sexta-feira, 8 de maio de 2020

TROFÉU COMEZAINA - II

Paulo Ferreira:
(clicar para ampliar)

"No dia 10 de maio de 2014, os novos mentores do então designado grupo de caminhadas “Bota Rota” prepararam um trilho no Gerês, que ficaria para sempre na minha memória. 

Naquela altura, o grupo estava a perder os seus principais membros, pelas mais variadas razões pessoais e profissionais. 

Lembro-me que havia solicitado ao Jorge Sousa, as “chaves de acesso” a tudo o que eram plataformas e redes sociais, sendo ele um dos fundadores do grupo e que, entretanto, estava a mudar-se para Lisboa. Com a felicidade estampada no rosto, aceitou entregar-me as mesmas. 

Era um desafio tremendo, garantir que dali em diante as comunicações nos canais do grupo que haviam à data, seriam da minha responsabilidade. 

A primeira tarefa, seria garantir que todos aqueles que habitualmente caminhavam com o grupo, continuariam a receber os convites para as caminhadas, através da conta de email existente. 

Á medida que as caminhadas iam sendo realizadas, os membros que participavam eram cada vez menos, dado que os mentores já lá não estavam. Era natural. Então, a estratégia passava por adicionar ao grupo de email, novos membros. Rapidamente percebi que no meu local de trabalho, haviam colegas interessados em participar. Outros amigos se juntaram e uma ou duas caminhadas depois, sem que nada o fizesse prever, surgiu o maior grupo de que há memória numa caminhada “Bota Rota”. 

O dia começou bem cedo, com uma caminhada que ligava Fafião ao “Porto da Lage”, bem no coração do Gerês. Aquele Gerês que eu tanto gosto. Selvagem, agreste, natural. 

Lembro-me que dadas as características do trilho, que serpenteava a meia encosta os montes sobranceiros ao vale por onde corre o rio Fafião, o grupo alongava-se e era difícil manter a coesão do mesmo. A tão popular “bicha” era mais do que evidente. Mais parecia uma cobra com 80 metros de comprimento. 

Por volta do meio dia, os elementos do grupo que iam na frente (lembro-me do Joaquim Mota, o guia oficial), decidiram parar junto a uma linha de água, pois era o local mais fresco, de forma a que fosse possível recarregar baterias, para as etapas que ainda estavam para vir. Deveríamos estar a cerca de três ou quatro quilómetros do objetivo “Porto da Lage”. 

Seguindo na retaguarda do grupo, eu conseguia ver o que se passava à minha frente e assim poderia ajudar sempre que fosse necessário. Lembro-me que um casal meu amigo (a Cláudia de Sousa e o Vitor França), seguiam na parte final e decidiram desistir de caminhar, pois estava a ser demasiado o esforço físico deles. 

Foi precisamente nesse momento que se deu início a um acontecimento que recordo agora com nostalgia. Na altura fiquei apavorado. 

O Pereira da Silva, ia na retaguarda do grupo e passou por mim, enquanto eu falava com o casal que havia decidido ficar por ali á espera do nosso regresso. Lembro-me que olhei para ele e nada fazia prever que fosse possível desviar-se do trilho. Os participantes seguiam quase uns atrás dos outros, separados por alguns metros de distância. Deduzi que ele seguia alguém na sua frente. 

Depois de acertar os pormenores com quem decidiu interromper a caminhada, nomeadamente garantir que ficariam ali á espera do nosso regresso, voltei ao trilho e dirigi-me até ao local onde o grupo havia decidido descansar. Qual não foi o meu espanto, quando pergunto pelo Pereira da Silva e o Joaquim Mota me diz que não tinha chegado. Fiquei apavorado, pois eu tinha-o visto a caminhar em direção ao grupo. 

Rapidamente se percebeu que tínhamos um problema (aliás isso iria ser habitual nas caminhadas vindouras). Perder o Pereira da Silva era quase inevitável. Era qualquer coisa como ir a Roma e não ver o Papa. 

Lembro-me que alguns colegas foram á sua procura e dali a cinco minutos já estava ao nosso lado. Quando chegou junto de nós, parecia que tinha saído de um forno a carvão. A roupa e o rosto estavam riscados de preto. Havia percorrido um “atalho” (justificando-se), que o levou a atravessar uma zona de mato, onde houvera um incêndio há relativamente pouco tempo e isso tinha feito com que ficasse assim naquele estado. 

O que acontecera, pode acontecer a qualquer um que gosta de caminhar na montanha. Muitas das vezes somos traídos pelo nosso olhar. Coincidências que acontecem mais vezes do que imaginamos. E aquela tinha sido uma delas. 

Havia um outro grupo a percorrer aquele trilho, que eu já tinha visto durante alguns momentos no período da manhã e que seguia mais á frente a cerca de um quilometro de distância do nosso. Pegando nas palavras do Pereira da Silva, ele refere que seguia na parte de trás do nosso grupo e a dada altura perdeu ligação com quem ia á sua frente. É normal. O que não é normal é ele ter visto o grupo que seguia na outra encosta da montanha e deduzir que era o nosso. Era impossível que tivéssemos andado tão rápido. Contudo, ele assim pensou. E tal como pensou, logo decidiu colocar-se a caminho no encalço daquele grupo. E qual é a distância mais curta entre dois pontos? – Uma reta!

Pois assim é na geometria, mas não o é para quem caminha na montanha. E o resultado foi que saiu do trilho (com os olhos postos no horizonte) e enfiou-se no vale por onde corria um pequeno riacho de águas límpidas, a umas dezenas de metros a jusante do ponto onde todo o grupo descansava. 

Foi aí que decidiu camuflar-se de negro, desbravando monte e afastando os arbustos, aparecendo junto de nós, qual “Fenix renascida”. Não tive coragem de fazer a fotografia que ficaria para a posteridade, pois na altura ainda não eramos tão próximos, quanto deduzo que sejamos hoje. 

Esta fotografia foi registada em Porto da Lage, depois de toda esta peripécia e demonstra com naturalidade o estado de espírito do grupo. Uma mistura de felicidade com cansaço. E a vida continuou. Memorável."

O Paulo Ferreira lança o desafio ao afamado comedor de marisco, Jorge Santos.
Prazo para entrega: 17 de Maio.

2 comentários:

  1. Mas o homem apareceu, ou não? Não está na fotografia?!?!?!

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  2. Perante o que li, O Paulo Ferreira tem uma memória visual e factual fantástica.
    A narrativa é rigorosa e revela alguns detalhes que eu nem dei conta na ocasião.
    Acrescento um pouco mais: A travessia da ribeira foi difícil e até um pouco perigosa, arrisquei, mas correu tudo bem. Nunca comentei esta situação mas não a esqueci...

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