O que há de "invisível" naquilo que é o corriqueiro passar dos dias, na sua espuma? O que nos leva a seguir determinado padrão de comportamento perante uma qualquer ocorrência e agir de acordo a um impulso que, pressentimos, levará a tal acção? Por que nos comportámos de "certa maneira" que parece obedecer a um roteiro já escrito diante de uma, aparente, novidade? Quanto carregámos em nós de tradição, superstição, legado milenar de medos e receios ancestrais que o avanço tecnológico e positivista não conseguiu suprimir? E quantas vezes parámos para pensar nisso a sério, sem preconceito, implicância ou hostilidade, aceitando sem rebuço a sentença popular?
A riqueza de "baixar ao povo", expressão grata à narrativa politiqueira, a que alguém logo contrapôs, "subir ao povo", permite alcançar um entendimento outro relacionado às vivências mais próximas e simples do ancestral vínculo humano à natureza.
Do mito ao rito, como duas faces de uma mesma realidade humana. Neste enfoque, leio deliciado Alexandre Perafita, investigador nestas áreas da tradição popular, com um profundo trabalho de recolha e divulgação do património imaterial.
Neste sentido, carrego para o espaço dois recortes de textos da autoria do dito autor cuja leitura, versando o "patuá" da minha introdução, é deliciosa.
17/08/2018, Jornal de Notícias
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...e de como ele se fazia pagar à laia de portagem para dar franquia à outra margem!
A memória do Mafarrico ecoa, sobretudo, na lembrança das madrugadas de 1 de Maio, quando toda a frincha, grande ou pequena; na vertical ou na sua perpendicular; na madeira ou na pedra, recebia em depósito um ramo de giesta, as Maias, que tinham o condão de manter o dito cujo arredado do interior das habitações.
Para leituras de outro fôlego, os 3 volumes das recolhas de narrativas orais da zona alargada do Douro. Lêem-se como pequenas histórias que, nalguns casos, sensibilizam pela simplicidade aparente da sua trama; e do que fica, a sensação desconfiada de conhecermos aqueles enredos, arrancados à memória profunda, bem profunda, de nós fundação.
Património Imaterial do Douro - vol. I / II / III, Âncora Editora

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