segunda-feira, 16 de março de 2015

O lobo - I

Se a tanto me ajudar o engenho e arte irei postando, não as de bacalhau, mas excertos  de prosa catados da literatura e tendo o lobo como protagonista.
Inicío com mestre Aquilino Ribeiro e "Quando os lobos uivam", romance que merece releitura à custa de certos esquecimentos que os novos tempos da globalização impõem.

A certa altura os cães do Manuel da Obriga romperam em grande babaréu à volta dum ronho do matagal. Acorreu o homem, e despachadamente entrou por ele dentro, apartando as frondes.E, vai senão quando, deparou-se-lhe um grande lobo que lhe dardejava, agachado por detrás dos sargaços, olhos sonsos a fuzilar na cabeçorra meio dobrada para o chão. Sem perda de tempo, meteu a espingarda à cara e puxou o gatilho. Chapéu, o tiro moita, e, como o lobo lhe desse a impressaõ de retesar-se nos jarretes para investir, ficou assustado e sem pinga de sangue. Se a fera dava o pulo?! Desandou, fingindo não o ver, como as vezes que avistava uma lebre na cama e «não trazia como lhe fazer bem».
Quando se apanhou na limpaça, despediu a chamar gente que andava ali perto numa estorgada. Vieram todos, armados de gadanhas e sacholas, com seus cachorros. Entretanto, os rafeiros não tinham desamarrado do barbeito onde se escondia o lobo: béu! béu!
Quando a fera viu a malta toda romper pelo urgueiral dentro, soergueu-se com certa moleza e com moleza se pôs a marchar em direcção a um tufo mais espesso, provávelmente no intuito de emboscar-se. Mas os rafeiros cortaram-lhe a retirada. Os homens então, não tendo a coragem de o acometer de frente, armaram-se de pedras e começaram a lapidá-lo. As mulheres traziam-lhas nas abadas. A primeira pedrada foi do Obriga...Perdeu-se. A outra foi do Pampolinha, e foi acertar na barriga do lobo. O bicho deu um ronco, mordeu a pedra, e estancou a arruaçar. Uma terceira bateu-lhe na espádua. Depois, como se lhes afigurasse improcedente o tiroteio assim mandado e o lobo num dado momento pudesse recobrar-se e fugir, procuraram atingí-lo nas pernas e quebrar-lhas.
Quando os lobos uivam” - Aquilino Ribeiro
Livraria Bertrand
2ª edição
pág. 249 a 251

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