Há coisas do campo que o
citadino não entende; e os do campo, tão pouco – mas sabem que é
assim, porque sempre foi. O citadino, formatado pelas grelhas da
eficácia com que lhe tolhem o pensamento e o raciocínio em busca da
máxima rendibilidade dos proveitos, no instante imediato aplica
esses mesmos filtros redutores ao que desconhece e não compreende; e
dita sentença. Como se fôra juiz supremo! Ultrapassada a fronteira
da racionalidade, os limites para além dos quais o citadino se
despista do entendimento, o mundo e os seus fenômenos tornam-se
incompreensíveis se não, mesmo, absurdos. Pois que o citadino não
percebe como hão-de as vacas regressar à corte depois de um dia no
pasto; sózinhas; sempre pelo caminho de volta. Como raio é isto
possível?, vocifera, pragueja, mais pela percepção da sua
ignorância das coisas do campo, que pelo fenômeno em si. E o homem
do campo, também sem saber a resposta, diz: Elas não se perdem. Mas
que é assim, é!
E, nesta resposta, está
a sabedoria de quem não dita lei em fórmulas de excel; ou leitura
de relatórios; ou análise de extractos e tanta, tanta coisa mais
com que enchemos a cabeça e ocupamos a atenção fingindo
sagacidade, simulando inteligência. É a resposta de quem não se
desligou dos ritmos da Terra e compreende os seus sentidos, e sabe
dos ventos e das chuvas; das colheitas e dos bichos – sabe que é
assim, porque sempre foi!
E as vacas, as cabras, as
ovelhas, todas, hão-de continuar a regressar à corte pelo caminho
de volta, todos os dias que saírem para o pasto sem que alguém as
ordene.
Boa! Assim é que é! É assim que é! Uma boa prosa! Abraço, Paulo.
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