claro que fico chateado! - III

Um inútil é um inútil; e um outro inútil, é um outro inútil. 

O inútil exibe despudoradamente o ridículo da sua condição, não perdendo feição para a exibição oca da aridez que o alimenta.

Qual piranha de dentes aguçados  num rio tropical, assim é o inútil plasmado nas plataformas digitais.

O inútil é insaciável na demonstração da vacuidade, ostentando orgulhoso o pendão imprestável da sua linhagem.

Inexiste, o inútil, o verme, o parasita.

O inútil, quando abandona a pocilga onde resfolega pestilências, aventura-se impante na A2: seguro, conhecedor, decidido - tal como os bois no monte ao fim da tarde no regresso à corte!

É o máximo esplendor do inútil.

Acossado pelo vírus, o inútil reinventa-se na sua insignificância e molda-se influencer: é viajado, é viajante, o inútil; fala Lisboês e veste-se em Paris - é o que diz!

Descobre um país além fronteiras do seu bairro, do seu aido. Reclama para si os louros, o inútil!

O inútil-descobridor-inútil não lê; não ouve; não vê; não sabe; desconhece.

O inútil-descobridor-inútil maneja a inveja, alimenta-se do ranço e fede a peste.

O inútil-descobridor-inútil não partilha pois não há com quem o fazer: apenas ele existe, o inútil.

O inútil-descobridor-inútil vai ao Douro, ao Gerês, ao Minho, maravilha-se consigo próprio por haver descoberto - só ele - uma maravilha de Portugal e, por emérita virtude, partilha na capa de revista o segredo e os incontáveis recantos da região que apreendeu em 2 dias fechado no Spa; ou o roteiro secreto que apenas ele, o inútil, conhece e se dispõe a mostrar em directo televisivo. 

O inútil é a sanguessuga que se alimenta do próprio sangue; o inútil devora as próprias fezes para delas se alimentar; o inútil é autofágico, devora-se a si próprio.

O inútil é a imagem viva de parte deste País; não a maior, mas a mais influente, a mais presente, porque nos chega pela televisão, pela rádio, pelos jornais.

Eu, não preciso do inútil de merda para saber coisas do meu país de Norte a Sul porque sempre me interessei por ele. 

Eu, não preciso do inútil de merda para saber aonde procurar o que me interessa, o que me agrada, o que quero.

Eu, não preciso do inútil de merda para nada; nós, o País inteiro, não precisamos do inútil de merda para nada.

À bardamerda com o inútil!

Vila Nova de Foz Côa


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Ainda do mesmo... - II

Cumprindo a etapa final entre Vila Nova de Foz Côa e Almendra sob um Sol escaldante, avistei no asfalto, à berma esquerda da estrada, um caminhante que, havia dias, cruzara caminho em Gaia, no início da estrada.

Reconheci-o pelo chapéu de abas caídas que protegem as orelhas; ora, portava um girassol preso à mochila, certamente recolhido em qualquer recanto e que lhe conferia um aspecto...singular, pintando o cinzento atroz da estrada de um colorido alegre. E, então, apercebi-me do espanto que hei de ter causado a tantos com que me cruzei andando eu a pé e de mochila às costas em qualquer encosta íngreme ou estrada inclinada, lançando insanáveis dúvidas ao passante cómodo em viatura motorizada. "Mas o que fazem estes malucos debaixo desta chuva grossa, completamente encharcados?", "Qual o prazer em arrastar a sola das botas por quilómetros infindos de piche? Não há comboios?!" 

Ainda está para nascer o pápa-quilómetros que diga nunca haver sentido o peso do olhar de dúvida e incredulidade daqueles com que se cruza!

   

domingo, 10 de outubro de 2021

Recapitulando as férias - I.

"Isto já não é como dantes!", arrisco-me nos trilhos da meia idade exclamando como os "velhos" da altura em que era "jovem", e que me soavam a eternos insatisfeitos da condição humana.

Acelerando o passo, evitando desmaios motivacionais e demandas tardias à consciência, apresso-me a informar que a verve pretende apelar à memória dos tempos outonais de fim de férias e retorno à escola; dos dias mais curtos e dos frios a aparecer sem convite; da troca das roupas no armário para a nova estação e o regresso da nostalgia marcada pelos dias eternos passados na praia e no mar; de como o tempo era elástico, permitindo remendos e mais remendos e mais remendos nos ponteiros do relógio até nos satisfazermos de cansaço.

Hoje, nesta nova estação a que apelido de Verono, meia verão - meia outono, ando meio perdido: não sei se tenho saudades das férias, brilhando o sol como nunca; se tenho saudades das golas levantadas e das folhas das árvores caídas no chão húmido - mas a certeza de ter saudades, já, de sair terra afora: essa insaciável vontade de ir!

Armado em easy-rider de pacotilha, acomodei à razão o feito de galgar asfalto N222 adiante, e saí da terrinha com destino a Almendra.

Duzentos e vinte e seis quilómetros, assim, por extenso: puro deleite visual. O Douro - mesmo que apenas parte dele, o percorrido - é obra de Deus, nas palavras do não crente que sou; é um excesso da natureza, nas palavras de Miguel Torga. 

O que se alcança desta paisagem é o esforço titânico de gerações movidas num sonho comum: arrancar vida da pedra do chão.