quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Último dia do ano; apesar de tudo, gratidão pelo que sai, muitas bênçãos para o que entra.


 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Dos livros, para o tempo presente.

    

"ESPERAR NÃO É UMA PERDA DE TEMPO

    Damos por nós hipermodernos, polivalentes, aparelhados de tecnologia como uma central ambulante, multifuncionais mas sempre mais dependentes, perfeccionistas mas sempre insatisfeitos, vivendo as coisas sem poder refletir sobre elas, próximos da actividade extenuante e, no fundo, distantes da criação. Não podemos ter tempo a perder. E, contudo, precisaríamos talvez de dizer a nós próprios, e uns aos outros, que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o tempo necessário para ser; é tomar o tempo para si, como lugar de maturação, como história reencontrada; é perceber o tempo não apenas como enquadramento, mas como formulação em si mesma significativa.

     Quem não aceitar, por exemplo, a impossibilidade de satisfação imediata de um desejo dificilmente saberá o que é um desejo (ou, pelo menos, o que é um grande desejo). Quem não esperar pelas sementes que lançar jamais provará a alegria de vê-las acenderem-se sobre a terra, como milagre que nos resgata."

in " O pequeno caminho das grandes perguntas" - José Tolentino Mendonça
ed. Quetzal, 1ª edição - pág. 19


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Os 3 indomáveis

                                                                                                           (foto de Pereira da Silva)

Mirando desafiadoramente a lente e empunhando o bastão à laia de vara da justiça, ei-los lançados que partem: os 3 indomáveis!

Caminhando terras por alcançar; inóspitas brumas, águas bravias; arrepiantes alturas montanhescas acavaladas em precipícios de horror; terríficos desertos de pedra, tempestades infindas, ei-los que enxergam para além do olhar.   

Até à próxima caminhada!

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Pelo-me por coisas destas!

(foto de Jorge Santos)
 

Há uns anos em Zamora, andando atrás de uma igreja que pretendia visitar e não a encontrando, perguntei a um lojista que, apontando o olho direito para o tecto e o esquerdo para mim, proferiu: " Si te gustan las piedras como yo..."

E eis-me, derretido, algures por aí, de olhos pregados no Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo.

Quanta beleza se tira de um pedaço de calhau!

domingo, 8 de novembro de 2020

sábado, 7 de novembro de 2020

O Gordon Ramsay da minha rua

Eu sou um pisco a comer!, faço-o apenas para repor energias. É uma pura obrigação orgânica: manda-o o corpinho. Assim sendo, deleito-me com pouco - por vezes, apenas a sugestão de uma iguaria me é bastante...
Contudo, por mera solidariedade para com quem enfrenta esta pandemia de tasca aberta, acabei a recordar a mítica Tasca d'Alice e a cabidela da qual apenas comi um asinha do frango!; ou a Moura, Alheira , Morcela  ou Carne na Panela...


Recordo, também, Sabores do Alvão, para onde sempre sou levado contrariado; o que eu quero é caminhar, o contacto com a natureza, o odor a primavera, o canto das aves; chega-me uma barrita de cereais e uma peça de fruta...
Cabrito, Posta, Salpicão, Queijo com Marmelada: respeito quem aprecie, mas para mim é demasia pois sou um pisco a comer!

Como não tenho andado por terras de Alvão, aprecio juste un peu, outros sabores mais próximos e apenas por desenfado por perto de casa; não seria coisa para me deslocar expressamente...

Agora, para homens: PORCO tratado com pinças, desvelo e carinho. A alta costura das carnes fumadas ao serviço do único animal verdadeiramente verde: - 100% reciclável. 

Fuck Colestrerol!, o mundo ideal seria PORCO: o amor seria PORCO; a felicidade seria PORCO, a paz seria PORCO; o sexo seria PORCO; a Super Bock em julho seria PORCO.

E eu, para ser perfeito, seria PORCO.

CHARCUT BAR: o 6º sentido não engana e manifesta-se na natural reposição da ordem universal das coisas do bem: pastrami; queijo coalho; torresmo com limão; morcela com doce (jamais o rude pulsar dos meus instintos iria perceber esta combinação !!!!!!!!!!!!!!!); alheira, feijoada... 

Pastrami

Morcela com geleia e croquetes bons para caramba 
(fotos de MJM)
 


domingo, 25 de outubro de 2020

Sobram as mochilas, faltam os peregrinos.

 

28 de Abril de 2019, albergue de Trasmiras, Galiza.

Enquanto aguardávamos a abertura das portas descansamos as mochilas, coitadas....

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Dia de S. João


Não é preciso passar a ponte
ou fugir em contra-mão;
vou-me pirar para o monte
mal acabe o S. João.

Atazana-me esta perrice
das saudades de tarde soalheira;
falta-me a Tasca d'Alice
mai-lo vinho, a moura e a alheira.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e destas gentes



Dia da Raça, da traça ou da junta da colaça.
Vem o Manel, o Alfredo e o Vilaça,
a tartaruga e a sua carapaça;
a perdiz, que é de caça, vem do mosteiro de Alcobaça.
Quem por lá passa - e não há quem o não faça -
traz pêssego ou uva passa
comprados a eito na praça,
mais o vinho murraça.
Ergamos então a taça
e brindemos à puta da Raça.


terça-feira, 9 de junho de 2020

TROFÉU COMEZAINA - VIII

Horácio
(clicar para ampliar)

"O episódio que vou contar aconteceu em 2017, aquando do trilho Bustilerne - Torrinheiras, o qual seria, à partida, como tantos outros, marcado apenas pelo prazer de percorrer entre montes e veredas os caminhos que nos conduzem à contemplação de paisagens naturais deslumbrantes.

Ao passar por Porto D'Olho, deparamos com o monte Pico do Alto da Varela, cujo acesso à Capela Nossa Senhora Mãe da Igreja, que se encontrava no cimo, se fazia por uma estrada interessante, mas cansativa, que serpenteava o monte.

Embora reconhecendo o interessa paisagístico visto do pico do monte, a maioria de nós não se mostrou com vontade de empreender essa íngreme subida, com excepção do Paulo Ferreira, que não queria perder a oportunidade de fazer mais umas fotos bonitas.

Enquanto ele foi, ficamos então cá em baixo a aguardar, quando nos apareceu um habitante da aldeia a conduzir um boi enorme até um tanque cheio de água que se encontrava próximo. Ali parados, obviamente, não podíamos desperdiçar a oportunidade de fazer o registo fotográfico do animal a saciar a sua sede, junto do seu dono que se encontrava de costas para nós.

Tudo normal, não fosse o senhor voltar-se repentinamente, no preciso momento do disparo da máquina fotográfica e subitamente dar um grito de aflição alucinante, e, levando a mão ao peito repetir "ai que eu morro...". Preocupados, mas com receio dos chifres do animal, (que por si só também se assustou) tentamos perceber o que se passava. Foi então que o senhor, que entretanto se acalmara, nos explicou que tinha sido operado ao coração e que lhe tinham implantado um pacemaker, pelo que, quando se voltou, e viu as máquinas fotográficas viradas pare ele, pensou que se lhe tirassem uma fotografia, o seu coração iria parar.

Depois de alguns minutos de conversa tranquilizadora, lá continuamos todos o nosso caminho, ficando este episódio para narrar então neste momento.".

A participação do Horácio remete-nos para os primeiros contactos dos fotógrafos com povos/tribos ancestrais que, receando o roubo da anima, recusavam-se deixar fotografar.

O próximo participante será o Manel, com prazo de entrega até 16 de Junho.


  

quarta-feira, 3 de junho de 2020

TROFÉU COMEZAINA - VII

Carlos Pinto
(clicar para ampliar)

"A MONTANHA POR ACHAR

A montanha por achar
Há-de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.
O santuário que tiver,
quando o encontrar, há-de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.
A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade."
                                        Fernando Pessoa

Com recurso ao sempiterno FP, presenteia-nos o Carlos uma panorâmica do mítico monte Farinha e o templo dedicado à evocação da Senhora, a da Graça.

É interessante des-vêr as fotografias não permitindo que as mesmas nos trapaceiem e aldrabem; des-vendo, ou des-lendo o que nos entra pelos olhos, é que somos chamados à realidade; de outra forma juraríamos impossível que em pouco mais de 2 horas houvéssemos percorrido a distância entre o pico e o local de toma da panorâmica. 

Às vezes, penso que somos malucos...

O desafiado, nas palavras do ora participante, é "Horácio esse escritor, fotógrafo e livreiro" - prazo de entrega da encomenda: 10 de Junho, dia da raça.
.

terça-feira, 2 de junho de 2020

É dos livros, senhor!

"Dali até o povo, em cada linha de rampa, os pobres eram mais que o cisco. Assentes sobre taleigas, os surdo-mudos pareciam marcos de baliza à espera que os distribuíssem pelos campos; já os entrevadinhos tinham avantado para o meio da estrada, sobre os cotos das mãos ou as pernas engatinhadas, algumas secas da faca, e deitavam a lamúria:
- Ó meus ricos senhores, dai a esmola ao aleijadinho! Olhaide para a minha triste sorte!
Outros, no meio de mondongos, punham ao léu chagas cancerosas, mais roxas que as do santo Cristo, e charqueiros de putreia onde bichos reboludos, de cinta branca, e a mosca vareja vasculhavam. E berravam que o céu tremia:
 - Ó almas caridosas, dai cinco reisinhos ao desinfeliz!
Os ceguinhos de nascença, de olhos vidrados, gemiam uma cantilena lenta e interminável como a noite que os envolvia:
 - Pela luz dos vossos olhos dai uma esmola ao ceguinho! E os entrevados e enfezados, de cabeça de alambique e corpo minineiro, em caixas de petroline ou canastras de sardinha, ao lado de matulões barbaçudos, estendiam a mão, a guinxar:
- Oh! tende dó, deixai uma esmola ao desgraçadinho!
Atrás deles, aqui e além, a dois tanganhos, a panela do badulaque fervia; e, no pavor, passava a olha do pespé rençoso, colhido em porta responsada a Sant'António.
- Por alminha de quem lá tendes, ò meus ricos senhores!
Aquele tinha o carão roído dum cancro e dava vómitos olhá-lo; uma mulher vergava a cabeça debaixo dum lobinho, nascido no pescoço, e tão grande era que parecia trazer às costas uma badana pelada.E a sua voz arremedava o ladrar dos cães:
- Ponde aqui os olhos, ó gente que passais! Por alma dos vossos avós, dai a esmolinha!
Jesus! um homem não tinha pernas nem traseiro, e, fixe sobre uma tábua, parecia enterrado de estaca. Mais além, um monstro, com a boca rasgada até às orelhas e sem nariz e sem dentes, era mais temível que a morte negra. E a fenda rubra gemia: 
 - Ó santinhos de Nosso Senhor, tende piedade! Dai cinco reisinhos!
 - Seja pelo amor de Deus! - murmurou Glórinhas. - Há cada espelho pelo mundo!...
- Levam vida regalada - disse a Zabana. - Não precisam trabalhar.
 - Deus do céu! eu antes queria andar de rastos como a cobra!"

"Terras do Demo"  - Aquilino Ribeiro
Ed. Bertrand, 1974, pág. 282/283


domingo, 31 de maio de 2020

TROFÉU COMEZAINA - VI

Maria José
(clicar para ampliar)
"Quem não se lembra da Brandy?

Um animal "racional" que se juntou a seres racionais e fez todo o caminho connosco, sendo que as nossas caminhadas não são meros passeios ou excursões, são duras caminhadas que põem à prova não só o nosso espírito aventureiro, mas também a nossa persistência, determinação e vontade de querer ir sempre mais longe ao ponto de no fim das mesmas ficarmos admirados com "aquilo" que conseguimos fazer.

Bem, onde quero chegar é que a Brandy representa o espírito deste grupo fantástico, de que já sinto umas certas saudades."

Até."

Com a memória de um participante que um dia cruzou o caminho connosco é desafiado o Carlos Pinto à apresentação da sua tese, restando-lhe para proposta desafiadora o Horácio e o escapulido Manel se, entretanto, não aparecer mais vivalma. 


sexta-feira, 22 de maio de 2020

Filmes caseiros de trazer por casa

A lente trepidante de inquieta do Carlos Pinto traz-nos estas memórias em forma de fotografias em movimento, qual bazar encantado e os seus mil-sóis desenhados no tom mágico de oboés de prata...basicamente: apreciem!


Deixo aqui um desafio ao cineastas em potência para a condensação em curtos filmes das tomas de cenas que vão captando; enquanto repositório de memória das caminhadas; dos lugares; dos pormenores, será um movimento interessante a explorar. 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

TROFÉU COMEZAINA - V

Joaquim Mota:
(clicar para ampliar)

"Ora vamos lá ver quem são os cromos que sempre apanho nas caminhadas por estes montes e vales e que constam desta foto e mais dois que lá não estão (que me desculpem).

O primeiro tem de ser aquele que, mal paramos para o pequeno-almoço…. Então onde está ele? Lá anda ele de máquina em punho, longe “já são horas de trabalhar” depois chega á mesa e nós já estamos de saída, lá teremos de esperar um pouco, mas de facto é o primeiro a iniciar as hostilidades, e quando avistamos um acidente geográfico digno de nota? Se calha algum balbuciar se valerá a pena visitá-lo, houve logo um “Nós estamos aqui para trabalhar” e tanto trabalha que volta e meia esfuma-se, para tudo e todos há que procurá-lo, por vezes obriga um voluntário a fazer uns quilómetros, porque, tão obcecado pelo trabalho, é difícil alcançá-lo para lhe dizer que estão todos para o outro lado.

Um outro, pouco depois de iniciada a caminhada, “Já estou a sentir falta de incentivo, isto assim custa” como ainda é cedo ninguém se lembra a que se refere. Á hora do café é uma chuva de lamúrias, “Isto não são condições ora chove ou venta ou faz frio e estes copos!” Mais uma ou duas horas e lá vem outra vez “isto está fraco, assim não se consegue caminhar, ainda não se sabe o que é o jantar, esta organização vai levar uma repreensão” Bom! Deixámo-lo sofrer um pouco mais e depois lá se anuncia onde vai ser o repasto e é quanto basta lá vai ele como se estivesse a começar a caminhada, já ninguém o apanha “Quanto mais cedo acabar mais cedo me sento à mesa” e depois da refeição… “A organização esteve muito bem”.

Este é que é…. Lá vamos nós progredindo e de repente estaca, todos ficam a olhar, que será? Um corso? Um javali? Uma rena? Hii, Hii nada disso lá conseguimos ver com dificuldade ao longe em cima de uma penedia umas cabras, há é isso! “O quê? Nada disso, é um mosquito a azucrinar uma cabra” e tu vês isso? Huuummm… O tempo vai passando, alguém olha para o relógio e manda apressar o passo se querem cumprir o planeado. Volta o mesmo personagem “Vão andando que eu vou timelepsar um pouco e já vos apanho”, um bom tempo depois lá está á nossa frente sem darmos por isso.

Este outro, durante o percurso, muda de semblante como o tempo muda na montanha, durante a subida LLL uiiiiii “Isto vai ser sempre assim, por quanto tempo? Quantos quilómetros? Não é melhor parar um pouco? É que está um calor!” e por aí fora, um rosário, bom um terço. Chegados ao cimo “Já chegamos? JJJ  até nem foi mau, só para ver a paisagem”. Depois de mais uns bons quilómetros, agora na descida e com umas boas horas em cima dos pés lá muda ele o semblante LLL.  Chegados ao carro e depois de trocar de calçado e um pouco de descanso volta á primeira fase JJJ. Tudo está bem quando acaba bem, eu também fico JJJ.

E que acham deste? É aquela máquina a andar, mas… Já lá vamos. Anda que se farta, não há obstáculos (pudera, tem as pernas grandes) se se adianta do grupo segue sempre o seu caminho cheio de confiança até que o grupo, já longe, grita-lhe – nós vamos por ali- e ele responde, sem se desviar “apanho-vos adiante”. Muito tempo depois de o perder de vista lá aparece ele a intercetar o nosso caminho, que precisão. Confiança só beliscada pelo relógio, é que soa a hora da canção para o sol se deitar e lá começam as mensagens verbais “O carro está muito longe, é melhor fazer a volta, vai escurecer não tarda, nunca se sabe”. Não sei porquê no inverno é mais sensível.

Agora este. Acho sinceramente que não caminha. Nunca o vi com equipamento próprio de montanha, não precisa! Nunca ouvi o mais pequeno queixume, mesmo depois de muitas horas e quilómetros, subidas ou descidas, etc. E a serenidade, nem se dá por ele, ou antes ele não está lá, mas garanto que o vi, por várias vezes, em cima de uns penedos a deliciar-se com a aragem, o perfume e a frescura do ar, as cores da natureza os sons do vento e das águas dos ribeiros, mesmo que distantes, enquanto o grupo passa sem se atrever a perturbar é que ele pode estar lá.

O último elemento, que é de facto o primeiro, quer pelo género quer porque é o que anda melhor, não entrem em competições (em caminhadas) com este por que é derrota assegurada, leve como o vento e tem neste, a maioria das vezes, um aliado. Além de outras especialidades (principalmente á mesa. Uiii), na fotografia bate qualquer, sim! Quantas vezes já viram o nosso premiado fotógrafo em troca de informação com este, que é o mais baixo, e com uma minicâmara. Não é justo compararmos as fotos de um e outro assim devido á diferença do equipamento, também não podemos tirar a prova fazendo um teste entre os dois trocando o respetivo equipamento pois é preciso comer um boi para arcar com o equipamento mais profissional. Um dia quando ela submeter as suas fotos vão ficar espantados, eu sei que já as vi. Vão por mim.

Por último o fugidio, tem uma resistência de invejar e anda sempre na frente mas, não sei se por distração se concentrado nos temas da fotografia, desaparece, então se tem uma companhia que lhe dê trela, uiii, uiii, desaparecem os dois o que obriga a mais um voluntário forçado para os trazer de volta ao bom caminho. Não gosta é nada de ver o chão longe das solas, porque meia dúzia de metros é um precipício que dá tonturas que pode levar qualquer um a confundir a vertical do lugar com a linha do horizonte.

Para terminar acho que andamos todos pelo bom caminho, porque esse é aquele em que andamos todos juntos, que é afinal, o que fazemos. Boas caminhadas".

A próxima desafiada leve como o vento lançará numa aragem de Primavera o seu contributo até ao próximo 27.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

TROFÉU COMEZAINA - IV

Pereira da Silva:
(clicar para ampliar)
"A RIBEIRA DA BIDUÍÇA 
Caminhada Cela - Lamalonga / Gerês (2018-04-14)

Passo a descrever um acontecimento que a cada passo me vem á memória e do qual me dá vontade de rir, mais, pelo resultado, da minha ação imaginativa na ocasião. 

Cito o que escrevi na minha crónica da caminhada: 

Já no regresso, tivemos a necessidade de transpor a RIBEIRA DA BIDUIÇA, da margem esquerda para a direita. A dificuldade surgida teve em questão, o elevado caudal de água e a falta de pontos de apoio seguros, na zona em que se pretendia fazer a travessia. 

E assim, perante o desenrascanço de alguns companheiros que procuraram outros locais de travessia, sugeri ao António Mota a ideia de colocarmos pedras até se criar um pequeno dique que facilitaria a passagem. Pensei ser tarefa breve e então metemos mãos á obra a carregar blocos de pedra para dentro de água mas o resultado não foi satisfatório. 

O Francisco Sousa em dado momento escorregou de pés juntos para dentro da ribeira. Foi inevitável um sorriso forçado mas pouco depois eu também escorreguei para dentro da ribeira e só parei quando a água chegou ao pescoço. Tão depressa saí da água como entrei e nem queria acreditar no que tinha acontecido mas imaginei o desconforto para o resto da caminhada. 

Agora, acrescento mais um pouco a esta narrativa: na altura que entrei dentro de água da ribeira trazia vestido um colete de felpo e encharcou de tal maneira que tive de o tirar para não resfriar e pesado que ficou. Coloquei o colete dobrado e atracado na alça da mochila, seguimos caminho, e eis senão quando dou conta que o dito cujo tinha ficado pelo caminho com 15 moedas de 2€ no bolso. 

Em conclusão: Foi uma caminhada memorável numa zona muito agreste do Gerês mas, o que retenho na memória, foi o acontecimento na RIBEIRA DA BIDUÍÇA e julgo que alguém já bebeu umas cervejas á minha conta."

O próximo desafiado a apresentar serviço até ao próximo dia 24 é o guia-chefe; o mapa-vivo das expedições; a bússola humana, Joaquim Mota.

Mais uma boa ideia!

Eis uma boa ideia de valorização e recuperação dos vários patrimónios que nos constituem, promovida por 6 concelhos do alto Minho em consonância de interesses. A boa nova colhi-a na edição de 16 de Maio, do Jornal de Notícias e alegra quem gosta de pedras, como eu. 

A rota principal de cerca de 70 quilómetros "visita" alguns dos templos pelo caminho e fornece pistas para outros mais afastados, permitindo a fruição do natural e do histórico/monumental.

A ser cumprida num fim-de-semana alargado ou em vários, é uma excelente notícia para quem gasta sola em busca do que ficou para trás.

(clicar para ampliar)

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Das indecisões como boa escolha.


O indefinidamente grande não é grande bastante para se cumprir a Humanidade. Nunca a vontade política priorizou a busca de um futuro colectivo, optando pelo cumprimento de uma agenda individual de canibalização até à exaustão dos recursos naturais.

Eu tenho dúvidas, muitas, da bondade a existir no ser humano decorrente desta crise pandémica - os exemplos anteriores assim o ditam: passado o choque, continuaremos a assistir à exuberante pantomina de autodestruição que leva, também, o nosso cunho autoral; ao embuste global travestido de desenvolvimento, mas não passando de bodo aos pobres para aplacar consciências e garantir shares de audiência 

Por oposição - descarada, diria eu! - foi o indefinidamente pequeno a trancar-nos em casa! A obrigar-nos distância e compromisso, comedimento e disciplina temperados a medo. E é esta a grande lição que vamos aprender deste tempo de excepção: todos os sonhos de grandeza desmedida estão à mercê de um perdigoto.

Que grande tareia!
  

domingo, 10 de maio de 2020

TROFÉU COMEZAINA III

Jorge Santos

Caminhada no Gerês (Cabril-Albergaria) em 2018.10.20
 
 
Certo dia os elementos de um grupo muito esquisito de conhecidos (acho que alguns se encontraram pelo caminho de alguma coisa) decidiram-se a empreender numa aventura caminhando por esses montes arriba y abajo com o intuito de fazer não sei o quê…Ele há gente que, não tendo nada de interessante para fazer, se põe a inventar e caminham, caminham, caminham (deve ser para as ideias fluírem melhor) até chegarem a um ponto onde, subitamente, param, olham em seu redor e, das duas três:
- Ficam espantados com todo o caminho que já percorreram e indagam como terão conseguido realizar tal façanha, e o certo é que o fizeram, ou…
- Estão a admirar a paisagem que, após mais uma galgada do penedio, se lhes aparece à frente, obrigando-os a estacar no movimento e a respirar o que os seus olhos estão a presenciar ou…
 
Simplesmente…
 
Perderam-se e...
 
Estão todos a questionar…
 
Como diabo é que vamos sair daqui ?
 
 
Conteúdo do mail enviado pelo nosso dispendioso guia contratado para informação do pelotão de ataque (2018.10.15).
 
Viva!
Junto informação sobre o próximo trilho a realizar sábado dia 20/10/2018 .
Vamos visitar o Pé de Cabril mas subindo pelo lado do Campo do Gerês, perto de Vilarinho das furnas, partindo da maravilhosa várzea do Campo do Gerês e subindo direito ao penedo furado e prado do gamil já nossos conhecidos, depois do pé de cabril seguiremos sempre pela cumeada até descermos pela mata de albergaria de encontro à Via Nova (via romana), pela qual faremos o regresso. Relembro as vistas fantásticas de que usufruiremos quer para Vilarinho das furnas, serra amarela (Louriça), quer para o Borrageiro, pé de medéla, carris, etc.
Como de costume partida do multiusos de Gondomar pelas 07h30 (ainda não mudou a hora) dia 20/10/2018. 
Saudações BotaRota


 
O desafio será agora lançado ao distinguíssimo fornecedor de café em tempos de pausa da malta e distribuidor de "energia em forma de chocolate" em tempos de exaustão, Sr. Pereira da Silva, que nos dará o privilégio do seu contacto até ao dia 17.
 
Para todos, aquele abraço
 
Jorge Santos
 
 
 

 
 


 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

TROFÉU COMEZAINA - II

Paulo Ferreira:
(clicar para ampliar)

"No dia 10 de maio de 2014, os novos mentores do então designado grupo de caminhadas “Bota Rota” prepararam um trilho no Gerês, que ficaria para sempre na minha memória. 

Naquela altura, o grupo estava a perder os seus principais membros, pelas mais variadas razões pessoais e profissionais. 

Lembro-me que havia solicitado ao Jorge Sousa, as “chaves de acesso” a tudo o que eram plataformas e redes sociais, sendo ele um dos fundadores do grupo e que, entretanto, estava a mudar-se para Lisboa. Com a felicidade estampada no rosto, aceitou entregar-me as mesmas. 

Era um desafio tremendo, garantir que dali em diante as comunicações nos canais do grupo que haviam à data, seriam da minha responsabilidade. 

A primeira tarefa, seria garantir que todos aqueles que habitualmente caminhavam com o grupo, continuariam a receber os convites para as caminhadas, através da conta de email existente. 

Á medida que as caminhadas iam sendo realizadas, os membros que participavam eram cada vez menos, dado que os mentores já lá não estavam. Era natural. Então, a estratégia passava por adicionar ao grupo de email, novos membros. Rapidamente percebi que no meu local de trabalho, haviam colegas interessados em participar. Outros amigos se juntaram e uma ou duas caminhadas depois, sem que nada o fizesse prever, surgiu o maior grupo de que há memória numa caminhada “Bota Rota”. 

O dia começou bem cedo, com uma caminhada que ligava Fafião ao “Porto da Lage”, bem no coração do Gerês. Aquele Gerês que eu tanto gosto. Selvagem, agreste, natural. 

Lembro-me que dadas as características do trilho, que serpenteava a meia encosta os montes sobranceiros ao vale por onde corre o rio Fafião, o grupo alongava-se e era difícil manter a coesão do mesmo. A tão popular “bicha” era mais do que evidente. Mais parecia uma cobra com 80 metros de comprimento. 

Por volta do meio dia, os elementos do grupo que iam na frente (lembro-me do Joaquim Mota, o guia oficial), decidiram parar junto a uma linha de água, pois era o local mais fresco, de forma a que fosse possível recarregar baterias, para as etapas que ainda estavam para vir. Deveríamos estar a cerca de três ou quatro quilómetros do objetivo “Porto da Lage”. 

Seguindo na retaguarda do grupo, eu conseguia ver o que se passava à minha frente e assim poderia ajudar sempre que fosse necessário. Lembro-me que um casal meu amigo (a Cláudia de Sousa e o Vitor França), seguiam na parte final e decidiram desistir de caminhar, pois estava a ser demasiado o esforço físico deles. 

Foi precisamente nesse momento que se deu início a um acontecimento que recordo agora com nostalgia. Na altura fiquei apavorado. 

O Pereira da Silva, ia na retaguarda do grupo e passou por mim, enquanto eu falava com o casal que havia decidido ficar por ali á espera do nosso regresso. Lembro-me que olhei para ele e nada fazia prever que fosse possível desviar-se do trilho. Os participantes seguiam quase uns atrás dos outros, separados por alguns metros de distância. Deduzi que ele seguia alguém na sua frente. 

Depois de acertar os pormenores com quem decidiu interromper a caminhada, nomeadamente garantir que ficariam ali á espera do nosso regresso, voltei ao trilho e dirigi-me até ao local onde o grupo havia decidido descansar. Qual não foi o meu espanto, quando pergunto pelo Pereira da Silva e o Joaquim Mota me diz que não tinha chegado. Fiquei apavorado, pois eu tinha-o visto a caminhar em direção ao grupo. 

Rapidamente se percebeu que tínhamos um problema (aliás isso iria ser habitual nas caminhadas vindouras). Perder o Pereira da Silva era quase inevitável. Era qualquer coisa como ir a Roma e não ver o Papa. 

Lembro-me que alguns colegas foram á sua procura e dali a cinco minutos já estava ao nosso lado. Quando chegou junto de nós, parecia que tinha saído de um forno a carvão. A roupa e o rosto estavam riscados de preto. Havia percorrido um “atalho” (justificando-se), que o levou a atravessar uma zona de mato, onde houvera um incêndio há relativamente pouco tempo e isso tinha feito com que ficasse assim naquele estado. 

O que acontecera, pode acontecer a qualquer um que gosta de caminhar na montanha. Muitas das vezes somos traídos pelo nosso olhar. Coincidências que acontecem mais vezes do que imaginamos. E aquela tinha sido uma delas. 

Havia um outro grupo a percorrer aquele trilho, que eu já tinha visto durante alguns momentos no período da manhã e que seguia mais á frente a cerca de um quilometro de distância do nosso. Pegando nas palavras do Pereira da Silva, ele refere que seguia na parte de trás do nosso grupo e a dada altura perdeu ligação com quem ia á sua frente. É normal. O que não é normal é ele ter visto o grupo que seguia na outra encosta da montanha e deduzir que era o nosso. Era impossível que tivéssemos andado tão rápido. Contudo, ele assim pensou. E tal como pensou, logo decidiu colocar-se a caminho no encalço daquele grupo. E qual é a distância mais curta entre dois pontos? – Uma reta!

Pois assim é na geometria, mas não o é para quem caminha na montanha. E o resultado foi que saiu do trilho (com os olhos postos no horizonte) e enfiou-se no vale por onde corria um pequeno riacho de águas límpidas, a umas dezenas de metros a jusante do ponto onde todo o grupo descansava. 

Foi aí que decidiu camuflar-se de negro, desbravando monte e afastando os arbustos, aparecendo junto de nós, qual “Fenix renascida”. Não tive coragem de fazer a fotografia que ficaria para a posteridade, pois na altura ainda não eramos tão próximos, quanto deduzo que sejamos hoje. 

Esta fotografia foi registada em Porto da Lage, depois de toda esta peripécia e demonstra com naturalidade o estado de espírito do grupo. Uma mistura de felicidade com cansaço. E a vida continuou. Memorável."

O Paulo Ferreira lança o desafio ao afamado comedor de marisco, Jorge Santos.
Prazo para entrega: 17 de Maio.

domingo, 3 de maio de 2020

Por montes e vales e coisas de espantar.

Quantas vezes não somos surpreendidos por leis, despachos e afins provenientes da Assembleia da República que nos surpreendem pelo inusitado, havendo em conta a realidade do país? Quantas vezes não duvidámos das doutas figuras que por lá pululam em cabriolas, algumas de partir-espinha, responsáveis por decretos, regulamentações e quejandos cujo alcance não havia de passar além paredes da Assembleia, quanto mais arribar ao Portugal profundo? E quantos não escondem a sua proveniência, obliterando memórias, rascunhando currículos?

Aqueles que como nós botam os pés na terra alcançando terras entre montes, correndo seca e meca vendo e julgando o abandono destas gentes, a renúncia a que estão votados, não farão grande monta aos ditos cujos políticos no dia do Juízo Final, se para tal forem constituídos testemunhas.

Por tal, a notícia em destaque apenas espantará aqueles que somente conhecem a A2 e o cosmopolitismo adjacente, em espanto oportuno - vade retro, Satanás - ao resto do país que é paisagem e bruta ignorância - exorcizo te! 

14/06/2019, Jornal de Notícias



Isto é trigo-limpo-farinha-amparo que a chicha está pronta a rilhar. Não são necessárias considerações prévias nem ademanes histriónicos, está tudo como a seguir se segue:
  (clicar para ampliar)


É impossível não lembrar o impagável Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira, político suculento que acabou por inaugurar o cemitério que ele mesmo mandou construir para alimentar as traquinices políticas e as demandas em busca de um corpo defunto para enterro. Acabou por morrer às mãos do mítico Zeca Diabo.     


"- O prefeito! - Ao ver Odorico, Espiraldo se preocupa. - O senhor aqui...
- Dona Juju podia sair um pouquinho? Queria ter um coloquiamento sigiloso com seu Espiraldo.
- Ah, sim...tá bem.
- Seu Espiraldo Pirajá - Odorico espera que Juju saia e feche a porta, tira do bolso uma cópia do contrato - data venia, quero lembrar ao distinto o contrato que firmou comigo. Pela cláusula terceira do referido, " o CONTRATADO se obriga a fornecer o próprio corpo em estado defuntício, no prazo máximo de trinta dias...". Já se passaram vinte e dois e o senhor ainda não cumpriu esta cláusula.
- Não foi culpa minha - defende-se Espiraldo. - Seu matador é que errou o alvo.
- Não obstantemente esse lamentável entretanto, o senhor podia dar um jeito...".

in O Bem-amado, de Dias Gomes
ed. Difel, pág. 31

sábado, 2 de maio de 2020

TROFÉU COMEZAINA - I

Paulo Santos: 

(clicar para ampliar)
"Dizem que vai ficar tudo bem.  
O pôr-do-sol pintou de calmaria um pedaço do caminho entre Madrid e o Porto. Surgiu assim, de repente. Era Domingo, dois dias depois da chacina numa discoteca em Paris, há cinco anos.
Viajámos de noite, não ouvimos rádio. Não sabíamos. Apenas atravessámos meia Ibéria. E o mal à solta em Paris. Como hoje a peste, no mundo. 
Mas dizem que vai ficar tudo bem.
Não é possível! Não há medida para a dor; como não a houve em Paris. A dor não tem peso; volume; textura. A dor não tem cheiro.
O que nos salva é o Amor - de quem dá; de quem se dá. É ele que nos arranca do torpor imbecil em que enterrámos a esperança depois da tragédia. É ele que nos guia, de novo. 
Naquele fim de tarde, em terras de Leão e Castela a caminho de casa, para derrotar a barbárie, foi assim que ele se fez notar."

O próximo a apresentar-se, lançado aqui o desafio, é o Paulo Ferreira - fotógrafo, piloto de drones, engenheiro de redes, formador CAD, formador fotografia, empreendedor, CEO, especialista modelação 3D, apreciador de francesinhas, perito em rabanadas, barra em alheiras e mouras, activista ambiental, construtor de Dolly's, Time-lapser multipremiado. É dono de um cão com distúrbios de personalidade. 
Prazo para entrega: 10 de Maio.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

The times they are a changin'

1 de Maio de 2017 - chegada a Santiago de Compostela, traçando o Caminho Central a partir do Porto:

(foto do repórter-estrábico J. S.)

1 de Maio de 2018 -  Saída de Compostela com destino a Finisterra:

                                              (foto do repórter-estrábico J. S.)

1 de Maio de 2019 - 13ª etapa do Caminho Interior Português, saindo de Ourense via Cudeiro, "escalando" o Caminho Real:

(foto do repórter-estrábico J. S.)

1 de Maio de 2020 - Era suposto estar cumprido com a chegada a Compostela neste dia, contudo...



...é o melhor que consigo arranjar para não enlouquecer, confinado à minha modesta toca:


terça-feira, 28 de abril de 2020

Dos livros.

"-Mas pulou no cangote do zebu?
- Que óte! Que ú!...Você acredita que ela não teve coragem?! Naquela hora, nem o capeta não era gente de chegar no guzerá velho-de-guerra. Nem toureiro afamado, nem vaqueiro bom, Mulatinho Campista, Viriato mais Salathiel, coisa nenhuma...E, quem chegasse, era só mesmo por ter vontade de morrer suicidado sem querer...
- Ixe!
- Mas o Calandu cada vez ia ficando mais enjerizado e mais maluco, ensaiando para ficar doido, chamando a onça para o largo e xingando todo nome feio que tem. Aquilo, eu fui bobeando de espiar tanto para ele, como que nunca eu não tinha visto o zebu tão grandalhão assim! A corcunda ia até lá em baixo, no lombo, e, na volta, passava do lugar seu dela e vinha pôr capéu na testa do bichão. Cruz! E até a lua começou a alumiar o Calundu mais do que as outras coisas, por respeito...
- Eu estou quase não acreditando mais, Raymundão...
- Bom, pode ter sido também uma visão minha, não duvido nada...Mas, então foi que eu fiquei sabendo que tem também anjo-da-guarda de onça!..."

"Sagarana" - João Guimarães Rosa
Ed. Nova Fronteira, págs. 36/37

sábado, 25 de abril de 2020

Vá para dentro, cá fora.

Sabes que o confinamento está a afectar-te quando sentes as paredes da sala avançar para ti, silenciosamente mantendo a esquadria, tentando aprisionar-te; quando a casa de banho é cada vez mais pequena e temes morrer afogado na sanita, emboscado pelo espelho e o móvel de arrumação das toalhas; quando a cadeira em que te sentas parece mais e mais pequena a cada dia que passa... não!, isto não é efeito do confinamento: estás mesmo a ficar gordo! 

Em pleno dia da Liberdade, não será um Covid-qualquer-coiso a impedir-nos de viajar ou "perder países", como Pessoa definiu o acto - ainda que de maneira outra. A fotografia é a lembrança primeira que ocorre quando pretendemos viajar sem sair do sítio; avivar memórias é um saudável exercício de estimulação intelectual e reavivar de sensações. 

As revistas e álbuns são outro manancial absurdo de informação visual sobre países e lugares; se acrescentarmos a valia de por lá haver passado, então será um magnífico exercício de memória; e se, mais dramaticamente ainda, a revista, álbum ou que que seja for antigo, então será um fantástico exercício de imaginação, observando as mudanças ocorridas, ou então, como passados anos, o local se mantém praticamente inalterado.

As fotos abaixo são de alguns roteiros e guias antigos que vou comprando, buscando informações que "caíram em desuso" - seja pela pressão turística que opta por outras rotas e interesses na região ou simplesmente aconteceu assim -; para confronto de mapas da rede viária de anos diversos ou, simplesmente, para fruição das fotografias e aspectos particulares da época.

Outro aspecto interessante a verificar nestes guias/roteiros é a transformação, no tempo, daquilo que é "turístico", que pode ser apresentado como tal.; a manutenção de clichés bafientos assentes numa exaltação de "vãs glórias" até uma visão mais abrangente de um todo multidisciplinar apresentado como destino turístico, baseado nas múltiplas vivências do local.










Que ninguém fique em casa!