A curiosidade pela cultura popular leva-me, há anos, a empilhar recortes de jornal ou revista sobre o tema. Festas, festarolas e arraiais; do jogo do pau ao jogo da malha; da Feira da Foda, em Monção, aos cascateiros de Avintes, é fina a malha do que me interessa.
Neste tempo de globalização - é uma frase mais do que estafada, mas...- são as particularidades que hão de fazer valer o mote da distinção e singularidade nas manifestações culturais e traçar a união enquanto país; se esquecermos isto, rapidamente não passaremos de uma memória de museu enquanto povo e unidade cultural.
Quando estudei sociologia, das primeiras coisas que aprendi foi a definição (se é que se pode falar assim!) de cultura: tudo aquilo que o Homem acrescenta à natureza. Todas as manifestações humanas são cultura, enquanto relação com o natural. Quantos comportamentos que nos passam por corriqueiros na sua análise superficial não provêm de manifestações antiquíssimas, seculares, milenares, e às quais não prestámos a devida atenção, a devida vénia, atrapalhados que estamos em produzir, criar, cumprir apenas o presente na sua vacuidade?
Este meu esforço de recolecta para memória futura, de resgate ao esquecimento numa folha de papel, serve de estrume (a imagem não é bonita mas, dado o contexto, mais apropriada que "fertilizante") a esta natural curiosidade que me anima.
Os três recortes seguintes fazem parte desse manancial de informação - factos, curiosidades e outros - que, espalhados pela casa numa ordem desordenada, fazem de mim um pequeno farrapeiro.
30/8/2013, Jornal de Notícias:
A devoção a S. João d'Arga que movia serra acima milhares de devotos tem vindo a ser substituída pela romaria, com destino ao mesmo lugar, mas substituindo a adoração pela "...concertina e o cabrito assado..." - o religioso deu lugar ao profano. Num dos recortes seguintes, um depoente afirma que "...90% das pessoas não conhecem a capela de São João d'Arga..." para logo de seguida, num momento de franca sinceridade, afirmar que ele próprio havia estado 20 anos sem lá entrar e apenas o ter feito "...porque me esconderam um garrafão de vinho e fui lá procurá-lo."
29/8/2016, Jornal de Notícias:
"Subir a serra a pé e a cantar cantigas brejeiras ao som de concertinas, comer e beber bem e ficar noite dentro a beber mais e a dançar ao redor do mosteiro é, cada vez mais, o espírito da romaria de S. João d'Arga..."
"O meu senhor S. João, /
era um santo velhaco, /
foi à fonte levou três, /
de regresso eram quatro (uma já vinha grávida)"
Manda a tradição que, depois de três voltas à capela, se dê uma esmola ao santo e ao diabo," há que dar nem que seja um cêntimo" para não incomodar muito, quer na vida, quer na romaria. Diz que gosta de moedas pretas, o demo. Disso mesmo ficou convencida uma caminheira, de acordo com o relato: visitando São João d'Arga, não cumpriu o ritual de oferta ao Cão-Tinhoso por falta de moedas. De regresso a casa, deu por falta da carteira - tinha ficado na capela! "Foi como quem diz: não me dás esmola, tiro-te a carteira." Escusado será dizer que regressou ao templo com o bolso cheio de moedas pretas - "Não fosse o diabo tecê-las.".
No canto inferior esquerdo, o artesão barcelense João Ferreira a quem, há anos, compro Santo Antónios.
Para os interessados no tema, deixo uma sugestão de leitura assaz interessante sobre as manifestações culturais de índole religioso e popular: A religião popular portuguesa, de Moisés Espírito Santo - ed. Assírio e Alvim.
Tenho-me servido bastante deste autêntico manual de compreensão e valorização da cultura popular na tentativa de apreender o máximo dos locais aonde vou, sobretudo, nas andanças pelas serranias a que vamos dando gasto às solas. Por quantas "Senhora do Monte" não já passámos?; e os "ritos verbais" que ainda nos surpreendem na boca de algum aldeão?; e as "pedras mágicas" que favorecem a fertilidade ou curam enfermos? É uma leitura extraordinária.
Eu prefiro o papel, mas quem optar por esta via,
também vai bem servido.

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