domingo, 19 de outubro de 2014

O Alvão é já ali! - conclusão


Há coisas do campo que o citadino não entende; e os do campo, tão pouco – mas sabem que é assim, porque sempre foi. O citadino, formatado pelas grelhas da eficácia com que lhe tolhem o pensamento e o raciocínio em busca da máxima rendibilidade dos proveitos, no instante imediato aplica esses mesmos filtros redutores ao que desconhece e não compreende; e dita sentença. Como se fôra juiz supremo! Ultrapassada a fronteira da racionalidade, os limites para além dos quais o citadino se despista do entendimento, o mundo e os seus fenômenos tornam-se incompreensíveis se não, mesmo, absurdos. Pois que o citadino não percebe como hão-de as vacas regressar à corte depois de um dia no pasto; sózinhas; sempre pelo caminho de volta. Como raio é isto possível?, vocifera, pragueja, mais pela percepção da sua ignorância das coisas do campo, que pelo fenômeno em si. E o homem do campo, também sem saber a resposta, diz: Elas não se perdem. Mas que é assim, é!
 
E, nesta resposta, está a sabedoria de quem não dita lei em fórmulas de excel; ou leitura de relatórios; ou análise de extractos e tanta, tanta coisa mais com que enchemos a cabeça e ocupamos a atenção fingindo sagacidade, simulando inteligência. É a resposta de quem não se desligou dos ritmos da Terra e compreende os seus sentidos, e sabe dos ventos e das chuvas; das colheitas e dos bichos – sabe que é assim, porque sempre foi!
 
E as vacas, as cabras, as ovelhas, todas, hão-de continuar a regressar à corte pelo caminho de volta, todos os dias que saírem para o pasto sem que alguém as ordene.
 
É assim que é!

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