"Isto já não é como dantes!", arrisco-me nos trilhos da meia idade exclamando como os "velhos" da altura em que era "jovem", e que me soavam a eternos insatisfeitos da condição humana.
Acelerando o passo, evitando desmaios motivacionais e demandas tardias à consciência, apresso-me a informar que a verve pretende apelar à memória dos tempos outonais de fim de férias e retorno à escola; dos dias mais curtos e dos frios a aparecer sem convite; da troca das roupas no armário para a nova estação e o regresso da nostalgia marcada pelos dias eternos passados na praia e no mar; de como o tempo era elástico, permitindo remendos e mais remendos e mais remendos nos ponteiros do relógio até nos satisfazermos de cansaço.
Hoje, nesta nova estação a que apelido de Verono, meia verão - meia outono, ando meio perdido: não sei se tenho saudades das férias, brilhando o sol como nunca; se tenho saudades das golas levantadas e das folhas das árvores caídas no chão húmido - mas a certeza de ter saudades, já, de sair terra afora: essa insaciável vontade de ir!
Armado em easy-rider de pacotilha, acomodei à razão o feito de galgar asfalto N222 adiante, e saí da terrinha com destino a Almendra.
Duzentos e vinte e seis quilómetros, assim, por extenso: puro deleite visual. O Douro - mesmo que apenas parte dele, o percorrido - é obra de Deus, nas palavras do não crente que sou; é um excesso da natureza, nas palavras de Miguel Torga.
O que se alcança desta paisagem é o esforço titânico de gerações movidas num sonho comum: arrancar vida da pedra do chão.

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