domingo, 24 de abril de 2016

Aldeia de Xertêlo, Cabril, Montalegre, Portugal.

Levo ao conhecimento de todos 4 estampas fotográficas de alto calibre estético retiradas do espectáculo pós-moderno de ambiência naturalista desenvolvido na aldeia de Xertelo, freguesia de Cabril, em Montalegre, no passado dia 23.
O grupo de garbosos actores interpretou com especial denodo as indicações sábias do Mestre encenador, proporcionando ao vasto e interessado público uma performance de elevado conteúdo intelectual, de pendor filosófico eivado de brusca sabedoria.
Como todas as sessões do afamado grupo, também esta teve existência efémera sendo muito raras as reprises de espetcáculos.
Baseado em textos do folclore Búlgaro, a peça foi adaptada para a realidade  nacional tendo por cenário a ruralidade portuguesa, dividida em 4 sub-actos:
  1. A fuga do boi e a vaca que o seguiu: a realidade de um marido  enganado que, assim como assim, sempre passava pela porta de saída.
  2. O charco que era o lago que não o era: metáfora sobra a manias das grandezas e a queda estrepitosa de uma grupo de rãs que se julgava na Broadway, e não havia passado além do Cine Ramalho.
  3. Com mel e medronho já não fico bisonho: parábola do farmacêutico desconhecido em cada um de nós.
  4. A minha costeleta não cabe no prato: o mito de Adão e Eva revisitado.






Assim que novas e tonitruantes iniciativas de carácter cultural de semelhante teor tenham forma, delas darei conta.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Terras do meu país

Continuando a trilhar o mapa em busca da imaginação delirante com que foram apodadas algumas das terras deste rincão, apresento mais alguns exemplos da exuberância toponímica do Portugal - a saber:
Talharezes; Jolda-Madalena; Esmorigos; Vinha Velha; Labruja; Fonte de Olho; Mentrestido; Cossourado; Anho Mau; Bragadola; Lugar do Reirigo; Angustias; Escadabouca; Estanteiras; Loderro; Sobradelo da Goma; Berraria; Serafão; Outeiro da Casqueira; Quinchães; Porinhas, e, last but not least, dos meus preferidos: Mafreca.  

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Alto do Trovão, serra da Cabreira


Em fim-de-semana de Carnaval seguiu a Banda de abalada à Serra da Cabreira. 
Em destaque, um magnífico cliché dos bravos intervenientes em pleno maciço montanhoso indiferente à tempestade de proporções biblicas que se abateu sobre as suas cabeças.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Monumentos da nossa terra - II


Servem-nas na costumada frigideira de barro, com os viçosos grelos e o formoso ovo, de bela e apetitosa gema em meio da alvinitente clara.
Agora, no tempo chuvoso e melancólico de Inverno, acontece que o meu jantar não seja mais do que uma destas chouriças por prato único, a que acrescento um pires de arroz doce com o seu enfeite de canela, um queijo fresco, alguma peça de fruta, isto acompanhado com a indispensável meia garrafinha de vinho do termo, e, para assentar ideias, pôr justo termo ao ágape, o café com o honesto, o sério cálice de aguardente. Cada um é como é, e eu regalo-me, fico de consciência tranquila, apaziguado comigo e de bem com o mundo. Um consolo de corpo e alma!”
in "Roteiro Sentimental do Douro" - Manuel Mendes
Ed. Afrontamento - 3ª edição 
pág. 104

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Monumentos da nossa terra - I


Uma alheira, com a pele fendida, tostada do calor da fritura, a derreter aquele unto doirado e rescendente a alho, tempero de que lhe vem o bonito nome, tendo a acompanhá-la, como ordena o bom preceito, a sua verde guarnição de grelos tenros, salteados em pouca manteiga, e sobre eles a graça mais de todas amorável de um ovinho escalfado – quem haverá, aí, senhores, que não se tente? É uma das maravilhas da nossa cozinha bárbara, dada ainda ao deleite das coisas simples, do trivial, sem grandes requintes da civilizada laboração, mas a competir por isso mesmo, pela sua singeleza, com os ditames da Fisiologia do Gosto, de mestre Brillat-Savarin.”

in "Roteiro Sentimental do Douro" - Manuel Mendes
Ed. Afrontamento - 3ª edição 
pág. 103.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Em leitura - III

Arrisco um trecho mais extenso mas delicioso no uso estilístico da língua. Quem dotado para tal, delicia quem lê e lança a dúvida - por paradoxo, inquestionável! - : a imagem vale mil palavras; ou as palavras valem mil imagens? 

Eu, não sei! Quem se atrever que responda!


"Vou de cara para o sol nascente. Deixo a cidade. Deixo Peões. Vê-se o Bom-Jesus-do-Monte de perfil, com as suas capelas tocadas de luz quente. Sameiro — torres afitadas de sol. Mais longe, no alto, a capelinha da Falperra — de rosa. Vinhas de enforcado. Campos de trigo. Principia a serra do Carvalho. Fresco. Em baixo, à esquerda, o vale do Fojo, cheio de prados, campos de pão, árvores, freguesias. Larguíssimo, fertilíssimo. Um nevoeiro branco, rés com a terra, enche-o todo. Parece um lago coalhado. Paisagem de fumos, de vapores, de cinza clara. No fundo, de leite anilado, as frondes das árvores saem da água — da bruma — como ilhas emergindo do mar. Nesta tinta, as massas verdes do arvoredo transformam-se em massas azuis diluídas. No alto, alêni; os cabeços dos montes são rosados ; e à direita, na encosta, o sol rasteiro pincela ouro verde nos tojos e nos fetos ternos.
Lugar de Pinheiro.
Castelo de Lanhoso, sobre uma enorme rocha negra. Tem a sua história de amores trágicos : Rui Pereira, alcaide-mor medieval, sabendo que sua mulher estava lá dentro embaraçada com um frade de Bouro», cerrou as portas e pôs fogo ao castelo. Ardeu tudo: a adúltera, o frade, os criados. — Os criados ?
— Sim, porque, sabedores da maldade, nada disseram ao alcaide.
Igreja-Nova, no meio de verduras. Serra da Morosa. Vista larga. Nos campos, punge um milhinho de mês. Serra da Cabreira ao fundo, longe. Começa a cordilheira do Gerez, do lado de lá do vale de Vilar da Veiga, — verde, largo, fecundo. Em baixo, o Cávado. Branqueja, no alto. São Bento da Porta Aberta. Enorme romaria aí em Agosto. Grandes promessas: arcadas e cordões de ouro, teias de linho, juntas de bois, e amortalhados, dentro de caixões de defuntos, a que pegam quatro latagões a suar em bica : — família. Sempre a serra. Cimos alcantilados; penedos de violeta espêssa; lombas escalvadas: tufos de verdes duros nos barrancos que pregueiam os montes, de alto a baixo. A' ilharga, verdura de milhos. O Cávado, no fundo, azul, estreito, mas prestadio. Centeios secos. O auto roda vertiginoso, na estrada branca, entre duas tintas: azul e verde. Azul, de lá, da massa colossal do Gerez ; verde, de cá, nas verduras molhadas dos pastos em terras aos socalcos, pela encosta acima, nas copas de castanheiros novos, de folha tremente.
Salamonde. Casas miúdas, caiadas. Telhados com pedras a segurar as telhas. Alpendres. Espigueiros vermelhos. No maciço azul da cordilheira, na encosta rasteira, lá vai o nastro amarelo e medrado da estrada das Caldas; no alto, trepam os riscos claros, aos zigue-zagues, dos carreiros humildes de pé posto, — caminhos de serra. Oliveiras.
Ruivães. A' saída, luz, muita luz. Sempre o Gerez, de espinhaço recortado. Em baixo, o Rabagão, encastoado em pedregulhos. Que altura! Maravilhoso. O Buick pára um instante. É o Gerez em toda a sua imponência. Formidável! Belo! Anfractuoso, de cristas recortadíssimas, alcantis sobre alcantis, massas azuis para além de outras massas azuis, de valores diversos, toando-se uns nos outros, inundados de luz poderosa que se esparge da imensidade do céu de azul ferrete com nuvens de neve. Maravilha! Maravilha! Quem me dera morar aqui defronte para estudar de perto, em estações diferentes, a horas diferentes, como as lombas desta enorme serra, de mil quebradas, de mil anfractuosidades misteriosas, reagem sob a luz que as desperta e as sombras que as mancham, e que, uma e outras, as poeiram de coloridos imprevistos. Mas já o automóvel freme, arranca, besoira, foge. A estrada desce, às voltas, seguindo do alto penhascoso, as curvas do Rabagão azul-violeta, no fundo.
Venda-Nova.

Agora, para as Alturas, é a cavalo, através da serra sem árvores, em chão roxo pelas flores das queirogas e amarelo pelas flores da carqueja : — montes de mosto onde chovesse saraiva de enxofre… Ao redor, montanhas altas e varridas. Começa a ver-se, à esquerda, em baixo, um longo vale abeberado de verdura e de fartura, que se prolonga, formando o planalto da aldeia das Alturas, e se estende para lá, até às veigas fartas de Boticas. Serras em torno. Numa aberta, entre dois montes roxos, o Cubelas azul, com claros de queimadas. Acolá, uma lomba toda topázio, — flores de carqueja; lado a lado de outra toda ametista, — flores das carrascas. Entre os verdes das torgas, das estevas e dos tojos, predomina a côr roxa das queirogas, a alastrarem-se por tudo. E' uma paisagem de serranias lilases com chapadas verdes de toucas de carvalhotos a tufarem os barrancos das serras por onde, no inverno, galoparão enxurradas barrentas. Tintas de esmalte, claridades de cristal. Tanta côr! Tanta luz! Que o Senhor seja louvado!
Numa dobra, Sarcuzelo. Lá em baixo, e nos pendores das montanhas, escorridas de prados, a veiga é toda recortada em campos murados, muitos, aos xadreses irregulares, de verdes diferentes: — os dos lameiros húmidos, os dos centeios a acabar de secar, os do milho tenro a romper. De castanhos diversos : — os das terras revolvidas, os das terras lavradas, os dos campos ceifados de fresco. Fileiras de árvores. Água. Fertilidade. No meio da verdura, do fundo às encostas, acolá, alêm, esparsas, Pegoso; Currais, Ladrujães — povos muito unidos, de aspecto espanhol, nas suas casas terrentas de paredes sem cal, nos telhados de colmo ennegrecido pelas invernias. 
Amplidão. Imobilidade. Silêncio. 
Não se vê ninguém. Aquele único homemzarrão, acolá, na lomba de um monte, isolado, sob o céu infinito, parece uma figura colossal de Rodin a meditar a eternidade. Os pardais, distantes, cantam, o seu canto dilata o silêncio…

Ao sul, a Portela Velha, que faz extrema para o concelho de Basto; pegado, a serra de Maçã, onde os povos botam em comum os gados ao pasto ; a poente, a serra da Cabreira; depois, a cordilheira do Gerez; a seguir, a Pegosa com seus pendores para o vale farto das Alturas. No horizonte, nos confins do norte, o Pico do Larouco, e nos do sul, o Marão — manchas mal distintas de fumo azul diluído em cinza. 
Vê-se daqui para muito longe, muito, no panorama de serras desoladas onde vivem lobos e javalis, e sobre que pairam milhafres a peneirar no ar suas asas largas — os olhos fitos nos matos, em busca de presas. 
E neste ondulante mar esverdido, de montes vagueiros e baldios, sem árvores e sem cultura, sobe aos céus, contra os homens, a queixa amargurada das terras que querem ser mães de florestas úteis e belas, que aproveitem às gentes e, em sua beleza vasta e religiosa, agradem a Deus. Ninguém se serve delas. Ninguém entende seus humanos anseios de amor fecundo. Sofrem. A única alegria destes maninhos desprezados, que os homens pisam sem ver ou vêem sem estimar, é aquela romaria anual de luz, de cores e de perfumes silvestres."

in "Jornadas em Portugal" - Antero de Figueiredo
Livraria Aillaud e Bertrand - 3ª edição
pag.199 a 206

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Em leitura - II

"É dilatada a vista que se abrange lá de cima. Quanto mais trepamos, mais panoramas a montanha nos mostra. A montanha é prestigiosa como alma de mulher amada: mais a conhecemos,mais se nos revela! E menos a vemos! De longe, atrai-nos; nela, esquecemo-nos de que a vida vive...
A terra de montanha, vista à distância, parece de sêda, seus penedos de veludo; macios os tojos em que nos rasgamos...Terra de montanha, és feiticeira por teus desconhecidos; és mulher por teus perigos e encantos; és religiosa por teus mistérios; és mestra por teus silêncios."

Jornadas em Portugal - Antero de Figueiredo
Livraria Aillaude e Bertrand - 3ª edição
pág. 247

domingo, 24 de janeiro de 2016

Em leitura!



Como o linho, é religioso o pão: - de farinha triga se faz a hóstia de consagrar, que é o pão das almas; em cada padieira e porta de forno há uma cruz; e três cruzes se fazem no bôlo amassado, ao rezar a Sº João que o faça pão, a São Vicente que o acrescente, e à Virgem Maria uma Avè Maria, para que ela, na masseira, o levante e o levede. E os cuidados que dá o pão desde que o minhoto se benze, ao semeá-lo, até que o beija ao comê-lo?
Semeia-o, pica-o, sacha-o, rega-o, monda-o, corta-o, esfolha-o, seca-o, malha-o, criva-o, mói-o, peneira-o, amassa-o, leveda-o, padeja-o, enforma-o e coze-o.”

Jornadas em Portugal - Antero de Figueireo
Livraria Aillaud e Bertrand - 3ª edição
pág. 115/116