Se a tanto me ajudar o engenho e arte irei postando, não as de bacalhau, mas excertos de prosa catados da literatura e tendo o lobo como protagonista.
Inicío com mestre Aquilino Ribeiro e "Quando os lobos uivam", romance que merece releitura à custa de certos esquecimentos que os novos tempos da globalização impõem.
“A certa altura os
cães do Manuel da Obriga romperam em grande babaréu à volta dum
ronho do matagal. Acorreu o homem, e despachadamente entrou por ele
dentro, apartando as frondes.E, vai senão quando, deparou-se-lhe um
grande lobo que lhe dardejava, agachado por detrás dos sargaços,
olhos sonsos a fuzilar na cabeçorra meio dobrada para o chão. Sem
perda de tempo, meteu a espingarda à cara e puxou o gatilho. Chapéu,
o tiro moita, e, como o lobo lhe desse a impressaõ de retesar-se nos
jarretes para investir, ficou assustado e sem pinga de sangue. Se a
fera dava o pulo?! Desandou, fingindo não o ver, como as vezes que
avistava uma lebre na cama e «não trazia como lhe fazer bem».
Quando se apanhou na
limpaça, despediu a chamar gente que andava ali perto numa
estorgada. Vieram todos, armados de gadanhas e sacholas, com seus
cachorros. Entretanto, os rafeiros não tinham desamarrado do
barbeito onde se escondia o lobo: béu! béu!
Quando a fera viu a
malta toda romper pelo urgueiral dentro, soergueu-se com certa moleza
e com moleza se pôs a marchar em direcção a um tufo mais espesso,
provávelmente no intuito de emboscar-se. Mas os rafeiros
cortaram-lhe a retirada. Os homens então, não tendo a coragem de o
acometer de frente, armaram-se de pedras e começaram a lapidá-lo.
As mulheres traziam-lhas nas abadas. A primeira pedrada foi do
Obriga...Perdeu-se. A outra foi do Pampolinha, e foi acertar na
barriga do lobo. O bicho deu um ronco, mordeu a pedra, e estancou a
arruaçar. Uma terceira bateu-lhe na espádua. Depois, como se lhes
afigurasse improcedente o tiroteio assim mandado e o lobo num dado
momento pudesse recobrar-se e fugir, procuraram atingí-lo nas pernas
e quebrar-lhas.”
“Quando os lobos uivam” -
Aquilino Ribeiro
Livraria Bertrand2ª edição
pág. 249 a 251
Quando so lobos uivam...é tempo de mudança. Ou se tem medo, ou se respeita.
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