sexta-feira, 10 de abril de 2020

O Tardo

Ainda em torno destas andanças junto da cultura popular e de como tantas das nossas motivações são por ela manietadas e manipuladas, sem que estejamos seguros do nosso domínio sobre estas "forças" invisíveis - embora o neguemos -, lembrei-me do TARDO.

O TARDO é um ser mitológico do folclore português, a  par de tantos outras, como os OLHARAPOS, as HIRÃS, o TRASGO ou as JANS. 

Nenhum destes elementos é absolutamente exclusivo de uma cultura portuguesa; são, antes, manifestações aportuguesadas de elementos exteriores comuns a povos habitantes de regiões longínquas e que a roda do mundo leva - e traz - num movimento constante. A semelhança entre lendas de países tão distantes, apenas diferindo nos apontamentos locais, é uma constante verificável nos diversos estudos do tema. Embora a uma velocidade bem menor, também a informação corria de um lado para o outro.

Para um esclarecimento atento, cuidado e  inestimável, é imperioso socorrer-me de José Leite de Vasconcelos e deste Tradições Populares de Portugal, um tratado que havia de ser ditado à criancinhas desde o berço para que, mais tarde, não viessem a considerar o Halloween como a cena mais fixe!


Então, a págs. 317, " § 362. O TARDO. a) O Tardo é o Diabo, e anda só de noite. De alguém que costuma andar de noite, diz-se:«Aquele é como o Tardo» (Guimarães). b) O Tardo anda de noite e vai afrontar à cama algumas pessoas, que depois acordam com um grande pesadelo. O Tardo chama-se também o Pesadelo e o Tardo Moleiro (Gondifelos). c) Na Maia um lavrador disse-me o seguinte: « O Tardo num é o Diabo: é um bicho mau tal e qual coma um cachorro piqueno. Se alguém for por um caminho, de noite ou de dia, e o Tardo lhe orinar nas pernas, a pessoa fica intardada, e depois num sabe já p'ronde há-de ir; só c'o tempo é que se desintarda. O Tardo aparece em caisquer caminho; mas nos regatos é pior». d) Em Aveiro parece que lhe chamam Tardo, porque ele vem tarde. e)  Segundo algumas versões, o Tardo é o Lobisomem. f) Gente de Avanca (Douro) disse-me que o Tardo aparece na figura de um gato, cão, cabra (cf. este § em c): uma vez estavam uns homens à noite a conversar e viram um gato no chão a andar muito; de menos em quando, o gato dá um salto, e zanga um grande carvalho que ali estava. Era o tardo - Outra vez uns homens à noite viram uma cabrita; não sei que disseram, e a cabrita saltou por um bajoco (charco) e meteu-se num valo (tapagem natural que cerca um campo), onde por mais que bateram, não foi possível dar com ela. Era também o Tardo.".

Hoje, a estas manifestações chamar-se-iam mitos urbanos. Contudo, ainda me lembro de inúmeras narrativas propagadas pela oralidade sobre "ventos estranhos"; "chapadas à mão-cheia" vindas do escuro; "vozes" na noite.  

Há uns tempos encontrei este precioso documentário sobre o TARDO e outros que tais, realizado por Sérgio Martins, com narrativas que hão - de trazer memória a muitos que as ouçam.






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