quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Pitões das Júnias

A cada regresso do Portugal profundo é sempre, sempre, este poema do Carlos Tê que resume tudo.

A Gente Não Lê

Ai, Senhor das Furnas,
Que escuro vai dentro de nós.
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão.
Rogar a Deus que nos guarde,
Confiar-lhe o destino na mão.

Que adianta saber as marés,
Os frutos e as sementeiras,
Tratar por tu os ofícios,
Entender o suão e os animais,
Falar o dialecto da terra,
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais?

E do resto entender mal,
Soletrar assinar em cruz,
Não ver os vultos furtivos,
Que nos tramam por trás da luz.

Ai, Senhor das Furnas,
Que escuro vai dentro de nós.
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria.
De boca em boca passar o saber,
Com os provérbios que ficam na gíria.

De que nos vale esta pureza,
Sem ler fica-se pederneira.
Agita-se a solidão cá no fundo,
Fica-se sentado à soleira,
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira.

Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem.

Carlos Tê

quinta-feira, 9 de julho de 2015

S. João da Fraga - Da torreira.



A subida à capela de S. João da Fraga é tão cansativa para a embalagem que nos aconchega os ossos, como arrebatador para os olhinhos da alma que um dia a terra há-de comer. Mais ainda se cumprida sob um sol rigoroso, abrasador e inclemente, trilhando impiedoso empedrado capaz de moer as solas do sapatame mais duro.
A saída de Pitões faz-se por um carreiro inclinado, descendente – aqui, todos são garbosos caminhantes!-, que se embrenha aos poucos na vegetação, atravessa ribeiros e fresca as cabeças torradas do sol com os frondosos ramos vestidos do arvoredo (aqui, o escriba penitencia-se pela ignorância no chamamento das árvores, pois que para si tudo é arvoredo – é tão triste não saber ler, diz o povo!).
Aparcada ao ladinho da ponte de madeira e abrigada ao sombrio das ramagens, ouvindo, vendo e sentindo o ribeirinho correndo sereno no seu vagar, uma caminete dos palhaços relembra aos sérios as palhaçadas que estes andam fazendo neste circo; armando barraca e prometendo cabriolas de espantar mais não cumprindo que estatelar-se ao comprido no chão da vida.
Moral do instante, à laia de sentença dos bolinhos da sorte: uns, são palhaços; outros, fingidores. 
Siga p’ra diante que não te encomendaram sermão!
Tamanha lindeza mereceu eternizar-se em cliché costumeiro nos grupos da bola, uns de pé, atrás; os outros, joelho no chão, em primeiro plano, mirando absortos o infinito, dando à morte a sua melhor face e a barriga encolhida, não vá o mafarrico tecê-las e posterizar a orelha arrebitada, o nariz empinado ou o corte no queixo que lâmina rombuda lascou na carne nos matinais preparos higiénicos. 
Da banda feminil os preparos serão outros; mas o fim, o mesmo! 
Upa que upa pedra acima, canseira ao rubro e bofes pela boca que nem gaita desafinada em dia de romaria, zoando loas de lamiré à santinha por aqueles que já lá estão e pelos outros, os que vão a caminho que a morte é certa. 
Adianto escusa na pressa, vou-me ficando bem por cá!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

São João da Fraga - Do imponderável.

Depois da tempestade, a bonança; e o ar fica fresco e o dia claro como se nada houvesse ocorrido, o céu desabado em bátegas e os ventos furiosos varrido a superfície, arrastando elefantes à laia de folhas de plátano vogando, dolentes, a caminho do chão numa tarde outonal.
O parágrafo anterior é um exagero, facilmente detectável, no relato que empreendo mas, quando a inércia dita leis e a preguiça faz cama, nem a fé, último desígnio do aflito, é capaz de revolver as entranhas da memória e agitar as musas da inspiração. Basicamente, posso resumi-lo a um dia claro, de sol bonito e muito, muito quente.
Ínvios e palavrosos caminhos são os do escrevinhador.
Adiante: da companhia forasteira, credora de primitiva desconfiança, afiançou créditos o escriba na primeira perlenga instrutória e, do humano erro, concluiu a semelhante condição arribando ao descanso, finalmente, o olho-vivo que até então mantinha desperto – não fosse o diacho do mafarrico, mesmo assim, tecê-las, torcê-las ou como lhe desse na endemoniada gana.
Pois que o presente é o passado do futuro, desde a criação assim se ordena e repousa o mundo nesta sabedoria imorredoura: amanhã, o hoje será ontem; e o amanhã, amanhã, hoje – confuso? Só para quem nunca errou pelo calendário vagabundeando datas ou tropeçando nos ponteiros do relógio em fuga errática aos números do mostrador.
Mea máxima culpa, esqueci o coador de palavras algures: eu simplifico - quem nunca perdeu o tino à data, ou hora, de um encontro? Que atire a primeira pedra, quem!
Os meses têm 30 ou 31 dias, há outro que costuma ter 29 e, vez por outra, apenas 28: que mal vem ao mundo trocar o dia 23 pelo 24? 
 
 Os romeiros desfrutam da sombra antes da infernal subida.

domingo, 28 de junho de 2015

São João da Fraga - prólogo

O rumor insinuava-se há várias semanas, preciso mas encoberto, quase disfarçado de informação burocrática e oficial: gente de fora, de longe, para além de onde a vista alcança, aportaria a nossos domínios partilhando uma calcorreada pelas serranias costumeiras.
Outros usos e costumes, dialectos e manias - sandice de quem escreve? Lá diz o povo: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso! (o meu primo, serralheiro, assegura errata ao ditado: “cada porca com seu parafuso” - onde está a verdade?).
E o que o povo diz, é letra de lei.
Quase não dormi, comi mal e tive febre neste entretanto; dei baixa ao emprego e consultei o cura - “que não era motivo para tanto”, ”filhos do mesmo pai” e outras sentenças que não descortinei o alcance. É homem erudito, sabe latim. Não lhe disse que eram mulheres, os forasteiros.
S. João da Fraga seria o destino!, decidiu o conselho de sábios, temente a Deus, prodigalizando interesse na protecção do santo em prejuízo das belezuras do percurso – nunca se sabe quem lá vem e é bom ter uma capela à vista com o santo lá dentro, ainda que minima, mas à vista, branquinha, destacada dos penedios envolventes. “Não vá o diabo torcê-las!” - ouvi certa vez de um, torcido por 1 quartilho de branco da Lixa.
Adiante, que para a frente vem carroça: consultei mapas, enciclopédias, tratados e destratados; procurei resposta nas borras do café, no rasto das estrelas e no ralo da banheira.
Nada! O universo, aliado à força das trevas, conluiava-se contra mim.
Darth Vader, meu sacana, sei que és tu! 
I'll be back.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

24 de Junho

"Disse, a medo, por te ver,
Com a fogueira a brincar:
-"Com o fogo não se brinca!-
E eu morto por me queimar..."
Giesta Brava (Porto) 
ano 1942

"Menina vestida à moda,
Vamos p'rá roda bailar
Já tenho a cabeça à roda
...e a  roda sem começar!!!"
Ile Trado (Coimbra) 
ano 1952

"Tantas fogueiras fizeste,
Tantas fogueiras saltaste, 
Que no final nem soubeste
Em qual delas te queimaste."
Zé da Foz 
ano 1962

"Deste-me um beijo, Manel,
Na noite de S. João.
Deus queira que tanto mel
Não traga nenhum ferrão."
Lena 1963 

in Quadras de S. João  1928-1978
Jornal de Notícias


sábado, 13 de junho de 2015

13 de Junho

Se se perde qualquer coisa de que muito se gosta, lê-se o Responso a Santo António:

"Santo António se vestiu,
  Santo António se calçou
  na sua cacheirinha (cajado) pegou,
  Nosso Senhor encontrou
  - Tu, António, onde vás (vais)?
  - Eu, Senhor, convosco vou.
  - Tu, António, não virás
  por esse mundo ficarás, todas as coisas perdidas
  a todas acharás.
  Pai-nosso,
 Avé-maria."

in Orações e benzeduras da freguesia da Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez (recolha)
Ana Eleonora Borges
ed. Apenas, 1ª ed. 2005
pág. 15

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Sugestão cinéfila



“Em Janeiro de 1969 António Campos desloca-se a Vilarinho das Furnas para filmar os últimos dias desta aldeia comunitária.”


Curioso como sinto o mesmo, hoje: a urgência de captar sobre a inclemência do tempo.

Aqui, http://www.jornalmapa.pt/2013/11/13/morreu-vilarinho-das-furnas-sob-o-manto-de-agua-que-lhe-deu-a-vida/ , tantas coisas que não vemos, já erodidas pelos anos, mas que se pressentem na rudeza com que se apresenta o meio que nos envolve; quase se adivinha, num jogo de palpite e efabulação, a vivência da aldeia igual, por semelhança, a tantas outras vivências espalhadas pelo país.

O filme tem pouco mais de 1 hora, mas é um documento magnífico.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Ofício nº 47 de 29 de Março de 1890

(…) a ocupação da Serra [do Gerês], por soldados, idos de Guimarães, a mando do governo, contra as populações revoltadas, não se fez esperar. Estava instalado o confronto: de um lado as populações locais e a sua Câmara, do outro o próprio Governo central, o Administrador do Concelho, seu representante legal, e os Serviços Florestais. E a luta deve ter sido renhida, a avaliar pela documentação da época, com os serranos a arrancar as plantações,
a impedir os jornaleiros de trabalhar e a incendiarem as florestas e os montes usurpados. O seguinte documento, enviado pelo Administrador do Concelho ao Governador Civil, assinala um dos momentos de tréguas nesta contenda:
 
Ofício nº 47 de 29 de Março de 1890:
Tenho a honra de participar a V. Exª que o comandante da força estacionada no logar de S. João do Campo, communicou julgar hoje alli desnecessária a permanência da mesma, por vêr que o povo está socegado, disposto a não se oppor aos trabalhos florestaes, e, muito menos, a sublevar-se de novo; tendo-o feito irreflectivelmente. O commandante da força conscio do seu dever e sempre obediente no cumprimento de suas obrigações tem só em vista que eu, em seu nome, mui respeitosamente represente a V. Exª que, caso V. Exª resolva mandar estacionar a força por mais tempo nas proximidades do Gerez, se digne determinar que a mesma mude a residência para o logar das Caldas do Gerez, onde estará melhor aquartellada , do que no local do Campo. Porque o destacamento teve de sair com a maior rapidez , e talvez na supposição de pouca demora, veio, apenas , prevenido com o mais indispensavel, de modo que agora está sem calçado , e sem roupa branca; e, n’aquelle logar, impossibilitado de se prover facilmente. Diz mais que, sendo a força mal alimentada por meio de boleta, resolveu uzar do rancho, no que está sendo demasiado lesada, por quem lhe fornece os mantimentos; e na impossibilidade de remediar-se receando a remoção de um dia para o outro, (como succedeu as forças) digo para o outro.
V. Exª determinará como julgar conveniente. Deus guarde a V. Exª.

(Do Copiador especial da correspondência expedida pela Administração do Concelho, para o Governador Civil, de 1890, no Arquivo Municipal da Câmara de Terras de Bouro. (…) A cópia deste documento foi-me gentilmente fornecida pelo Dr. José António de Araújo). Depois do confronto militar, as populações serranas, em colaboração com a Câmara, passaram a lançar mão dos instrumentos legais possíveis: os aforamentos dos montes, de que o caso de Vilarinho constitui um exemplo.
in Vilarinho da Furna – Memórias do passado e do futuro
Centro de estudos da população, ambiente e desenvolvimento
Universiade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ADENDA

 
in "Diccionário Geographico abreviado de Portual e suas possessões ultramarinas, no qual se dá noticia de todas as Cidades, Villas, e Freguesias, de Portugal, com sua população, legoas de distancia, correio, e feiras principais; seus rios, montanhas, portos, &c. E juntamente se descrevem todas as ilhas, e porções continentaes, que Portugal possue actualmente no Ultramar; suas Povoações, plantas, animaes, minas, rios, portos, commercio, &c. &c.", 
 dado ao prelo por Antonio Fernandes Pereira, da Villa de Favaios. 
Porto: na typographia de Sebastião José Pereira, 1852.