A cada regresso do Portugal profundo é sempre, sempre, este poema do Carlos Tê que resume tudo.
A Gente Não Lê
Ai, Senhor das Furnas,
Que escuro vai dentro de nós.
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão.
Rogar a Deus que nos guarde,
Confiar-lhe o destino na mão.
Que adianta saber as marés,
Os frutos e as sementeiras,
Tratar por tu os ofícios,
Entender o suão e os animais,
Falar o dialecto da terra,
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais?
E do resto entender mal,
Soletrar assinar em cruz,
Não ver os vultos furtivos,
Que nos tramam por trás da luz.
Ai, Senhor das Furnas,
Que escuro vai dentro de nós.
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria.
De boca em boca passar o saber,
Com os provérbios que ficam na gíria.
De que nos vale esta pureza,
Sem ler fica-se pederneira.
Agita-se a solidão cá no fundo,
Fica-se sentado à soleira,
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira.
Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
sábado, 8 de agosto de 2015
quinta-feira, 9 de julho de 2015
S. João da Fraga - Da torreira.
A subida à capela de S. João da
Fraga é tão cansativa para a embalagem que nos aconchega os ossos, como
arrebatador para os olhinhos da alma que um dia a terra há-de comer. Mais ainda se cumprida sob um sol
rigoroso, abrasador e inclemente, trilhando impiedoso empedrado capaz de moer
as solas do sapatame mais duro.
A saída de Pitões faz-se por um
carreiro inclinado, descendente – aqui, todos são garbosos caminhantes!-, que
se embrenha aos poucos na vegetação, atravessa ribeiros e fresca as cabeças
torradas do sol com os frondosos ramos vestidos do arvoredo (aqui, o escriba penitencia-se
pela ignorância no chamamento das árvores, pois que para si tudo é arvoredo – é tão triste não saber ler, diz o
povo!).
Aparcada ao ladinho da ponte de
madeira e abrigada ao sombrio das ramagens, ouvindo, vendo e sentindo o
ribeirinho correndo sereno no seu vagar, uma caminete dos palhaços relembra aos sérios as palhaçadas que estes
andam fazendo neste circo; armando barraca e prometendo cabriolas de espantar
mais não cumprindo que estatelar-se ao comprido no chão da vida.
Moral do instante, à laia de
sentença dos bolinhos da sorte: uns, são
palhaços; outros, fingidores.
Siga p’ra diante que não te
encomendaram sermão!
Tamanha lindeza mereceu
eternizar-se em cliché costumeiro nos grupos da bola, uns de pé, atrás; os
outros, joelho no chão, em primeiro plano, mirando absortos o infinito, dando à
morte a sua melhor face e a barriga encolhida, não vá o mafarrico tecê-las e
posterizar a orelha arrebitada, o nariz empinado ou o corte no queixo que
lâmina rombuda lascou na carne nos matinais preparos higiénicos.
Da banda feminil os preparos
serão outros; mas o fim, o mesmo!
Upa que upa pedra acima, canseira
ao rubro e bofes pela boca que nem gaita desafinada em dia de romaria, zoando
loas de lamiré à santinha por aqueles que já lá estão e pelos outros, os que
vão a caminho que a morte é certa.
Adianto escusa na pressa, vou-me ficando bem por cá!
quinta-feira, 2 de julho de 2015
São João da Fraga - Do imponderável.
Depois da tempestade, a bonança; e o
ar fica fresco e o dia claro como se nada houvesse ocorrido, o céu
desabado em bátegas e os ventos furiosos varrido a superfície,
arrastando elefantes à laia de folhas de plátano vogando, dolentes,
a caminho do chão numa tarde outonal.
O parágrafo anterior é um exagero,
facilmente detectável, no relato que empreendo mas, quando a inércia
dita leis e a preguiça faz cama, nem a fé, último desígnio do
aflito, é capaz de revolver as entranhas da memória e agitar as
musas da inspiração. Basicamente, posso resumi-lo a um dia claro,
de sol bonito e muito, muito quente.
Ínvios e palavrosos caminhos são os
do escrevinhador.
Adiante: da companhia forasteira,
credora de primitiva desconfiança, afiançou créditos o escriba na
primeira perlenga instrutória e, do humano erro, concluiu a
semelhante condição arribando ao descanso, finalmente, o olho-vivo
que até então mantinha desperto – não fosse o diacho do
mafarrico, mesmo assim, tecê-las, torcê-las ou como lhe desse na
endemoniada gana.
Pois que o presente é o passado do
futuro, desde a criação assim se ordena e repousa o mundo nesta
sabedoria imorredoura: amanhã, o hoje será ontem; e o amanhã,
amanhã, hoje – confuso? Só para quem nunca errou pelo calendário
vagabundeando datas ou tropeçando nos ponteiros do relógio em fuga errática aos números do mostrador.
Mea máxima culpa, esqueci
o coador de palavras algures: eu simplifico - quem nunca perdeu o
tino à data, ou hora, de um encontro? Que atire a primeira pedra,
quem!
Os
meses têm 30 ou 31 dias, há outro que costuma ter 29 e, vez por
outra, apenas 28: que mal vem ao mundo trocar o dia 23 pelo 24?
Os romeiros desfrutam da sombra antes da infernal subida.
domingo, 28 de junho de 2015
São João da Fraga - prólogo
O rumor insinuava-se há várias
semanas, preciso mas encoberto, quase disfarçado de informação
burocrática e oficial: gente de fora, de longe, para além de onde a
vista alcança, aportaria a nossos domínios partilhando uma
calcorreada pelas serranias costumeiras.
Outros usos e costumes,
dialectos e manias - sandice de quem escreve? Lá diz o povo: cada
terra com seu uso, cada roca com seu fuso! (o meu primo, serralheiro,
assegura errata ao ditado: “cada porca com seu parafuso” - onde
está a verdade?).
E o que o povo diz, é letra de lei.
Quase não dormi, comi mal e tive febre
neste entretanto; dei baixa ao emprego e consultei o cura - “que
não era motivo para tanto”, ”filhos do mesmo pai” e outras
sentenças que não descortinei o alcance. É homem erudito, sabe
latim. Não lhe disse que eram mulheres, os
forasteiros.
S. João da Fraga seria o destino!,
decidiu o conselho de sábios, temente a Deus, prodigalizando
interesse na protecção do santo em prejuízo das belezuras do
percurso – nunca se sabe quem lá vem e é bom ter uma capela à
vista com o santo lá dentro, ainda que minima, mas à vista,
branquinha, destacada dos penedios envolventes. “Não vá o diabo
torcê-las!” - ouvi certa vez de um, torcido por 1 quartilho de
branco da Lixa.
Adiante, que para a frente vem carroça:
consultei mapas, enciclopédias, tratados e destratados; procurei
resposta nas borras do café, no rasto das estrelas e no ralo da
banheira.
Nada! O universo, aliado à força das
trevas, conluiava-se contra mim.
Darth Vader, meu sacana, sei que és tu!
I'll be back.
quarta-feira, 24 de junho de 2015
24 de Junho
"Disse, a medo, por te ver,
Com a fogueira a brincar:
-"Com o fogo não se brinca!-
E eu morto por me queimar..."
Giesta Brava (Porto)
ano 1942
"Menina vestida à moda,
Vamos p'rá roda bailar
Já tenho a cabeça à roda
...e a roda sem começar!!!"
Ile Trado (Coimbra)
ano 1952
"Tantas fogueiras fizeste,
Tantas fogueiras saltaste,
Que no final nem soubeste
Em qual delas te queimaste."
Zé da Foz
ano 1962
"Deste-me um beijo, Manel,
Na noite de S. João.
Deus queira que tanto mel
Não traga nenhum ferrão."
Lena 1963
in Quadras de S. João 1928-1978
Jornal de Notícias
sábado, 13 de junho de 2015
13 de Junho
Se se perde qualquer coisa de que muito se gosta, lê-se o Responso a Santo António:
"Santo António se vestiu,
Santo António se calçou
na sua cacheirinha (cajado) pegou,
Nosso Senhor encontrou
- Tu, António, onde vás (vais)?
- Eu, Senhor, convosco vou.
- Tu, António, não virás
por esse mundo ficarás, todas as coisas perdidas
a todas acharás.
Pai-nosso,
Avé-maria."
in Orações e benzeduras da freguesia da Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez (recolha)
Ana Eleonora Borges
ed. Apenas, 1ª ed. 2005
pág. 15
"Santo António se vestiu,
Santo António se calçou
na sua cacheirinha (cajado) pegou,
Nosso Senhor encontrou
- Tu, António, onde vás (vais)?
- Eu, Senhor, convosco vou.
- Tu, António, não virás
por esse mundo ficarás, todas as coisas perdidas
a todas acharás.
Pai-nosso,
Avé-maria."
in Orações e benzeduras da freguesia da Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez (recolha)
Ana Eleonora Borges
ed. Apenas, 1ª ed. 2005
pág. 15
quinta-feira, 11 de junho de 2015
Sugestão cinéfila
“Em Janeiro de 1969
António Campos desloca-se a Vilarinho das Furnas para filmar os últimos dias
desta aldeia comunitária.”
Curioso como sinto o mesmo, hoje: a urgência de captar sobre
a inclemência do tempo.
Aqui, http://www.jornalmapa.pt/2013/11/13/morreu-vilarinho-das-furnas-sob-o-manto-de-agua-que-lhe-deu-a-vida/
, tantas coisas que não vemos, já erodidas pelos anos, mas que se pressentem na
rudeza com que se apresenta o meio que nos envolve; quase se adivinha, num jogo
de palpite e efabulação, a vivência da aldeia igual, por semelhança, a tantas
outras vivências espalhadas pelo país.
O filme tem pouco mais de 1 hora, mas é um documento
magnífico.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Ofício nº 47 de 29 de Março de 1890
(…) a ocupação da Serra [do Gerês], por soldados, idos de Guimarães, a mando do governo, contra as populações revoltadas, não se fez esperar. Estava instalado o confronto: de um lado as populações locais e a sua Câmara, do outro o próprio Governo central, o Administrador do Concelho, seu representante legal, e os Serviços Florestais. E a luta deve ter sido renhida, a avaliar pela documentação da época, com os serranos a arrancar as plantações,
a impedir os jornaleiros de trabalhar e a incendiarem as florestas e os montes usurpados. O seguinte documento, enviado pelo Administrador do Concelho ao Governador Civil, assinala um dos momentos de tréguas nesta contenda:
a impedir os jornaleiros de trabalhar e a incendiarem as florestas e os montes usurpados. O seguinte documento, enviado pelo Administrador do Concelho ao Governador Civil, assinala um dos momentos de tréguas nesta contenda:
Ofício nº 47 de 29 de Março de 1890:
Tenho a honra de participar a V. Exª que o comandante da força estacionada no logar de S. João do Campo, communicou julgar hoje alli desnecessária a permanência da mesma, por vêr que o povo está socegado, disposto a não se oppor aos trabalhos florestaes, e, muito menos, a sublevar-se de novo; tendo-o feito irreflectivelmente. O commandante da força conscio do seu dever e sempre obediente no cumprimento de suas obrigações tem só em vista que eu, em seu nome, mui respeitosamente represente a V. Exª que, caso V. Exª resolva mandar estacionar a força por mais tempo nas proximidades do Gerez, se digne determinar que a mesma mude a residência para o logar das Caldas do Gerez, onde estará melhor aquartellada , do que no local do Campo. Porque o destacamento teve de sair com a maior rapidez , e talvez na supposição de pouca demora, veio, apenas , prevenido com o mais indispensavel, de modo que agora está sem calçado , e sem roupa branca; e, n’aquelle logar, impossibilitado de se prover facilmente. Diz mais que, sendo a força mal alimentada por meio de boleta, resolveu uzar do rancho, no que está sendo demasiado lesada, por quem lhe fornece os mantimentos; e na impossibilidade de remediar-se receando a remoção de um dia para o outro, (como succedeu as forças) digo para o outro.
V. Exª determinará como julgar conveniente. Deus guarde a V. Exª.
(Do Copiador especial da correspondência expedida pela Administração do Concelho, para o Governador Civil, de 1890, no Arquivo Municipal da Câmara de Terras de Bouro. (…) A cópia deste documento foi-me gentilmente fornecida pelo Dr. José António de Araújo). Depois do confronto militar, as populações serranas, em colaboração com a Câmara, passaram a lançar mão dos instrumentos legais possíveis: os aforamentos dos montes, de que o caso de Vilarinho constitui um exemplo.
in Vilarinho da Furna – Memórias do passado e do futuro
Centro de estudos da população, ambiente e desenvolvimento
Universiade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
ADENDA
in "Diccionário Geographico abreviado de Portual e suas possessões ultramarinas, no qual se dá noticia de todas as Cidades, Villas, e Freguesias, de Portugal, com sua população, legoas de distancia, correio, e feiras principais; seus rios, montanhas, portos, &c. E juntamente se descrevem todas as ilhas, e porções continentaes, que Portugal possue actualmente no Ultramar; suas Povoações, plantas, animaes, minas, rios, portos, commercio, &c. &c.",
dado ao prelo por Antonio Fernandes Pereira, da Villa de Favaios.
Porto: na typographia de Sebastião José Pereira, 1852.
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