segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Missão cumprida e comprida!

Quando o futebol se jogava ao domingo, passava na RTP1 um programa chamado, precisamente...”Domingo desportivo”, que escalpelizava a jornada futebolistica: as vitórias, as derrotas, os empates, os golos marcados, os golos sofridos....enfim, tudo ao pormenor para deleite do mais fanático do pontapé na bola.
Dessa época, ficou famoso o chavão usado pelo correspodente da Madeira que, invariavelmente, começava a narração do resumo sempre da mesma forma: “ Em tarde de intensa canícula...”, e prosseguia para a narração dos momentos chave da partida.
Pois no sábado, em dia de intensa pluviosodade, meia dúzia mais um de indomáveis bravos do pelotão acercaram-se de Macieira e, sem piedade, tomaram de assalto o morro a caminho de Alvadia, indiferentes ao forte vento gélido, quase glacial, e à torrente impetuosa dos aguaceiros, qual dilúvio divino castigando os pecadores.
Sem temores e mais rápido do que o tempo que leva a dizer “Kinshasa”, vencerem a vertente escarpada e quase impossível de tratar; “quase”, pois que o impossível é a regra.
Munidos apenas da sua vontade férrea, atravessaram o perigoso planalto eivado de feras e outras bestas de impossível descrição e ainda por catalogar nos compêndios zoológicos do mundo; doenças e cataclismos psicológicos capazes de vergar, até, a vontade do aço, mas não a dos Bravos: indómita, segura e hercúlea.
Assim se escreve a história e os anais da bravura, as páginas douradas da gesta humana que extravazam a sua mera condição e ascendem ao Olimpo da eternidade.
Sem parança, palmilharam dezenas...- que digo eu: centenas!- de quilómetros em busca do inatingível apenas pela obrigação que lhes queima os ossos, pois que brotam do mais fundo da alma reminiscências do passado Atlante.
À frente a abrir caminho, a desvendar veredas por entre a pedra e o matagal, munido da mais moderna parafernália tecnológica com ligação directa ao mundo virtual é pelo mapa de papel que vamos, guiado pelo seu instinto apurado em mil e uma missões de indízivel perigo: JOAQUIM.
Qual sombra que faz sombra a si mesma, de movimentações indetectáveis ao mais apurado dos sentidos, MARIA JOSÉ segue o irmão caminhando um palmo acima do solo: sem rasto, sem ruído, como se não existisse, para, no momento certo, surgir diante da presa pronta a cumprir a sua missão.
Do pelotão de franco-atiradores destaque para FERREIRA: atento aos pormenores, é capaz de detectar uma cor onde ela não existe; um animal em passagem sorrateira e camuflada; um caminho que ninguém usa; PEREIRA DA SILVA: especialista em tiro de repetição, é um falso lento capaz de surpreender a guarda avançada do adversário em terra de ninguém; HORÁCIO: valente e decidido, hoje e sempre, leão de muitas lutas, não se deixa abater pelas mazelas que os anos de combate lhe deixaram de herança. Agora, com nova arma, é ainda mais letal; JORGE: observador, estuda afincadamente a leitura dos mapas e geo-referências para, se necessário, optar pelo instinto como factor de decisão. Especialista em sinais de fumo; PAULO: franco-atirador de reconhecidos méritos esqueceu-se de carregar a arma na noite anterior e não trouxe um recuerdo de amostra.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Calhou, ser ao calhas!


E porque as leituras são ao calhas, calha que estas são como as cerejas, aos molhos, aos cachos; guiou-me a mão para a estante aonde repousava a “Etnografia transmontana, crenças e tradições de Barroso”, que o Pª. Fontes fez editar em 2 volumes preciosos na Editorial Domingos Barreira. Socorro-me da 3ª edição, e a pág.s. 218 e 219 leio:

O nosso povo sabe caracterizar muito bem os seus vizinhos. Um defeito comum, um erro conhecido, um hábito generalizado, um facto histórico ou lendário é capaz de ser motivo suficiente para apodar todos os do mesmo povo com o mesmo nome.

Seria valioso e importante descrever e raciocinar sobre as alcunhas de cada terra. Ajudavam-nos a conhecer o feitio, o valor, os podres e as qualidades de cada aldeia de Barroso. O povo sabe muito bem a razão de tais nomeadas, pois foi ele, com veia de poeta, que baptizou assim os seus vizinhos. (…)

Algumas aldeias tem mais que um nome ou alcunha. Conforme o gosto de quem os nomeia e a tradição de cada um. Os de uma terra são capazes de chamar aos de Solveira escorna-cruzes e outros já lhes chamam tarouqueiros. Os da Vila da Ponte gostam de se chamar fidalguinhos, mas os vizinhos já lhes chamam chavelheiros. Não está esgotado este capítulo. (…) Estas nomeadas, ou lengalenga como outros lhe chamam, usam-se quando se quer espezinhar uma pessoa. Então aplica-se-lhe o nome que lhe compete. Raramente se leva a mal.

Nomeadas das terras e gentes:

Côdeas de Pai Afonso,

Carquejeiros da Serra,

Tolos de Aquimbró,

Cachorros do Telhado,

Cornelinhos das Alturas,

Arre-burro das Quintas

Futriqueiros das Boticas”

Aínda náo está encerrado este capítulo; cá voltarei!

sábado, 25 de outubro de 2014

Ainda as leituras ao calhas!

Valendo-me, ainda, da preciosa ajuda do “Dicionário do falar de Trás-os-montes e Alto Douro” transcrevo os termos por que são conhecidos os habitantes de algumas das localidades desse mundo de pedras: os de Sendim da ribeira, conc. de Alfândega da Fé são conhecidos por Amarelos; os Arrebita, são as gentes de Carvalhelhos, e os Arrebita-ó-gacho, os da freguesia de Viade, no Barroso. Ainda no Barroso, encontramos os Arreguichas, em Covelães; e os Arre-burro, de Quintas. Em Refega, Bragança, vivem os Arraiolos, e os Barrigas-magras param em Mós, Moncorvo. Da mesma família encontramos os Cagados, em Castelo, Alfândega da Fé, os Caga-peras, em Cortiço, Barroso, e os Caga-tascas da Portela, em Bragança. Da classe dos matadores, encontramos os Mata-cristos, como conhecidos os da Póvoa, em Miranda do Douro; e os Mata-lebres, as gentes de Pai Afonso, no Barroso. Em Alfândega da Fé, os de Gouveia são os Beatos, e os de Babe, em Bragança, são os Bazófas. Também em Bragança, em Rabal, moram os Passa-pontes, e em Espinhosela, os Orelhudos.
Prometo voltar ao assunto!


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Leituras ao calhas

Ao calhas, manuseio o "Dicionário do falar de Trás-os-montes e Alto Douro" de Vitor Fernando Barros e publicado pela Ed. Colibri, e quedo-me a pags. 177: Fazer versos da gata parida, lá para os lagos de Lagoaça e Mogadouro, é assim a modos de alguém fazer coisas que não lembram ao diabo; para as bandas de Figueira de Castelo Rodrigo, uma indilgadeira, por estranho que possa parecer, é uma mulher activa, desembaraçada, diligente - vem isto, a páginas 209; um pouco mais à frente, na 216, ficamos a saber que um juco é uma mulher de mau porte, prostituta, isto, nas palavras dos de Lagoaça. Em Alijó, chamam lambaças aos comilões, gulosos, abrutados - confirma a pág. 220. Por outro lado, os de Mogadouro e Lagoaça têm por hábito chamar de cinisga as raparigas magras e espertas (pág. 116). Em Vila Real, uma récalha é uma rapariga imunda (pág. 302). Para os lados de Moimenta, Vinhais, puxar-lhe os questurelhos é tão somente dar um abanão - pág. 289; e a peseta é a vagina (pág. 276). Ainda por estas zonas, um brocambainas é álguém rude e pouco esperto (pág. 75). Informados somos, a págs. 48, que para os lados de Fornos, um arressuado é alguém que ficou satisfeito após comer; Em Lagoaça, os badamecos são os testículos (pág. 57) e levar um batibardo é uma descompostura, um raspanete.
 
Prometo voltar ao tema, ainda que ao calhas.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

É a outra língua, pá!

"L que bou a cuntar fui-me dito por un belhico, tenerie you por ende ua dúzia d'anhos i, nesse tiempo, inda nun sabie screbir. Al bielho dou-le l tabardilho lougo ne l eimbierno a seguir. La mai desse bielho inda bibiu an Arenal algun tiempo, mas el ya nun coinciu la tierra. Dezie que l tiempo, a las bezes, dá ua buolta cumo ua campana i las pessonas yá nun son las mesmas, Datrás habie muitos lugaricos que zaparecien. Arenal era un desses lugaricos, perdidos nua buolta de l tiempo."

"Las cuntas de Tiu Jouquin" - Francisco Niebro
Ed. Campo das Letras, pág. 39

domingo, 19 de outubro de 2014

O Alvão é já ali! - conclusão


Há coisas do campo que o citadino não entende; e os do campo, tão pouco – mas sabem que é assim, porque sempre foi. O citadino, formatado pelas grelhas da eficácia com que lhe tolhem o pensamento e o raciocínio em busca da máxima rendibilidade dos proveitos, no instante imediato aplica esses mesmos filtros redutores ao que desconhece e não compreende; e dita sentença. Como se fôra juiz supremo! Ultrapassada a fronteira da racionalidade, os limites para além dos quais o citadino se despista do entendimento, o mundo e os seus fenômenos tornam-se incompreensíveis se não, mesmo, absurdos. Pois que o citadino não percebe como hão-de as vacas regressar à corte depois de um dia no pasto; sózinhas; sempre pelo caminho de volta. Como raio é isto possível?, vocifera, pragueja, mais pela percepção da sua ignorância das coisas do campo, que pelo fenômeno em si. E o homem do campo, também sem saber a resposta, diz: Elas não se perdem. Mas que é assim, é!
 
E, nesta resposta, está a sabedoria de quem não dita lei em fórmulas de excel; ou leitura de relatórios; ou análise de extractos e tanta, tanta coisa mais com que enchemos a cabeça e ocupamos a atenção fingindo sagacidade, simulando inteligência. É a resposta de quem não se desligou dos ritmos da Terra e compreende os seus sentidos, e sabe dos ventos e das chuvas; das colheitas e dos bichos – sabe que é assim, porque sempre foi!
 
E as vacas, as cabras, as ovelhas, todas, hão-de continuar a regressar à corte pelo caminho de volta, todos os dias que saírem para o pasto sem que alguém as ordene.
 
É assim que é!

sábado, 18 de outubro de 2014

O Alvão é já ali! - parte 1

Quem diria que da cabeça do Sr. Armindo da Carvalho, insigne pastor lá para os lados de Macieira, Ribeira de Pena, serranias altaneiras do Alvão, emergiria luzente e impante um boné, desses que usam os gaiatos da escola quer faça chuva ou sol, amarelo de cor e amarfanhado de forma, aonde foi printado - mesmo assim!, à modernaça – o logótipo do Centro Social da Foz do Douro.
Ou, isto anda tudo ligado e as teorias da conspiração fazem sentido (curiosamente, o que fez sentido foi a teoria da constipação; mas nada de tão grave que a mézinha caseira de aguardente e mel não curasse – pois: se até alevanta mortos!); ou, o país é mais pequeno que uma paróquia.
Inclino-me, sem cair, para a 2ª hipótese. As teorias nunca foram o meu forte.
Mas voltemos à personagem principal, que para isso estamos cá: dar notícia do que espanta o citadino nestas terras de pedra. Fá-lo-ei, contudo, em modo fw, à laia de manuseamento de leitor de cassetes, apressando o correr da fita em busca do início daquela música especial que não cansamos ouvir (bolas!, usei o tempo presente?!?!?! O que se passa comigo?).
Encontrada a calçada que vencia a encosta, a custo que por estas bandas não se brinca, upa!, upa! pés a caminho que para trás fica o morto – inventei agora, mas acho que tem certo je ne sais quoi de dito popular (Ok!: popularucho). Garbosos no palmilhar, pedimos meças a qualquer aventureiro de Everest, tratador de crocodilos, ou caça-fantasmas. Não há escolhos no caminho, perigo na travessia ou avantesma que nos atrase. E assim foi, não houvéssemos esperado pelo Sr. Armindo da Carvalha, e ele nunca nos teria alcançado: cumpridos que estavam dois terços da subida, decidimos pasmar paisagem e aguardar a ceagada custosa do pobre homem, mai-lo seu rebanho. Com os bofes pela boca, tememos pela sua saúde!

(cont.)

domingo, 5 de outubro de 2014

A serra a nossos pés

O fim de semana adivinhava-se que chegaria mais cedo do que o previsto, no entanto à ultima da hora e como sempre habitual, eis que surge a notícia de que profissionalmente é necessário prolongar o normal horário de trabalho. A noite vai longa e o amanhecer de Sábado é ainda uma miragem. Em conversa com um dos membros do grupo (Trilhos e Petiscos) acertam-se os ultimos pormenores, tendo em conta a necessidade de se reunir as "tropas" no local do costume, para mais uma jornada de  fotografia, trilhos e petiscos no Gerês. Após poucas horas de sono eis então que nos encontramos e rapidamente nos colocamos a caminho. Tudo o que havia sido problema durante a semana, estava agora para trás e o entusiasmo crescia a cada curva da estrada.
Chegamos! Mochilas saltam da mala do carro, máquinas fotográficas pulam dos bancos. Calçam-se as botas de montanha, olha-se para o "tempo que faz" e diz-se:
- Hoje vai chover...ai vai...vai! 
- Não! Soletra outro! Hoje vai estar um bom dia...mais logo poderá ser que chova...mas só mais logo!
Deduzi que estava a referir-se ao vinho que iriamos provar no manjar que se adivinhava.

Uma hora depois e já em plena serrania, numa encruzilhada do caminho, um problema:
Alguém resolveu ir pelo caminho errado! Alerta!
Mas quem? - Perguntei eu... Imaginei que teria sido alguém, que tal como todos nós se deixa perder pelas maravilhas da serra...E foi...já habitual! 
- Nada que não se resolva, imaginei eu! E resolveu-se!

Terminado que foi este imbróglio, as botas estão novamente no trilho certo. Olha-se para a paisagem, foca-se o olhar através da objectiva e faz-se um "clic"...dois "clics"...uma dúzia de "clics"...imensos "clics"! A ideia é regressar a casa mais rico (como me disse uma vez o amigo Jorge Sousa). E não é que ele tem razão? Tem pois! Levamos para casa as recordações da serra, das suas paisagens, das dificuldades do percurso e da amizade dos que partilham o caminho.

O dia já vai longo e as pernas pesam, de máquina fotográfica em punho, pronto para disparar ...e a anunciada chuva....nem vê-la! Mas era "sol de pouca dura"! O trilho marcava já cerca de 12 km e mais cedo do que o habitual avistava-se a aldeia de onde partíramos, manhã cedo. Num sobressalto, um olhar para trás e a serra vestia-se de negro! Sim...quem anunciou a chuva, estava certo! 
Acelera-se o passo, bebe-se a ultima gota de água que ainda resta na garrafa e tiram-se as ultimas fotografias. Não é que o rolo tenha terminado! Não! Neste mundo onde o digital prevalece, não há limites! Basta que se tenha mais um cartão pronto para substituição. E havia! Agora para tentar fotografar um ou outro relâmpago. Coisa rara e dificil!

Finalmente a aldeia está a nosso pés e só agora se pode olhar "para trás" e dizer a nós mesmos:
-Valeu a pena! Valeu por cada metro percorrido! Valeu por cada "clic"...Valeu por cada conversa entre amigos, sem compromisso algum! Valeu por cada olhar! E valeu pelo espirito de grupo.

Minutos depois, já estavamos a caminho, agora de regresso a casa, sem antes parar para um jantar onde os produtos regionais fossem verificados com toda a intensidade. Cansados, mas alegres e com a forte convicção de que a melhor maneira para desafiar o stress do dia a dia, é contactar com a natureza. É perder-se na serra, desimpedir o olhar e clarificar a vista até onde ela nos pode levar.

Sem lenço, nem dcumento


O vídeo é o elogio da preguiça; está lá tudo: som, movimento, cor...e o escriba descansa.

PS: o título da posta é, claramente visto, pedido emprestado ao Sr. Caetano Veloso - mal possa, devolvo (vão procurar, vão, se não conhecem!)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"Não soltes o pássaro se a arma estiver carregada" - parte II

"Busca e encontrarás", prédica biblica soando como os gongos da Samotrácia livre ao espírito clarividente da alcateia, tal como Lau morto apareceu a seu irmão Júe, que desposou a viúva e viveu 30 anos sózinho na montanha, revelando-lhe em sonhos os mistérios incomensuráveis do que já foi e ainda está por vir - o eterno retorno reclamado pelo filósofo.
O oráculo é a voz do indízivel sem princípio nem fim; corpo ou substância - Oh, maleita do espírito que me corrompes a carne, parasitas-me!
Habitamos o tempo e dele não sabemos se não o fim; eis que a morte chega. A noite sucede ao dia e o manto negro distendido abarca, voraz, inclemente, a réstia de luz, infíma nesga esmaecida da suprema manifestação.
Transito entre dois pontos e a consciência pondera abandonar-me quando um enxame de cachorros quente a voar em formação de ataque faz uma tangente à minha nuca e logo se transforma numa alheira gigante de dentro da qual saltam pedaços de batata a murro assada no forno em alegre cavaqueira, discutindo o programa da noite anterior, as notícias mais recentes, a política do reino; forço a razão, mas esta mais não é que uma garrafa de vinho a tentar-me, sedento!
Retornemos a casa que o Rio Tinto de sangue dos irmão de Almançor nos dará resposta.
O nome é biblico, profeta do antigo testamento – a fiabilidade parece garantida; a rua, esconsa, pois que de urbe pobre se trata; e modesta a casota, não mais que poucas mesas para repasto.
Das virtudes alquimicas do cozinheiro se abstém o escriturário de lavrar termo; mister de que desconhece as manhas. Prefere, isso sim, abocanhar a memória no naco de pernil que lhe coube em sorte, rodeá-lo (enfeitar, será apropriado termo!) das lascas de vitela polvilhadas a batata assada e salada de tomate, alface e outras iguarias de igual calibre devidamente temperadas.
Do vinho, néctar dos deuses, exceptua-se o comentário por desnecessário. Coisas há no mundo que apenas carecem de nomeação – o vinho, p.ex.
Sobejasse espaço em minhas entranhas e menos sobraria para as galinhas. Contudo, aínda dirimi forças com uma rabanada fora de época, mas saborosa no seu leito de molho um tudo nada líquido em demasia, a quem levei por vencida.
Por fim, os Matateus assustaram-me e assumi a incapacidade em exceder os limites – fonte insuspeita assegurou-me da excelência dos referidos.
 
Merece re-visita! 
 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

“Não soltes o pássaro se a arma estiver carregada” – parte I


Manda a prudência olho vivo e pé ligeiro, pois que arroubos de descarada impetuosidade juvenil há muito são água no deserto, notas na carteira, ou elegância em silhueta para as bandas do escriba.
Preâmbulo arguido passemos aos factos em suave narrativa, que assim se obriga por mor de entendimento superior das leis regentes da vontade humana, plebeiamente denominada PREGUIÇA
Do esplendor que estes olhinhos vêm não pode a verve curta e acanhada de um qualquer intrometido de pena em punho rabiscar papeleta, assim a modos de tratado académico, o arrepanhado de termos, frases e alocuções compostas por um espírito assoberbado e absorto no Belo que da pedraria primitiva emana.
Qual boi a olhar para um palácio.
É na encosta (a que se encosta) que o caminho faz sentido e o rumo se perde; sem bússola ou norte, pico e vale são parte do mesmo mistério, do intraduzível, e todos os lugares são iguais por diferença, pois que a manta, a dos rigores da invernia, ora curta, ora extensa; ou a rede do pescador que se une no nó primeiro e último e a todos os outros nós, também eles primeiro e último, sem perder dimensão, revelam o acto criador, a multiplicidade do momento primeiro, o paradoxo do criador que da peça única fez todo o resto diverso, mas conforme ao original.
Assim manifestada a incapacidade da diligência que se impunha, resta, mais por vergonha que por despeito de virgem ofendida nas suas virtudes – é esperança que não virtuais -, a tradução do horror, da labareda final que precederá o Juízo do mesmo tom, da bela Roma e sua queda aos bárbaros.
Pompeia sob as cinzas do Vesúvio.
Perambulando por Terras de Bouro ajaezado no burro mecânico, émulo movente de abrigo confortável cuja descrição pormenorizada de seus feitos daria a estocada de morte no parco interesse deste insonso rabiscado, buscava moçoila fogosa e prendada que, das suas artes, ousasse manietar-nos o palato, à laia de cachorro pela coleira, prodigalizando com lauto e generoso repasto a amabilidade, bem parecer e porte distinto de ilustres visitantes.
Pois que de terra abençoada pela beleza não se encontrava se não sujas carantonhas de pé descalço? E ermos lugares de bicharia infestados? Ó, rara avis in terris!
Reclamava o orgânico de cada um, ainda que de modo diverso se manifestasse – serei capaz de assegurar que o meu estômago devorou o fígado, seu parceiro, ou modernamente roommate, na pré-protuberante saliência do meu ventre de fêmea grávida de 3 meses, em processo autofágico e sugestivo do terror mais maléfico de que os incréus seriam capaz quando perseguiam Tarzan pela selva fora, naquelas tardes infindas de domingo comigo sentado no chão da sala a comer pão com marmelada acompanhado de leite com Nesquik, assistindo à sessão da tarde em preto e branco televisivo.      

 (continua)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Do belo mundo composto de mudança

Rua de S. Bento da Vitória
Porto
 
Assunto: Tasca Gourmet? Só Tasca? Só Gourmet? Ambas?
 
Questão assaz pertinente: será um paradoxo? Um pleonasmo?
 
Inclinando-me para a contradição, direi que o requinte exígivel ao Gourmet choca frontalmente com o pendor popular da tasca, do petisco e da malga de tinto borra-beiços (inclusivé, de cariz afectivo, até!, por oposição a uma certa artificialidade da coisa fina e chique...e cara!!! que é o gourmet - para além de ser um galicismo que, incorrendo rapidamente na degeneração do seu pedigree, ameaça ser truncado por algo parecido com "gurméte", "grumé" ou "grrumê"); logo, não bate a bota com a perdigota!, a vassoura com o soalho!, ou o lapís com a afia.
 
Considerando o pleonasmo (se levada em atenção a deambulação peripatética por alguns dos becos mal afamados, e outros assim-assim, desta cidade e de outras - sem desprimor para vilas, aldeias, localidades e lugares), posso dizer, afirmar, corroborar, partilhar, informar, sentenciar:
 
 SE É TASCA, É GOURMET!
 
Dada a candência do tema, alerto para a necessidade de um debate sério e aprofundado na tasca mais próxima. 

Terras do meu país

Por detrás do balcão, brandiu a garrafa à nossa frente e disse: - é como a bebida: Macieira.
Mais assegurou que bastava adicionar ao destinatário Ribeira de Pena, Vila Real, e o carteiro deixava lá direitinho o correio.
Quem entender por estranho o nome da terra à míngua das ditas cujas nos terrenos de cultivo cicundantes à aldeia, então refresque-se com alguns exemplos apanhados de um qualquer guia ou atlas mais completo e à mão de semear:
Anhões, Badim, Bico, Labruja, Alfarela de Jales, Abaças, Boelhe, Benlhevai, Aboim das Choças, Bunheiro, Serapicos, Bubadela, Unhos, Arco da Calheta, Arrouquelas, Pocariça, Alcongosta, Sobral de Papízios, Bordonhos, Abiul, Souto da Carpalhosa, Brinches, Montoito, Juromenha, Canhestros, Ranhados, Fataunços, Bugalhos, Minhocal.

São todas elas terras de Portugal.
Prometo voltar ao assunto.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

À guisa de intróito...

...e na falta de inspiração, recorro ao eterno Miguel Torga e aos seus diários para arrancar esta prosa deliciosa:
 
"Gerês, bouça da Mó, 23 de Julho
- vai daqui para Roma sem parar...- garantiu-me o guarda florestal, a mostrar-me pela serra fora o piso aliciante da geira romana.
- vai...vai...- respondi-he eu, a tirar da esperança universal de que todos os caminhos vão dar a Roma uma filosofia sem complicações.
O rio Homem (que assombroso nome para um rio!) em baixo, passava no seu calvário de carne e osso, do lado de lá, a serra Amarela erguia-se abrupta com as suas casarotas enigmáticas no alto; sobre a minha cabeça, hirto, pendia o pico de Cabril; de maneira que nenhuma metafísica era possível ali.
- E que tal esta solidão? - quis saber eu.
- Triste...- respondeu o eco de um queixume. - Sempre aqui neste ermo...
«Vai daqui a Roma sem parar», pus-me a reflectir outra vez. e percebi então, de repente, a sedução mágica dos caminhos e o desespero amargo das sentinelas."
in Diário - III
3ª edição, 1973
pags.104 e 105 

A sedução mágica dos caminhos que também há de ter seduzido Fernando Pessoa quando afirmou "viajar é perder países", certamente atento ao desespero amargo das sentinelas a guardar estradas que vão!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Hoje, 15-08-2014 e após mais uma caminhada no Parque Natural da Serra do Alvão, em conversa de regresso ao Porto, surgiu a ideia de se criar este blog. Somos um grupo de amigos que têm em comum o gosto pelas caminhadas em espaços naturais e ao mesmo tempo, gostamos imenso de saborear os petiscos de cada local por onde passamos. Eis pois que surge o nome "Trilhos e Petiscos". É assim mesmo por esta ordem. Primeiro percorremos em média cerca de 14 Km e só depois provamos os petiscos de cada terra por onde passamos. De hoje em diante e sempre que nos juntarmos para efectuar mais um percurso, iremos dar a conhecer os locais por onde passamos, bem como os petiscos que provamos.