quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Vem aí o 22

Boas novas nos chegam do Ilustre decano: SARAVÁ!, Pereira da Silva! SALVE!, o exemplo de inquietação e mobilidade que quero para mim.

O Ilustre, por terras de Vilarinho da Samardã que acolheu o truculento Camilo Castelo Branco, um dos meus eleitos

"Nesta Samardã passei eu os descuidos e as alegrias da infância, na companhia da minha irmã, que ali casou, e aquele padre António de Azevedo, alma de Deus, missionário fervoroso, que me podia ensinar tanto latim, tanta virtude, e só me ensinou princípios de cantochão, os quais me serviam de muito para as acertadas apreciações que eu fiz depois das primas-donas. Bem se via que eu tinha a prenda. Aquele santo homem ignora que eu escrevo novelas, nem cuida que a humanidade gaste o seu dinheiro e tempo a ler histórias estranhas à salvação."

(In Memórias do Cárcere)


Um esteio a pedir meças a outro esteio! Não te cuides, Geodésico, não te cuides...

Como pãezinhos a sair quentinhos pela boca do forno, outro colaborador que se apresta a motivar-nos com a sua sugestão pictográfica: o dinamizador de andanças peripatéticas, conhecer pelo contacto, abraçar o meio.

Contudo, esta é, claramente!, um foto de estúdio: é por demais evidente a falha no chroma key... Boa tentativa, mas continuámos à espera de novas rotas.


São infindáveis as histórias sobre seres fantásticos habitantes das profundezas que, dominando as florestas e os caminhos e os rios, criam atalhos subterrâneos que lhes permitem desaparecer num ápice e aparecer mais à frente iludindo, assim, a vigilância dos perseguidores. Olhando para aquele início de túnel que começa a formar-se a meio do tronco de árvore carcomido, entendo, agora, súbitas aparições da Maria José, lá longe, já a meio da encosta, quando ainda há pouco passei impante por ela. Vou ficar atento...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Vem aí o 22.

Lançado o desafio aos Caros amigos para que se apresentassem numa fotografia, à escolha, mas que significasse a resiliência (palavra tão em voga) que se exige para voltarmos todos juntos às Alice's desta terra.

Assim, o primeiro desafiado a chegar-se à frente, foi o motoqueiro Jorge, amante das duas rodas e 3 rodelas de salpicão, que nos presenteia com o registo fotográfico de um belo passeio de mota. Apesar da parca informação que me chegou, sei-o porque guarda o capacete debaixo da camisola.


Logo após, o Paulo Ferreira brinda-nos com um pedaço de natureza captado pelo seu olhar límpido e cristalino. Deixando em paz batráquios e similares, o célebre fotógrafo-time-lapser-engenheiro-empresário-piloto de drones-videasta-desenhador-formador e devorador de trutas em escabeche, ensaia uma abordagem inovadora e ousada: a interpelação telepática. O perfeito domínio da técnica da imobilização animal: há 3 horas que recebi a foto e o bicho ainda não se mexeu.


Por fim: eu, entre a quinta e o sábado, procurando uma ponte. 


Aguardando resposta pronta e sempre excelsa dos demais convidados, aqui voltarei assim seja necessário.  


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Saudade dos Sabores do Alvão

À laia epopeia futebolista, expôs-se o repasto em formato dérbi acalorado: Cabrito /Cabidela.

Prélio dos mais famosos, renhido - e roído!, até até ao osso - tutano, dirão alguns!, eis a suprema gula manifesta na essência vaporosa dos perfumes exalados, aromas etéreos, celestiais e puríssimos a invadir cada uma das narículas que nos furam as ventas.

O Cabrito, mestre em cabriolas, empinado nas vertentes da serrania, apura a chicha suculenta em dieta de rebentos e tais, furando a pedra dura e resistindo com indómita vontade ao ciclone bravio das terras altas.

O Frango Pito Galo Galinha, duro de carnes, carnes duras picadas no chão, alimento assim disperso e a fazer-se difícil, como mulher-galinha que se afasta aproximando-se do golpe de asa que lhe lançámos.

Mesa redonda, sem início e sem fim, acolhendo 8 comensais num prenúncio de infinito; após o sexto dia da criação e o sétimo de descanso, o oitavo dia representou a conclusão da magna obra e o dealbar de um novo ciclo. 

Eis-me aqui, Senhor, à farta mesa tua. Acolho o tubérculo assado, divina dádiva a desfazer-se cremosa enfeitiçando o palato em sensuais arremedos de sabores. Quase peco em distração ao trincar couve tronchuda, prenuncio rude disfarce de magnanimidade - que altos desígnios enterrados em atroz apodo!

VADE RETRO, SATANA!, que te insinuas langoroso ao meu olhar derretido na calda cabidela: concupiscível, carne, imoderado apetite - ardo no inferno do pecado, bendita gula!

Que jorre o vinho a tintar alvas toalhas! Soro de vida, água transmutada, sejam estas as Bodas de Canã, o milagre inicial, inteiro e limpo (obrigado, Sophia!).

Recolhei-vos ao calor úbere deste templo, fértil, fecundo, e remi pecados na abundância presentada, o excesso oferecido e desinteressado, a Graça que vos acolhe.




terça-feira, 30 de novembro de 2021

O Coiso - história abreviada de um país.

É desbragada a pouca vergonha!

Síntese, para não perder o pé: um comentadeiro habitual na jornada televisiva dos domingos abeirou-se ao precipício do ridículo e, impante, deu o passo em frente - mau grado haver sido apenas em sentido figurado: pouco se perderia e nada havia de restar.

O Coiso, assim chamado por desmerecer apodo mais simpático, até já foi ministro da República portuguesa: " - Pai, sou ministro!" - , portanto, com responsabilidade na governação do País - leia-se Portugal, e não Lisboa.

O Coiso, arvorado em reserva da consciência moral e bons costumes lusos, botou faladura...e disse merda!

Dado o arrojo do discurso - entendido à mais sublime idiotice -, julguei a existência de ondas de choque, maremotos, tsunamis; contudo, apercebo-me, agora, 3 semanas volvidas, que as mesmas não passaram de um marzinho flat, ódio supremo do surfista; um pãozinho sem sal, uma coca-colinha sem gás; um peidinho de bebé.

Talvez ninguém veja o "Espaço de Comentário" do Coiso; ninguém ouça o Coiso; ninguém considere o Coiso - daí a ausência de ondas de choque, carneirinhos - que fosse - no mar calmo e sereno que é o nosso Portugal.

Convido à leitura da crónica do Valter Hugo Mãe na revista do Jornal de Noticias, de 28 passado

https://www.noticiasmagazine.pt/2021/serralves-e-a-edp/cronicas/cidadania-impura/269288/

e riam-se à fartazana, soltem a burra, apreciem e sublinhem o ridículo das considerações do Coiso sobre Serralves.

E divulguem, muito; dispersem o Coiso, coisinha ridícula.

O grave; e triste; e medonho; e pavoroso; e dantesco, é que o Coiso são muitos!

terça-feira, 26 de outubro de 2021

É dos livros.

Muitas vezes tentei a prática diarística nas andanças de bota-poeira, quer dos pequenos percursos, quer das aventuras de vários dias.

Contudo, a minha indisciplina nunca cedeu à vontade de registo destes momentos férteis de recordações e acontecidos - e quantos deles memoráveis!

A nostalgia é uma cena que não me assiste, prefiro a memória construtiva sabendo, de antemão, que todos os fluxos na vida se cruzam e entrecruzam e voltam a cruzar, tecendo uma teia de vivências que se nos acrescentam, se nos somam e se concluem no ínfimo instante do presente que nos separa do momento futuro. Tudo está relacionado com tudo, um emaranhado vívido e vivido.

Não são muitos os exemplos de relato na 1ª pessoa da experiência de caminhada que podemos encontrar editada, em Portugal. O mais abundante são registos para a fotografia, tal como as defesas espalhafatosas de alguns guarda-redes - é o percurso por ambientes exóticos, cujas fotografias mostram a excessiva ocupação por m3 da turistada ocidental; por trilhos inexplorados que nos transformam em verdadeiros Indiana Jones, mas que estão ao alcance de uma reserva nas Agências de Aventura!; ou, roteiros dos segredos mais bem guardados da terrinha, idealizados a partir de uma secretária, de um portátil com acesso à internet e recorrendo ao Google Maps.

Por justiça, é necessário dizer que existem bons exemplos; infelizmente, medram os maus!

Dos bons, recomendo - por experiência própria - os títulos abaixo. 

Entrei a medo na sua leitura; confesso que me moveu mais a curiosidade pela personagem motivadora - Santo António - que pelo relato da façanha. Gato escaldado...


Contudo, o relato descomplexado e sem rodeios; a clareza da escrita e o tom pessoal dos desabafos, aproxima a leitura a tantas memórias nascidas das andanças por aí: o cansaço, a percepção da resposta do corpo ao passar dos anos, o olhar, que se vai afinando - e refinando - para a destruição de património natural, cultural e imaterial; a visão límpida, clara e incisiva do quanto de nós - comunidade - vai ficando soterrada na poeira dos dias por incúria e desmazelo das entidades que haviam de responder por estas perdas.

POR ESTE REINO ACIMA é o relato do percurso de um hipotético caminho seguido por Santo António, saindo de Lisboa a caminho de Coimbra nos inícios do séc. XIII, para ingressar no mosteiro de Santa Cruz, procurando fugir às tentações ociosas de Lisboa. E de como, anos após, motivado pelo exemplo dos 5 franciscanos mártires em Marrocos, se desvincula dos crúzios fazendo-se franciscano.

É interessante tentar estabelecer pontes que nos levem àquele tempo através do relato da passagem pelos - hipotéticos - locais que o Santo terá percorrido, pois não existem fontes suficientes para o estabelecimento do percurso, tal como foi realizado; contudo, foi o A. diligente no sentido de se haver munida de informação bastante para que, deduzindo, atendendo aos vários caprichos naturais, geográficos, sociais e de costumes, pensasse uma rota por aproximação.   


NOS PASSOS DE SANTO ANTÓNIO antecede, no tempo, a escrita de POR ESTE REINO ACIMA, espécie de complemento e, talvez, a 1ª vontade posta no terreno de criação de um percurso Antoniano - espiritual, obviamente - a emular a saída de Lisboa, a caminho de Coimbra, de Fernando António de Bulhões.

O roteiro descrito é mais abrangente, procurando - através do mesmo método lógico-dedutivo, atendendo aos dados disponíveis - viver e experienciar os locais por onde supostamente terá passado o futuro santo.  

De Marrocos, à travessia do Mediterrâneo; das costas da Sicília a Pádua, passando por muitos outros lugares, a narrativa ilustra com meticulosidade bastante os passos de Santo António até ao dia da sua morte.

Balançando o relato entre o passado e o presente, muitas vezes me identifiquei no cardápio de emoções, dúvidas, angústias, medos, hesitações, frustrações e tantas outras particularidades atinentes à condição humana que o A. expressa, assim plasmado numa similitude de experiência.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Fico chateado, é claro que fico chateado! - III

Um inútil é um inútil; e um outro inútil, é um outro inútil. 

O inútil exibe despudoradamente o ridículo da sua condição, não perdendo feição para a exibição oca da aridez que o alimenta.

Qual piranha de dentes aguçados  num rio tropical, assim é o inútil plasmado nas plataformas digitais.

O inútil é insaciável na demonstração da vacuidade, ostentando orgulhoso o pendão imprestável da sua linhagem.

Inexiste, o inútil, o verme, o parasita.

O inútil, quando abandona a pocilga onde resfolega pestilências, aventura-se impante na A2: seguro, conhecedor, decidido - tal como os bois no monte ao fim da tarde no regresso à corte!

É o máximo esplendor do inútil.

Acossado pelo vírus, o inútil reinventa-se na sua insignificância e molda-se influencer: é viajado, é viajante, o inútil; fala Lisboês e veste-se em Paris - é o que diz!

Descobre um país além fronteiras do seu bairro, do seu aido. Reclama para si os louros, o inútil!

O inútil-descobridor-inútil não lê; não ouve; não vê; não sabe; desconhece.

O inútil-descobridor-inútil maneja a inveja, alimenta-se do ranço e fede a peste.

O inútil-descobridor-inútil não partilha pois não há com quem o fazer: apenas ele existe, o inútil.

O inútil-descobridor-inútil vai ao Douro, ao Gerês, ao Minho, maravilha-se consigo próprio por haver descoberto - só ele - uma maravilha de Portugal e, por emérita virtude, partilha na capa de revista o segredo e os incontáveis recantos da região que apreendeu em 2 dias fechado no Spa; ou o roteiro secreto que apenas ele, o inútil, conhece e se dispõe a mostrar em directo televisivo. 

O inútil é a sanguessuga que se alimenta do próprio sangue; o inútil devora as próprias fezes para delas se alimentar; o inútil é autofágico, devora-se a si próprio.

O inútil é a imagem viva de parte deste País; não a maior, mas a mais influente, a mais presente, porque nos chega pela televisão, pela rádio, pelos jornais.

Eu, não preciso do inútil de merda para saber coisas do meu país de Norte a Sul porque sempre me interessei por ele. 

Eu, não preciso do inútil de merda para saber aonde procurar o que me interessa, o que me agrada, o que quero.

Eu, não preciso do inútil de merda para nada; nós, o País inteiro, não precisamos do inútil de merda para nada.

À bardamerda com o inútil!

Vila Nova de Foz Côa


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Ainda do mesmo... - II

Cumprindo a etapa final entre Vila Nova de Foz Côa e Almendra sob um Sol escaldante, avistei no asfalto, à berma esquerda da estrada, um caminhante que, havia dias, cruzara caminho em Gaia, no início da estrada.

Reconheci-o pelo chapéu de abas caídas que protegem as orelhas; ora, portava um girassol preso à mochila, certamente recolhido em qualquer recanto e que lhe conferia um aspecto...singular, pintando o cinzento atroz da estrada de um colorido alegre. E, então, apercebi-me do espanto que hei de ter causado a tantos com que me cruzei andando eu a pé e de mochila às costas em qualquer encosta íngreme ou estrada inclinada, lançando insanáveis dúvidas ao passante cómodo em viatura motorizada. "Mas o que fazem estes malucos debaixo desta chuva grossa, completamente encharcados?", "Qual o prazer em arrastar a sola das botas por quilómetros infindos de piche? Não há comboios?!" 

Ainda está para nascer o pápa-quilómetros que diga nunca haver sentido o peso do olhar de dúvida e incredulidade daqueles com que se cruza!

   

domingo, 10 de outubro de 2021

Recapitulando as férias - I.

"Isto já não é como dantes!", arrisco-me nos trilhos da meia idade exclamando como os "velhos" da altura em que era "jovem", e que me soavam a eternos insatisfeitos da condição humana.

Acelerando o passo, evitando desmaios motivacionais e demandas tardias à consciência, apresso-me a informar que a verve pretende apelar à memória dos tempos outonais de fim de férias e retorno à escola; dos dias mais curtos e dos frios a aparecer sem convite; da troca das roupas no armário para a nova estação e o regresso da nostalgia marcada pelos dias eternos passados na praia e no mar; de como o tempo era elástico, permitindo remendos e mais remendos e mais remendos nos ponteiros do relógio até nos satisfazermos de cansaço.

Hoje, nesta nova estação a que apelido de Verono, meia verão - meia outono, ando meio perdido: não sei se tenho saudades das férias, brilhando o sol como nunca; se tenho saudades das golas levantadas e das folhas das árvores caídas no chão húmido - mas a certeza de ter saudades, já, de sair terra afora: essa insaciável vontade de ir!

Armado em easy-rider de pacotilha, acomodei à razão o feito de galgar asfalto N222 adiante, e saí da terrinha com destino a Almendra.

Duzentos e vinte e seis quilómetros, assim, por extenso: puro deleite visual. O Douro - mesmo que apenas parte dele, o percorrido - é obra de Deus, nas palavras do não crente que sou; é um excesso da natureza, nas palavras de Miguel Torga. 

O que se alcança desta paisagem é o esforço titânico de gerações movidas num sonho comum: arrancar vida da pedra do chão.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

Das trutas do rio Ôlo

Está uma p... à porta!, rompeu célere o aviso e, não vá a maledicência fazer das suas, acossada pelo apodo do local, vulgo Vacaria, apresto-me a informar que a dita cuja era um exemplar vigoroso de fêmea bovina em trabalhos de ruminação...à porta da dita cuja vacaria, ipsis verbis.

O passante casual assustou-se e lançou boca fora o infame boato. 

Posto isto, ocorrência banal e sem valia, apraz-me dizer que o pitéu em forma de truta afogada em molho escabeche, à laia de recompensa emérita em premiação do dia afadigado por serranias do Alvão, caiu que nem ginja em copo de aguardente ou outro semelhante destilado.

Salão de requintado e apurado gosto gastronómico: Sabores do Alvão.

Do resto do dia, registo o sol inclemente, o íngreme penedio e a moderna parte de trás da objectiva, objecto recente e actual da evolucional parafernália electrónica do vigoroso caminhante, M. de sua nomeada.

A conturbada rota que estraçalhou por completo a ampla geografia local, aparente distúrbio orientativo dos caminhantes ao olhar do mais despreparado leitor da Rosa dos Ventos, obedeceu a um intrincado e complexo sistema de preparação e planeamento, ao nível da estrutura militar, e sapiência luzidia das mais esclarecidas deste século.

Por tal, é de bom tom considerar ofensivo e reles - aqui, ao nível do incidente diplomático - a tentação demoníaca, atrevo-me, de atribuir à ausência de denodo o aparente cansaço visível no fim da jornada nos modos fatigados dos Ilustres caminhantes. "O olho vê somente o que a mente está preparada para compreender" - revejo em Henry Bergson o que o espírito teima em dizer-me; por outras palavras, fraca mente em fracos olhos.

Inóspitas paragens requerem destemidos caminhantes.

"Todo começo tem um início" - sabedoria India.

O intrépido caminhante M. em profunda análise das condições agrestes, ásperas e bravias que o esperavam.

O desafio é constante quando, prestes a ser engolidos pela densa e silvestre vegetação, os insignes caminhantes dão mostras do apurado saber e distinto conhecimento da sua função, demarcando um novo e seguro caminho sem mais uso que 10 míseros segundos de tempo.

A Glória  da conquista é apenas para os eleitos.

Tríptico artístico intitulado: "Em busca da fotografia perfeita".

CONFIDENCIALIDADE MÁXIMA
 - nome de código: Trota do rio Ulo

Todo e qualquer intrépido caminhante é conhecedor dos efeitos nefastos causados pelos vapores etílicos na capacidade de concentração de qualquer equipamento fotográfico, nomeadamente a parte de trás, ao nível da focagem correcta. O exemplo é esclarecedor. 


terça-feira, 25 de maio de 2021

Das placas toponímicas.

Curioso, busquei entendimento no dicionário para o vocábulo plasmada nesta placa e que me fez arregalar os olhos de espanto e algum temor, confesso.

Carvalha, Castelo de Paiva

mortório, s.m. préstito fúnebre; enterro; funeral; sítio da seara onde a sementeira não germinou; adj. diz-se do terreno estéril; estar em -: estar em desuso; ficar em -: diz-se de um terreno que ficou por semear; fig. diz-se de um projecto que não chegou a pôr-se em execução . (De morto).

Assim postas as coisas, descanso o receio nas características inférteis da terra que não faz medrar pevide; ou, por acção do devir, uso que ficou nas dobras do tempo.

Contudo, não vá o diabo torcê-las, arrepelam-se-me as tripas ao ouvir o esganiçado cantante em ruído de fundo gritando a plenos pulmões:

Just stop your crying

it's a sign of the times

we gotta get away from here

we gotta get away from here

just stop your crying

it'ill be alright

they told me that the end is near 

we gotta away from here

"Sign of the times " - Harry Styles


FUI!

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Serenata à chuva

Dos poucos trilhos que fiz para os lados de Sever do Vouga, perdurava na lembrança as encostas despidas invadidas pela massa disforme de eucaliptos, cenário desolador a aproximar-se célere da desilusão.

Apesar desta pré-contingência, a vontade em botar solas ao caminho "irracionalizou" toda e qualquer demanda da prudência em matéria de juízo feito: mesmo à bategada de água caída dos céus, chuva civil não molha militar! Avante até Couto de Esteves - ver aqui 

Couto de Esteves, freguesia pertencente ao município de Sever do Vouga, é terra antiga com foral atribuído em 1128 por D. Teresa e D. Afonso Henriques. 

São quase 900 os anos que nos separam de então e, naturalmente, quase tudo terá mudado; mas é sempre emocionante pisar, sentir, quase cheirar ou tocar essa camada invisível formada pelo respeito devido e o espanto assarapantado que os curtos 80 anos de vida caídos em sorte nos obrigam.


Cedo começou a dissipar-se o temor de mais um pedregulho visual atirado de rompante ás minhas retinas à medida que nos embrenhávamos no mato, saídos do meio da pedraria erguida casa, assoberbados pelo verde vivo e prenhe de fulgor - e não apenas por culpa da chuva! 

Quando miriades plantas, plantinhas, plantonas honram o trajecto com a sua presença; quando o cenário se ergue à altura de um castelo, como um baile de sombras à nossa passagem; quando a matiz se expande pelas léguas em redor - não há, não pode haver, ser vivente, consciente - ou não, dizem - que não seja de súbito abalado pelo frémito de vida que se descobre ou intui em cada rincão. 


Apesar da chuva insistente, embora miúda, e do céu permanentemente nublado, toda a envolvente respirava viva e convidava ao avanço por entre veredas de bosque, acompanhando levadas e o rumorejar constante de regatos e ribeiros. 


De surpresa em surpresa até à loucura geral: a descoberta diz-que-é uma-espécie de Golden Gate Brige perdida nos confins de uma qualquer impenetrável floresta tropical esquecida nos tempos e à qual não faltou a fantasmagórica e sinistra figura do cobrador de passagem.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Lei da Gravitação Universal




                                                  (fofo de José Pereira da Silva)

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Viagens sem molhar os pés - II

Com Fernão Mendes Pinto - "Fernão, mentes? Minto!" e as suas venturas, aventuras e desventuras na Ásia, em tempos de potência planetária espalhando Albuquerques terríficos por quanta terra havia. O fabuloso relato divide opiniões quanto à sua veracidade e rigor histórico - diz-se que o Fernão seria dado um pouco a exageros, aumentando e inventando muitos dos feitos de que se ufana, adoçando a "...rude e tosca escritura..."deixada de herança aos filhos, "...para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos que passei no discurso (decorrer) de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido..." lá para os confins da Ásia. 

Enquanto repositório da narração das andanças da pobre criatura, sempre em bolandas - ora no meio do mato, ora na luta contra os mouros, pasmado pela chusma diversa de plantas e animais (alguns, claramente saídos da fértil imaginação do autor), Peregrinação convoca-nos para esse terreno mítico onde se misturam os feitos heróicos, a história e as estórias que o peso dos séculos transforma em encantamento. Real ou fábula, o que interessa?


Acompanhei a leitura dos dois volumes com a audição de "Por este rio acima", de Fausto Bordalo Dias. Obra de génio, álbum fundamental no compêndio de história da música portuguesa e em qualquer discoteca de bom gosto. Inspirando-se em capítulos da narrativa, Fausto escreve-rescreve-trescreve, ou des-escreve o original e faz parir de sua pena 15 textos que, não o sendo, são: originais!

Na Planície das serpentes, o autor, Paul Theroux, um habitual por estas paragens, provavelmente o melhor escritor de viagens do mundo - não confundir com guia turístico! -, relata-nos a viagem de carro ao longo da fronteira dos EUA com o México. 

O livro é recente - 2019 - e abarca, como não pode, o não tão actual problema das migrações e a tentativa desesperada dos países desenvolvidos em barrar a entrada no seu território aos milhares fugidos da tragédia e da miséria. O muro do Trump é apenas mais mediático que as nossas fronteiras, as da Europa; portanto não é um tema exclusivo dos americanos, mas que toca a todos.

É um relato pungente da miséria com a salvação à vista do olhar no outro lado da barreira, cuja ânsia de fuga é impiedosamente explorada pelos cartéis de droga. Toda a violência dos grupos armados e do Estado é primorosamente narrada, bem como a brutalidade policial, a corrupção e o medo que tolhe vontades. 

Por fim, sendo um regresso ao início, a Biblia. Confesso nunca haver passado estes que a terra há de comer pelas páginas da Bíblia, ora por distanciamento, ora por desconhecimento na forma de a abordar. Não sentia uma carência, do ponto de vista religioso, mas sim um vazio cultural assente na ausência de um texto fundamental na construção do caminho para milhões de pessoas.

A nova tradução, por Frederico Lourenço, mantendo o rigor do texto religioso, pretende-se sob uma perspectiva não-confessional revelando-se como matéria de estudo universitário, onde as notas explicativas ganham protagonismo. Uma Bíblia com sentido pedagógico nos seus comentários era o que faltava a um analfabeto nestas matérias - tal como eu!

Por ora, estou lendo o 3º de 6 volumes - o primeiro livro do Antigo Testamento: Os Livros Proféticos. 


Sendo como livro de viagens a ultima categoria em que incluiríamos a Bíblia, também neste modo "escape" ela pode ser lida, atendendo à vastidão geográfica e (in)temporal do seu texto, permitindo uma imagética infinda qualquer seja o pendor que queiramos dar à obra. Chegou tarde, mas ainda veio a tempo.
Ainda sobram alguns exemplares que o SARS-CoV-2, covid 19 para os mais íntimos, fez o especial favor de juntar a esta grande viagem e que oportunamente trarei à montra.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Viagens sem molhar os pés - I

Só está parado quem não anda! 

Sentença clara como a água, assemelhando-se na essência às previsões diárias do horóscopo: de tão amplas e vastas, não há quem não vislumbre um tiro certeiro no alvo das dúvidas que nos assolam.

A paragem forçada a que nos obriga a peste - aqui e ali fintado o degredo, à laia de contrabandista iludindo as autoridades - remete-nos para uma fundamental característica da nossa condição humana: a adaptabilidade. E de tão velho, mas sem cair, o provérbio que nos aconselha a caçar com gato, à falta de fiel canídeo.

Adormecidas as botas, amorfanhada a mochila, eis a tentação do relaxe sugando-me as intenções; a vil e mesquinha preguiça arrastando-me à sua presença e ditando cristalino parecer: o que vais fazer?

E eu, humílimo de tão ser que é vaidade, deitei-me à cama a pensar. Aborrecido, de tanto penar o cérebro, busquei um livro para distracção momentânea na certeza de haver resolvido o dilema antes do tardar do dia.

E então, num súbito estendido nos meses, descobri as falhas na mecânica celeste que rege a ordem dos mundos no seu vagar de séculos de séculos; a histórica omissão nos compêndios da física nos seus ditames doutrinais: é possível viajar sem sair do lugar.


Deitado na cama, e sem rigor cronológico, corri Ceca e Meca: Dentro do segredo,  de José Luis Peixoto, fui à Coreia do Norte e ao imenso festival faz-de-conta orquestrado por um estado fechado e controlador das vontades alheias, mergulhando o seu povo num surreal viver, transformando qualquer manifestação própria num emaranhado de proibição e penalização temperadas a medo, muito medo.


Galguei oceanos numa releitura de Na Patagónia, de Bruce Chatwin. Seguramente, 30 anos me separam da leitura inicial e do deslumbramento pasmado com a solidão do sul. 


Subindo um pouco no território, e sem abandonar o sofá, aporto à Bahia de Todos-os-Santos, Brasil. Resultando de um desafio lançado à autora, Alexandra Lucas Coelho, por essa galáxia chamada Caetano Veloso, Cinco voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso é um caloroso roteiro que vai de Jorge Amado a Bethânia; dos terreiros às mães de santo, passando por Itapuã sublimemente cantado/contado por Toquinho e Vinícius.


Nova releitura ao sabor do correr dos dias, alargando distâncias, atropelando o senso comum e a percepção a baloiçar entre o incomensuravelmente pequeno e o infinito. Cosmos, de Carl Sagan,  é uma viagem pelo que É. 

Numa consideração pessoal, comprei o bilhete na altura certa.  


De novo. e ao abrigo da vontade abortada de botar pés ao caminho: Portugal a pé. Relato de um feito de vida a despoletar em mim o mortal pecado da inveja num ano pródigo em frustrações que estas viagens deitado atenuaram.


Notícias do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, é um tratado descritivo das terras de Vera Cruz, una completa  "Descrição verdadeira de todo o Estado pertencente à Coroa de Portugal, da fertilidade dessa província, de todas as aves, animais, peixes, bichos, plantas, que nelas há, e dos costumes dos seus naturais". Delicioso, também, na miríade exdruxula de termos e baptismo de terras, plantas, animais.


Mais um projecto de errância que a foice do vinte-vinte feriu, mas não de morte. Adiado consecutivamente por preguiça, inoportunidade, preguiça e inoportunidade, preparava-me para esta road-trip no ano maldito. Mais uma vez adiada, espero cumprir este ano a travessia da N2 e alimentar esta "certeza / que nasce da minha riqueza / do meu prazer em descobrir" - em regime de empréstimo pelo Sr. Variações.


 
Regressarei oportuno ao tema e a esta ânsia de partida.