sexta-feira, 17 de abril de 2020

Das linhas imaginárias

Quando a realidade supera a ficção estamos em presença de um daqueles factos que fazem abrir a boca de espanto que, resgatados ao baú das improbabilidades, municiam os argumentistas de material de primeira-apanha para o seu mister.

A medida de confinamento concelhio decretada pelo Estado, no âmbito da contenção provocada
pelo Covid-19, não é perfeita nem o pode ser; atendo-nos apenas à questão prática, o território é vasto e disperso na sua ocupação e qualquer acção de raio generalizado iria, muito provavelmente, esbarrar numa qualquer peculiaridade que não impediria a realização do plano mais abrangente, tal como decidido - e esbarrou, claro! 

Em Vale do Poço, "aldeia encravada na zona de serra, na margem esquerda do Guadiana", o pânico andou à solta por entre os seus pacatos e ordeiros 50 habitantes na tentativa de cumprir as demandas das forças da ordem. Por via do dito plano que impediu a circulação entre concelhos, o dilema das gentes da terra impôs-se, qual Adamastor provocando dúvida e desconfiança, "com a população sempre a olhar por cima do ombro" não fosse a autoridade subitamente aparecer, pois se a "rua principal está dividida entre Mértola e Serpa"! 

De um lado, Mértola, as mercearias, a oficina de automóveis e até o take-away da restauração; do outro, "ficam os correios, a casa mortuária, a serralharia e a queijaria". 

Mas como em qualquer argumento digno desse nome, a pierre de touche apresenta-se-nos impante, descoroçoante na forma e feitio como nos tira toda e qualquer força reactiva, sugando ávida a ínfima gota de ânimo que ainda nos sirva de candeia: a gasolineira fica na "E.N. 265, que liga Mértola a Serpa", onde se abastecem "os condutores da aldeia e lugares de ambos os concelhos".  

10/04/2020, Jornal de Notícias





Esta coisa das fronteiras é matéria chata, peganhenta, não deslarga;  sejam elas físicas, aparentes ou apenas sugeridas, arrastam um sentido de impedimento a cujo respeito devemos sempre obediência sob pena do opóbrio do pecado.

E eu, por não gostar de impedimentos...ou por ser pecador...ou por simples desfastio, lembrei-me de um certo dia, lá para os lados de Pitões das Júnias, bem juntinho à linha de fronteira imaginária balizada pelos marcos de granito, na companhia da tropa costumeira, haver ido e vindo 27 vezes à Espanha em menos de 10 minutos - contrabandistas do meu pais: julgai-vos vingados!

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